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Deixa...

Terça-feira, 15.01.08

 

Deixa que eu escape às vezes, porque ainda assim eu não estarei distante de você.
Estarei apenas fora do alcance das suas mãos.
 
Deixa que eu me afaste de você, indo cabeça a dentro, para espanar as memórias e as aflições. Essa é uma tarefa que preciso fazer sozinha. E eu sempre volto.
 
Não se zangue se em alguns momentos eu pareço não ouvir ou se meus olhos não se fixam nos seus. Ainda assim eu a ouço e vejo. Apenas não consigo retornar com a pressa que você precisa.
 
Não se perca de mim, perdendo-se assim nas coisas pequenas do cotidiano. Não é verdade que são elas as mais importantes. Elas são apenas as coisas pequenas do cotidiano.
 
Dê descontos à minha preguiça, ao meu ainda não recuperado ânimo. Considere, sempre, que eu tenho, quem sabe por herança genética, um lado cinzento. E nele eu habito sozinha.
 
E que é improvável que eu seja quem não sou. E que se é a isso que se chama egoísmo, essa é a minha doença adicional. Aliada à melancolia diagnosticada.
 
E quando eu me perder de você, às vezes - porque é da minha natureza - leia o poeta e relaxe, enquanto isso corresponder ao que você necessita:
 
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
 
 (Fernando Pessoa)

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Chuva.

Terça-feira, 15.01.08

 

A chuva me abate a tiros d’água!
 
 
As pessoas parecem mais tristes, as ruas mais sujas, o ânimo baixa a nível zero.
 
 
Uma calmaria toma conta da minha já pouca vontade de fazer qualquer coisa, em dias como este. Daí a ficar pensando e pensando, é só um pulo. Um salto. No escuro das memórias e do tédio de rodar em volta de mim. E com isso, aproveitar para me desculpar.
 
 
Hoje pela manhã tentava ser didática para dizer à Amanda que o homem é mau por natureza. É cruel, dominador. O que o contém são as regras, as normas, as leis. E que quando estas são desrespeitadas e rompidas, o portal da barbárie está aberto.
 
 
Esta conversa foi antecedida da notícia do espancamento de um garoto de 13 anos pela polícia de Recife. Notícias como essas são recorrentes. Cotidianas. Mas hoje, quem sabe pela chuva e pela minha alma molhada já ao amanhecer, apavorei-me. Senti a dor das cacetadas. Temi por meus filhos, pelos amigos, pelos estranhos.
 
 
Nossa conversa se alongou e me arrependi da minha veemência, pois quando ela saiu da sala, parecia abatida pelo meu desconsolo. Disse-lhe tantas verdades – minhas – acachapeia-a com a minha experiência e idade. Esqueci que na sua idade – 20 e poucos anos – eu saí para o mundo acreditando que transformá-lo era possível e que minha missão na terra – oh! Céus, como me achava importante – tinha que ser cumprida.
 
Saí de casa nos meus 20 e poucos anos acreditando que o homem é bom, que a sociedade é que o corrompe etc. e tal e que então – plim!plim! – mude-se a sociedade. Se eu ainda acredito nisto? Acredito. Mas acho que já perdemos o bonde. E que o descumprimento das regras e das leis – desde aquela que garante ao cidadão vida digna, com moradia, trabalho, saúde, educação, cultura e lazer – não retroagirá.
 
Pensei e disse a ela que as notícias de agressões policiais eram um limite insuportável para a minha crença na sociedade como contenção. Porque eu entendia que quando o cidadão é detido, é o momento em que ele é total e absolutamente responsabilidade do Estado. Mais do que quando demanda saúde, escola, trabalho ou moradia, porque de qualquer uma destas demandas, ele não é refém. Mas quando ele é detido ou preso, ele é refém do Estado. E que se o agente deste Estado o agride, ultrapassamos o limite do suportável.
 
Quero desculpar-me com ela. E comigo. Pedir desculpas pela minha descrença, pela fé que perdi num pedaço do caminho que não mais recuperei. E para parar de envergonhar-me pela missão não cumprida e para expor minha presunção de ser responsável (culpada?) por todas as maldades do mundo. E para que ela não desista de acreditar. Nunca.
 
Se amanhã houver sol, estarei melhor.
 
 
Um beijo, Amanda.

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