" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

08
Ago 05

Um dia, quando criança, minha mãe inventou de nos dar limonada purgativa. Na verdade, um trem amargo pra caramba, comprado na farmácia, numa garrafinha até simpática. Segundo a mãe, aquilo era milagroso: limpava intestinos, estômago e o que mais houvesse em nossos corpos de criança (meus irmãos e eu). Dizia ela: isso vai purificar o sangue! E nós nem sequer protestávamos, pois que parecia mesmo milagrosa essa coisa de limpeza do sangue!

Lembrei dessa história hoje porque filosofava com a analista sobre os meus conflitos profissionais, por acatar ao longo da vida o que a luta política nos revela e impõe, sempre em nome de uma grande causa, tipo: o fim justifica os meios, o objetivo principal é que tem que ser alcançado, e até mesmo “quem tem boca vai a Roma”, embora o camarada Stalin talvez nunca tenha dito isso!

Essa minha rotineira crise de auto-crítica, é costumeira. Penso que nasceu comigo, desde a infância, quando eu me sentia já tão onipotente que achava que as borboletas morriam porque eu não lhes havia prestado a devida atenção.

Mas, de volta à auto-crítica, embora a prática do centralismo democrático nos tenha acachapado quanto à crítica individual - auto-crítica só vale se for coletiva! - eu, sempre um pouco indisciplinada, fazia a minha, ainda que às vezes me trancasse no banheiro e apenas murmurasse minhas culpas ( ou pecados?). Se bem que isso de trancar-se no banheiro tem mais a ver com os ensinamentos do colégio religioso do que com a formação para a militância.

Por que me veio à cabeça a limonada purgativa? Porque enquanto saia do consultório pensava que devia existir uma limonada purgativa para a alma. Daquelas que minha mãe nos dava e que purificava o sangue. Uma limonada pra purificar a alma – que essa “alma” seja entendida não no sentido religioso, pois que ao longo do tempo perdi a fé e a noção de céu e inferno tornou-se uma barafunda! - e que me permita deitar sem insônia, me certifique que tudo vai dar certo no fim. E que eu me convença, pelo seu poder milagroso, que, se ainda não deu certo, é porque não chegamos ao final!

publicado por Adelina Braglia às 20:23

Que continues a deitar-te sem "insônia", convencida de que tudo vai dar certo no fim...
Um abraço de muito longe e tão perto.
Ademar a 9 de Agosto de 2005 às 11:52

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