" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

18
Out 09

 

 
Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa rapacidade
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.
 
(Poemas aos Homens do nosso Tempo, II – Hilda Hilst )
 
 
publicado por Adelina Braglia às 11:04

publicado por Adelina Braglia às 10:09

13
Out 09

 

Despeço-me do Pará, neste tempo que me falta para ir embora, numa simbólica diuturna despedida de Belém. Faço isso sem mágoas, mas com alguma tristeza.
Desencarno vagarosamente das pessoas cansadas que dividem comigo o desconforto do péssimo transporte coletivo. Das que se aboletam nas ruas esperando o ônibus, porque a calçada está tomada por barracas, por táxis e carros particulares que fazem dela seu estacionamento. Despeço-me da tão decantada e falsa alegria do nosso povo e do gosto do açaí e do cupuaçu.
Despeço-me de Belém, dia após dia, e os contornos da tristeza se definem pela constante e desesperançada ausência de cidadania.
Passeio meu olhar pela cidade, nos trajetos que tão bem conheço e não reconheço neles mais a cidade onde um dia quis vir morar. Cada esquina, cada rua, cada praça, parecem perder-se do conjunto daquilo que conformaria uma cidade, se ela assim quisesse ser.
Quando a vi pela primeira vez, numa véspera de ano novo em 1976, tive a impressão de ver uma adolescente. Maldosamente sensual e angelicamente indefesa. Mas a Belém que enxergo hoje parece mais com uma decadente senhora, cujos encantos foram sugados pelo tempo, cujas plásticas não surtiram efeito e em quem as aplicações de botox foram desfeitas.
Quando saio deste devaneio sei que Belém nunca foi uma adolescente, nem é uma senhora decadente. Essa imagem suaviza a verdade: esta é uma cidade abandonada à própria sorte, amaldiçoada pela elite mesquinha que a suga e entregue a um indefinido destino pelas desventuras de quem a habita no andar debaixo.
Das janelas de Belém diviso o Pará - diverso, heterogêneo – e recaio na imagem comparativa de um homem, já não mais tão jovem, e fica impossível imaginar coisa melhor para descrever este Pará de hoje do que os versos de Ruy Barata:
Saberás quem somos
pela ausência da voz,
pelo rio envelhecido
e na fadiga das frases dissipadas.
Diante de ti a nudez falará por nós
pois as dádivas e sonhos dispersamos
e as mãos vazias dissiparam o tempo.
A fêmea e a cidade conquistamos,
mas do Invisível
a rosa que colhermos será sempre
viçosa e fresca sobre a nossa tumba.
Somos da terra o sal
mas nem sabemos
e deitados na Parábola morreremos
na primavera das palavras novas,
no segredo que faz nossa alegria.
Estrangeiros na pátria que elegemos
vazios do santo amor,
pobres da Graça,
a saudade da hora não cumprida,
a tristeza do rei que inveja o escravo.
 
 
PS: este foi postado também no Monólogos.
publicado por Adelina Braglia às 23:50

12
Out 09

  

 

Acabo de assistir Grey Gardens, na HBO. Uma adaptação para a tevê do documentário dos irmãos Maysles, feito em de 1975. As personagens, Edith Bouvier Beale, mãe e filha com o mesmo nome,  vivem juntas a decadência cotidiana, silenciosa,  numa imensa casa de campo, presas a si mesmas e ao passado. Rodeadas por gatos, fotos antigas e uma eletrola, rememoram os dias de glória, de glamour, contam os centavos, dividem com os gatos sua comida e conservam no olhar o brilho dos sonhos que não realizaram, especialmente Edith, a filha, enquanto a casa rui à sua volta.
O parentesco delas com  Jacqueline Bouvier Kennedy (tia e prima), não significa grande coisa, a não ser pelo escândalo nos jornais, quando o departamento de vigilância sanitária  do condado de Nova Iorque, onde elas moravam, interdita ao casarão por absoluta falta de condições de habitabilidade. Uma interferência de Jacqueline serve para recuperar a casa e dar-lhes condições de moradia.
O que dá grandeza ao filme, cujo enredo trivial não chamaria muita atenção, é a degradação do mundo em que as Beale viveram e cultivam nas suas memórias e encenações para o documentário, e a realidade da casa ruindo, como o passado que não volta mais.
Embora no filme só se veja os gatos, na ratoeira do tempo é que está ancorada a emoção.

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 19:05

11
Out 09

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 21:33

08
Out 09

 

 

 

Uma fantástica demonstração de fé é o Círio de Nazaré.
A mais profana festa religiosa brasileira acontece neste domingo, em Belém do Pará.
A mais heterogênea procissão do mundo, comove  ateus.
O Círio de Nazaré.
Os pequenos anjos  navegam em barcos de miriti.
Nossa Senhora da Berlinda, olhe por nós.
 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 22:06

04
Out 09

 

 

 

Foto: Agenciaestado.

publicado por Adelina Braglia às 20:25

02
Out 09

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 10:48

 

 ... mesmo sabendo que tudo muda. Às vezes, para pior.

 

publicado por Adelina Braglia às 09:44

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