" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

04
Jun 08

 

 

  Para o Sérgio.

  

Na semana passada, fotos mostraram povos indígenas que iem na fronteira Brasil-Perú. Ainda isolados,  mereceram manchetes. Como se fossem uma nova espécie de girafa descoberta na floresta.

 

Sérgio lembrou de Borzeguim. Perfeita lembrança. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

"... Deixa o tatu-bola no lugar
Deixa a capivara atravessar
Deixa a anta cruzar o ribeirão
Deixa o índio vivo no sertão
Deixa o índio vivo nu
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa, deixa
Escuta o mato crescendo em paz
Escuta o mato crescendo
Escuta o mato
Escuta
Escuta o vento cantando no arvoredo
Passarim passarão no passaredo
Deixa a índia criar seu curumim
Vá embora daqui coisa ruim
Some logo
Vá embora
Em nome de Deus é fruta do mato
Borzeguim deixa as fraldas ao vento
E vem dançar
E vem dançar
O jacu já tá velho na fruteira
O lagarto teiú tá na soleira
Uirassu foi rever a cordilheira
Gavião grande é bicho sem fronteira
Cutucurim
Gavião-zão
Gavião-ão
Caapora do mato é capitão
Ele é dono da mata e do sertão
Caapora do mato é guardião
É vigia da mata e do sertão
(Yauaretê, Jaguaretê)
Deixa a onça viva na floresta
Deixa o peixe n'água que é uma festa
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa
Deixa
Dizem que o sertão vai virar mar
Diz que o mar vai virar sertão
Deixa o índio
Dizem que o mar vai virar sertão
Diz que o sertão vai virar mar
Deixa o índio
Deixa
Deixa"
 

 

(Borzeguim - Tom Jobim)

 

 

Foto: Edvaldo Magalhães.

 

publicado por Adelina Braglia às 13:13

 

 

 

 
 
Lula compra mais dois aviões e decide que tem a solução para os problemas do mundo. Sua equipe aproveita: desenha a cruzada do etanol, para consumo interno, naturalmente, que lá fora os senhores do mundo se limitam a recebê-lo educadamente, de olho no quintal que mais rende dinheiro para quem já tem, e marcar a próxima conferência.
 
Celso Amorim reforça a cruzada marqueteira, afirmando que ninguém pode ensinar o Lula a combater a fome. Tem razão duas vezes: primeiro, porque ninguém pode ensinar nada ao Lula, visto que o aprendizado é uma decisão do aluno. Segundo, porque Lula soube como ninguém matar a própria fome de poder – e, pelo que se diz, sua família está em condições de passar a caviar até à quinta geração.
 
Isto é a mão direita, e Lula é religioso: como diz a Bíblia que a mão direita não deve saber o que faz a esquerda, a outra mão de Lula desenha uma Previdência literalmente nivelada por baixo, pelo mínimo, e acena generosamente para os bancos e seus planos. Estes, gratíssimos, dão nota 10 para o Brasil: no mundo inteiro, em todo o mundo, nenhum banco ganha tanto dinheiro e tem tanta folga de controle. Afinal de contas, quando um banco brasileiro está prestes a falir, o banco central paga, o dono vai para a Europa e some, ou então fica desfilando por aí, respondendo a processos intermináveis até que morra ou passe da idade de ser preso.
 
Os xeques árabes devem babar de inveja: o Corão proíbe juros, ou melhor, proíbe a manipulação do dinheiro. Eles têm que usar artifícios para ter rendimentos de capital, ou jogar o dinheiro nas bolsas infiéis. Recentemente, num desses emirados, o xeque foi despachado para casa, devidamente desafortunado, porque cometeu crimes semelhantes aos do Delúbio e do Zé Dirceu. E ele era um dos donos do dinheiro...
 
Mas os xeques salgam os preços do petróleo, enquanto montam usinas de dessalinização da água e previnem o futuro. Os Estados Unidos já iniciaram as pesquisas da qualidade da água, prevendo que usarão brevemente suas reservas. O leviano Brasil não se importa: a maior bacia hidrográfica do planeta está sendo contaminada de forma atroz, e ninguém nem toma conhecimento. Literalmente: não há qualquer pesquisa a respeito.
E toma cruzada marqueteira repetindo o Grande Brasil da ditadura, que repete a França Profunda francesa, que repete o New Deal americano, que repete o Império onde o sol nunca se põe, da Inglaterra, que repete um livrinho amaldiçoado, mas seguido à risca, desde que foi escrito: o Príncipe.
 
Pois que deve o príncipe buscar motivos externos quando a situação interna piora, fazer uma guerra para se desviar das crises intestinas, montar uma cruzada se o governo estiver difícil. Mesmo que seja a cruzada das crianças para libertar Jerusalém, ou a do etanol para salvar o mundo
 
(ANA DINIZ, jornalista)

 

publicado por Adelina Braglia às 06:20

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