" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

17
Set 09

 

Meu pai cortava o abacaxi no sentido do comprimento. Acostumada a ver maravilhosas rodelas de abacaxi na casa dos outros, perguntei a ele porque não o cortava em fatias redondas.
 
Pacientemente, como era do seu feitio, explicou-me que o abacaxi tem uma extremidade doce e a outra azeda. Que ao corta-lo em rodelas, reserva-se as fatias doces para uns e as azedas para outros. Cortando no sentido do comprimento, come-se o doce e o azedo. A explicação me satisfez e nunca mais me incomodou ver abacaxi em rodelas na casa dos outros. Gostava dos pedaços da minha casa, onde o azedo e o doce se misturavam. E, quase sempre, é assim que eu o corto.
 
Lembrei disto hoje pela dificuldade que tive anteontem para explicar-me bem à amiga sobre meu comportamento de dar esmolas, cigarro, lanches, a quem quer que me peça na rua, e às vezes, o último tostão que tenho na carteira.
 
Não consegui explicar-me bem e saí incomodada por não ter resposta que convencesse a mim, não a ela, que não me cobrava nada. E, na minha lentidão,  não me livrara da sensação incômoda até agora. Pensei que não o faço por piedade, sentimento que aprendi a não cultivar e que diferencio da comiseração. E também não acho que eu seja uma pessoa que se sente magnânima ao fazer isso. Não, não me sinto. Na verdade é quase um gesto automático atender quem me atalha.
 
Daí a teoria do abacaxi me socorreu ontem à noite, quando cortava um: a vida dá a algumas pessoas só as fatias azedas, queiram elas ou não, sem critérios de merecimento. Assim como, aleatoriamente, reserva a poucos apenas fatias doces, suculentas. Mas, felizmente, permite que alguns a "devorem" na vertical, entre o amargo e o doce, às vezes agridoce. Talvez por isso eu não questione nunca meu gesto de atender pedidos na rua. Os que me pedem um trocado, um cigarro, mentindo ou não, ficaram com as fatias azedas da vida. Eu, felizarda, sempre comi o pedaço com as duas pontas.
 

E, de repente,  ficou muito simples explicar-me, Ana Diniz... rsrsrs....

publicado por Adelina Braglia às 10:59

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