" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

09
Nov 07

 

 

Há muito tenho vontade de escrever a história recente do Brasil através da música. Sei que a idéia não é original e lembro que já houve espetáculo teatral nessa direção.
 
Ainda assim, gostaria de fazer um roteiro, começando pelo fim do primeiro governo Vargas e sua volta ao poder. 
 
Recorro ao site do Franklin Martins  para recolher a letra da marchinha da qual ainda sei a melodia que, embora sendo de 1951,  eu me lembro de ouvi-la com freqüência nos idos de 1954:
  
 
“Bota o retrato do velho outra vez
Bota no mesmo lugar.
Bota o retrato do velho outra vez,
Bota no mesmo lugar.
O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar (Bis)

Eu já botei o meu ...
E tu, não vais botar?
Já enfeitei o meu ..
E tu, vais enfeitar?
O sorriso do velhinho faz a gente se animar (bis)"
 
  
Juscelino personificou um período de paz e de confiança no gigante adormecido que finalmente acordava.  Acreditávamos num Brasil que seria o gigante do futuro e podíamos exacerbar a nossa individualidade, cantando o barquinho e a flor.
 
Lembro que a música “... varre, varre vassourinha, vai varrer a prefeitura...” que depois Jânio usou para sua campanha à Presidência. Contra o Marechal Lott, que meu padrinho, bom comunista, apoiava firmemente, ainda que a madrinha e minha mãe fossem janistas roxas!  A madrinha, quando Jânio renunciou, rasgou seu título de eleitora para nunca mais votar!
 
Os anos de chumbo vieram depois do maluco do Jânio Quadros. A ditadura se impôs mas ou pour cause a jovem guarda pode cantar o seu carro veloz com Roberto, Erasmo e outros, até serem atropelados pelos baianos que vinham nos dizer que acima de Queluz tudo era Bahia. E Tom e Chico falavam da dor do retrato em branco e preto.
 
Chico foi quem retratou com composições memoráveis quase trinta anos de tormenta. Carolina saiu da janela, a Rita levou o sorriso dele, o Galeão era um retrato na parede, Calabar pode ser resgatado do injusto papel de delator e os anões acabaram derrotados na avenida do sanatório geral – para serem substituídos a seguir por outros, é bem verdade.
 
Quando começamos a respirar, as vitrines puderam colorir a moça,.  Belchior cantou a mesmice de pais e filhos que pensam ser tão diferentes e Elis gravou sua canção e morreu levando aquela voz maravilhosa que Maria Rita lembra, mas não consola. A voz de Milton embalou a morte de Tancredo.
 
Os meninos e meninas da geração musical dos anos 90 marcaram a tristeza de um país sem memória e de um futuro que para eles não chegaria: Cazuza, Renato Russo, Cássia Eller. Em meio a eles, Paulinho Pedra Azul,  Herbert Vianna.
 
Por isso, quem sabe, detesto ouvir o brega, o tecno, o sertanejo eletrônico. Não me dizem nada. Soam apenas como ruídos no oco da memória.
 
 
publicado por Adelina Braglia às 17:43

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