" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

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Dez 09

 

Um poema de Geir Campos retrata a nossa trajetória republicana, ainda que não sejamos uma República. Nem uma democracia.
 
Jamais, em nenhum momento da nossa história houve um governo que obedecesse a simplória definição de governo da maioria, ou do povo para o povo. Os bandos se repartem entre os que acham que sabem o que o povo deseja e necessita e os que estão se lixando pra isso.
 
Amanheci  hoje lamentando profundamente todas as mortes dos patriotas que julgavam estar fazendo a história avançar. De Zumbi a Carlos Lamarca. De José Montenegro de Lima a Gabriel Pimenta. De Paulo Fontelles e João Carlos Batista. Lamento também a morte silenciosa e abandonada de Carolina de Jesus.
 
Achamos que a democracia foi conquistada porque nossos irmãos, filhos, maridos, irmãs e companheiras não morrem mais nos porões da ditadura. Ou porque não há nenhum general de plantão. Não há mais Herzogs e parece que isso nos basta.
 
A mim, não. Estivessem vivos ou vivido um tempo além do assassinato, e estaríamos melhor., Detesto heróis. Talvez tanto quanto assassinos.
 
Alguns de nós até acham que milhões de analfabetos, de famintos, de brasileiros aquém de qualquer conceito de cidadania ou de civilidade são uns ingratos! Não reconhecem nosso heroísmo! Não cultuam nossas biografias, nem nos homenageiam nas praças com estátuas de corpo inteiro ou bustos. Mas parecem esquecer-se de que a política mais “altaneira” ainda se faz nos versos de Geir.
 
Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.
 
 
Não haverá jamais o tempo dos frutos doces? Ou tratos impossíveis de serem cumpridos porque nunca foram feitos? Quando a gente exausta poderá ser apenas gente?
 
Quando será a hora de cuspir?
 
Saravá, Yemanjá.
publicado por Adelina Braglia às 12:53

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