" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

19
Mai 06
 Eu penso que se comesse chocolate como a menina suja, ou se me casasse com a filha da minha lavadeira, testaria a tese de Fernando Pessoa sobre ser modestamente, simplesmente, vagamente ou calmamente feliz.

As escolhas não têm controle. Mas, eu “começaria tudo outra vez, se preciso fosse...” como cantou Gonzaguinha, porque não há arrependimento, nem pena, nem raiva. Há um acúmulo de vida construída. E tanta, tanta solidariedade, que a raiva, se existe, é de não termos sabido como preservar tudo isso! Mas, o descuidado jeito com que descuidamos de nós é que nos foi fatal.

Hoje, com uma dor fininha pelo meio, entendo que se encerrou uma longa história que quando for refeita será com outro foco. Na ponta do lápis: 32 anos. Caramba! Até que resistimos muito bem a nós

No balanço geral há tantos risos, carinhos e sonhos que a sensação é de um enorme oco no peito. Mas que não dói. É a dimensão do vazio, a dimensão do insubstituível, que incomodam. Nada vai ser assim, nem sequer parecido. Nunca haverá um amor como o nosso. Você e eu poderemos ser muito felizes, mas com outros gostos na boca.

O vôo de volta me permitiu pensar a vida como um filme passado nas paredes da memória. Não há culpas, penso eu. Nem há ninguém que possamos responsabilizar pela nossa separação. Nem mesmo meu coração “leviano” porque ele nunca o foi. Nem o seu silêncio renitente naquele recente período de dúvidas pra você e de tantas certezas pra mim!

Foi o tempo, o maldito tempo, que consolida ou deixa frágil, que junta e separa, que faz e desfaz.

Gostaria sim de ser mais simples, como às vezes a vida merece ser. Mas, não! Tenho em mim todos os sonhos do mundo, parafraseando de novo o poeta. E o sonho coletivo sempre sufocou o individual, se bem que neste instante eu não tenha certeza deste argumento. Tenho uma arrogância tamanha sobre as minhas possibilidades de controle! E nelas é que me deixei ficar, ficando longe, ficando cada vez mais certa dessa incerteza que fomos nós nessa última década da nossa forte vida.

Virá um tempo de risos, de abraços apertados, de carinho, que persistem e que resistirão ao nosso atual desencontro. Nosso amor foi muito maior e mais sólido do que percebemos e o nosso laço não se rompe como fio de linha. Mas, agora não. Eu sei. É tempo de lamber as feridas, de cura-las e deixar que cicatrizem.

O abraço fica aqui guardado, pra quando você puder e quiser receber. Quando as nossas cicatrizes forem só um troféu que queremos guardar pra sempre e pudermos abrir nossos braços pra uma imbatível amizade.

Beijo você. À distância, como nos últimos anos, mas muito mais perto do que sempre estivemos.

publicado por Adelina Braglia às 02:04

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