" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

07
Set 07

 

 
Houve um tempo em que o dia da pátria me fazia sair de casa, principalmente quando os filhos eram pequenos. Na avenida principal da cidade eu os via desfilar e por mais que tentasse manter a frieza “revolucionária” e fizesse mil restrições à pátria de chinelos, eu chorava. Não era só pela emoção de ver os filhos desfilando, ingênuos e orgulhosos do seu Brasil-varonil,  mas porque a banda marcial, os soldados perfilando-se em frente ao palanque, o povo vestido com roupas de festa, com seu melhor vestido ou camisa, as bandeirolas agitadas por mãos pequeninas,  tudo parecia me integrar a um país que eu sonhava que seria “de todos”, como diz a propaganda do nosso atual comandante-em-chefe.
 
Quando acordei hoje me lembrei com prazer do feriado, da possibilidade de cuidar de coisas que estão sempre sendo postergadas porque o tempo ocupado pelo trabalho dificulta a atenção a tudo, mas demorei para lembrar o motivo da folga. Só agora caiu a ficha do 7 de setembro, da “independência ou morte”.
 
No caso do Brasil, este destino não se cumpriu. Não somos independentes, nem estamos mortos, embora os meninos- zumbis cheirando cola pelas ruas estejam muito perto disto.
 
No meu caso, também não.  Ainda estou viva, e o vaticínio da “independência ou ...”, não se concretizou, ainda que a minha auto-suficiência neurótica – sugestão de diagnóstico recentíssimo que acatei sem muito esperneio – me faça crer que moro debaixo da minha cabeça. Mas, como não consigo me “independer” de um sentimento pesado e forte de que esta pátria, embora continue de chinelos, não me emociona mais, sou, na verdade, eterna refém das minhas esperanças perdidas.
 
E desta melancólica janelinha, mando um abraço pro Ademir Braz pelo seu aniversário, e reproduzo, de novo, um pedaço do poema de  Vinícius de Moraes:
 
 
“Pátria minha”:
.
A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
(...)
 
publicado por Adelina Braglia às 11:23

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