" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

07
Nov 05

Há muitos dias não falo do meu país. Ele e eu vamos mal. Assim, não me parece adequado o roto falar do esfarrapado.

Quanto a mim, parece que melhoro, apesar dele. Quanto a ele, tem chances de melhorar sem mim. Melhoro vencendo uma melancolia sorrateira que quer me abater todos os dias. Meu país não sofre de melancolias, e não sei como vai superar esse quase desengano que se abate sobre ele.

Uma forma de espantar minha melancolia - que desenha manchas roxas no corpo, como ensinava minha madrinha - é tentar entender os sinais. Sinais indicados pelos pedaços de músicas que amanhecem subitamente na memória. Lá vai a de hoje:

“...e depois que a tarde nos trouxesse a lua,

se o amor chegasse, eu não resistiria,

e a madrugada acalentaria a nossa paz...”(*)

Meu país, também cantante, poderia fazer o mesmo. Lembrar-se de músicas que o incitem a ter esperanças. Uma delas?

“...E no entanto é preciso cantar,

mais que nunca é preciso cantar,

é preciso cantar e alegrar a cidade.

A tristeza que a gente tem,

qualquer dia vai se acabar todos vão sorrir,

voltou a esperança é o povo que dança,

contente da vida, feliz a cantar..” (**)


Mas agora vamos ao Neruda, que faz bem ao país e a mim.


Está tudo florescido nestes campos,

macieiras, azuis titubeantes, capinzais amarelos,

e na grama verde vivem as amapolas.

O céu inextinguível, o ar novo de cada dia,

o tácito fulgor, benesse de uma extensa primavera.

Só não há primavera em meu recinto.

Enfermidades, beijos transtornados,

como heras de igreja se grudaram

nas negras janelas desta vida

e apenas o amor não basta,

nem o selvagem e extenso

aroma da primavera.

E para ti o que são neste agora

a luz desenfreada, o progresso

floral da evidência,

o canto verde das verdes folhas,

a presença do céu com sua taça de frescor?

Primavera de fora, não me atormente,

desatando em meus braços vinho e neve,

corola e galho partido de pesares,

dá-me hoje o sonho das folhas noturnas,

a noite em que se encontram

os mortos, os metais, as raízes,

e tantas primaveras já extintas

que despertam a cada primavera.

(Pablo Neruda – Com Quevedo, na primavera, in Neruda por Skármeta)

(*) Eu e a brisa – Johnny Alf

(**) Marcha da quarta-feira de cinzas – Carlos Lyra e Vinícius de Moraes

publicado por Adelina Braglia às 09:02

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