" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

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Nov 10

 

Percebo, tardiamente, que sou uma viajante, ainda que tenha ficado entre os pontos de partida e de chegada. Não conheço países que não o meu. Uma viagem juvenil à Bolívia e Peru não conta. No entanto, cada vila, comunidade, povoados e cidades  que percorri, são um universo particularizado. Chego a ver em cada um deles, bandeiras tremulando, exércitos em sua defesa.

 

Descubro também porque o nome deste blog surgiu sem nenhum vacilo quando o criei. Relatos de uma travessia de um ponto a outro, esse era o sentido. De dentro para fora de mim. E essa é a minha característica de viajante.

 

Aprendi cedo a ouvir escutando e a falar com sinceridade. Minha bagagem foi  essa e, talvez por isso, me igualei aos muitos que conheci. Não tínhamos patrimônios materiais para carregar ou defender. Tanto é assim que agora, na travessia final  de volta pra mim, não há o que transportar. A Lusitânia não será necessária.

 

Não, esse não é um auto-elogio. Não me vanglorio da incapacidade de acumular. Eu a reconheço tal como é: uma incapacidade. Que, talvez, tenha dificultado em parte minha vida, mas que  não me entristece nem diminui.

 

Nestes dias de silêncio, a proximidade da volta parece exigir um balanço afetivo da longa jornada, mas ao tentar fazê-lo sou sempre interrompida pelas memórias de pessoas e lugares. Não há feitos ou mal feitos. Há pessoas e lugares.

 

As casas com minúsculas janelas, construídas como se aqui não fizesse calor 12 meses ao ano, a poeira das vicinais, os arremedos de escolas sem estruturas, carteiras, lousa de giz, ainda freqüentes em algumas comunidades, mas lotadas de esperança. Muitas vezes lembrava a canção Gente Humilde, e as flores baldias estavam lá. Mas, não eram tristes.

 

Os rostos vincados de rugas e de sol, os risos adolescentes, a alegria infantil também nos adultos. Os sons. As danças. As cantorias. E muita, muita fé, sempre. Os padroeiros das vilas, as rezas, as ladainhas.

 

Ficaram muitas frases, pedaços de conversas, ensinamentos. Aqueles aos quais sabedoria se sobrepõe a títulos e livros. Carrego muitos comigo e  me serviram em situações bastante diversas daquelas onde foram ditos.

 

É uma memória de afetos e aprendizado. Que se unem à certeza de que agora a travessia precisa ser concluída, movida pela necessidade atávica da volta para casa, para onde o umbigo foi enterrado.

 

Sou uma viajante. Sem passaporte, sem malas, sem carimbos. E, de repente, gostei muito de ser quem sou.

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 07:44

Que bom que a sua volta "ao lar" se aproxima!
Eu amo voce por ser quem é! A sua riqueza não está depositada em bancos e nem se carrega em malas, pois ela está dentro de voce: no seu caráter, nos seus sentimentos, na sua solidariedade e na sua honestidade.
Beijos
Cleide a 10 de Novembro de 2010 às 16:19

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