" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

19
Mai 08

 

A questão das cotas raciais remexe a sociedade brasileira e seus nichos de elite: as Universidades e os intelectuais. A disputa dos manifestos pareceria um Palmeiras e Corinthians ou um Fla x Flu, e seria engraçada, se não expusesse a fratura racial da sociedade brasileira.
                                      
Dois manifestos foram entregues ao Supremo Tribunal Federal, um a favor e o outro, contra. Os que assinam a favor das cotas são velhos e aguerridos militantes do movimento negro e democratas que engajam-se em todas as lutas por direitos e desejos humanos. Ali não houve surpresas.
                                                             
Para mim, as surpresas ficaram restritas a alguns que assinaram contra a implantação de reserva de cotas nas universidades públicas brasileiras,  e considerados progressistas nas suas áreas de atuação: José Arbex Junior, Luiz Werneck Vianna, Lya Luft, Rodolfo Hoffman. Outros, eram esperados e devem ter encabeçado o movimento, conhecidos que são pelos argumentos bastante acatados pela mídia, pelos jornalões, pela Rede Globo sobre a tese da miscigenação como o caminho da cordial sociedade “mestiça”: Demétrio Magnoli, Yvonne Maggie, Peter Fry. Quanto à presença de Caetano Veloso entre esses, é apenas o velho Cae seguindo sua rota de canastrão após meados dos anos 90. Afinal, envelhecer não é para todos.
 
Os argumentos gerais dos “contra” baseiam-se na Constituição e já foram derrubados pelo Ministro Carlos Ayres no primeiro voto a favor das cotas no STF, que observou que a Constituição brasileira garante tratamento desigual aos desiguais. Os argumentos diretos remetem até a frase de Marthin Luther King retirada do seu contexto histórico e à afirmação “... as cotas raciais nos Estados Unidos não contribuíram em nada para reduzir desigualdades, mas aprofundaram o cisma racial que marca como ferro em brasa a sociedade norte-americana.” Como eles não desconhecem a história americana, considero gracioso - ou melhor,  racista - esse argumento, como se o problema racial norte-americano tivesse sido agravado pela implantação das cotas. 
 
Lembro que mesmo num regime declaradamente racista, os negros escravizados americanos receberam quarenta acres de terra e uma mula - não por coincidência o nome da produtora de Spike Lee – e os nossos receberam unicamente a porta da rua, dando seqüência a uma vida de exclusão, miséria e discriminação.
 
Outra “dúvida” dos “contra” é como se identifica quem é branco e quem não é. Resposta simples: pelos mesmos critérios que fazem com que o olhar branco da nossa sociedade achasse natural que durante décadas os negros usassem o elevador de serviço, ou  que as mulheres negras tenham menos consultas pré-natal do que as mulheres brancas, ou que a “intuição” do patronato garanta que os trabalhadores negros ganhem em média 40% a menos do que os trabalhadores não-negros.
 
Os dois documentos foram anunciados assim pela maioria da imprensa: “Intelectuais entregam ao Supremo manifesto contra as cotas.”. “Militantes entregam ao Supremo documento a favor das cotas”, tentativa clara de desqualificar um documento feito por “militantes”. Entre os “militantes”, Oscar Niemayer, Nelson Pereira dos Santos, aristas negros e não-negros.
 
Os documentos estão disponíveis na WEB. Eu li os dois. Dediquei bastante atenção ao "contra” para melhorar meus argumentos a favor.
                                                                                   
publicado por Adelina Braglia às 20:46

2 - Principalmente contra os negros, pois os considera desiguais, essencialmente e irrefutavelmente inferiorizados socialmente pela cor de sua pele. Os considera necessariamente mal formados e menos preparados por terem a pele negra, igualando a cor de sua pele a uma deficiência que os impediria de assumir vagas destinadas aos "normais" e de competir por essas mesmas vagas. Estigmatiza o negro como vitima, como coitado, como segregado, que deve ser tratado com compaixão em vez de com cidadania.

3 - Contra toda a multitude étnica brasileira, além dos mestiços, que não se enquadram no programa, nem estão representados.

4 - Contra os descendentes brancos de escravos. Se a idéia é uma reparação ao holocausto escravista, todos os descendentes deveriam ser igualmente contemplados, e não apenas os negros. A verdade é que a maioria dos brancos também são descendentes de escravos. Pouquíssimos são os descendentes puros de europeu. A maior parte dos brasileiros, seja qual for a cor da pele, tem ascendencia tanto afriacana, quanto européia e indígena.

Por favor, não gastem sua energia atacando instituições que não discriminam cor de pele nem origem social. A verdadeira máquina da manutenção de algumas poucas famílias brancas no poder por séculos não é outra senão a CORRUPÇÃO. Essa sim deve ser combatida a todo custo, e não um pretenso "white privilege". Se as leis não são racistas, por que não lutar para que sejam cumpridas, em vez de fabricar um racismo?


Só pra fechar, acho que todos se lembram do que aconteceu na alemanhã do início do século XX, quando a maioria da população, de etnia germanica, resolveu apontar a "elite judia privilegiada" como causadora de todos os seus problemas.


um abraço,
lucas

lucas a 29 de Maio de 2008 às 15:53

Caro Lucas,

algumas das suas hipóteses dificilmente se realizariam. As duas crianças nascidas em situação semelhante, uma branca e outra negra, seguiriam trajetórias diversas, que os dados nacionais comprovam.

Em 2006, a população negra de 15 a 17 anos que cursava o ensino médio (37,94%) distanciava-se 20,9 pontos percentuais da dos brancos (58,3%). No ensino superior, a proporção da população negra com escolarização na idade correta foi de 6,1% - 12,7 pontos percentuais menor que a da população branca.

Do ponto de vista da saúde, os dados também são ruins: o Programa Nacional DST/Aids-MS face às tendências de pauperização e de feminização da epidemia estão demonstrando que a população negra encontra-se em desvantagem social no que se refere à construção de respostas efetivas no combate à epidemia.

Há muitas informações Lucas. caso vc se interesse, deixe um recado que eu indico uma bibliografioa para você.

Um abraço

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