" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

16
Jul 07

 

Dei-me conta hoje que iniciei o blog há quase dois anos, no dia 28 de julho, data da morte do meu pai, há décadas.
 
 
Ele era mestre em “foras”, frutos do seu desligamento das coisas concretas da vida. Um dia, ao encontrar um amigo que perdera o pai há um mês, e tendo ele ido ao velório, ainda assim perguntou: “E como está seu pai?” E antes que o amigo abrisse a boca para responder, lembrou-se do velório e disse:”Sempre morto!”. Pois meu pai está sempre morto há quase 40 anos e a minha querida analista veria no fato de ter iniciado o blog nesta data uma simbologia incrível. E como aprendi a dar razão a ela – cerca de 80% das vezes – cá estou a tentar encontrar o elo perdido.
 
 
Não é muito difícil, se eu partir da minha psicologia de almanaque,  deduzir que começar um blog e dar-lhe o nome de travessia exatamente naquela data, talvez tenha sido aceitar que a minha travessia para a morte é um fato cada vez mais concreto, pela lei natural dos que duram na vida, nós, os felizardos. E que isto impõe um balanço do que compôs a tal vida.
 
 
Mas, quanto aos felizardos, dos quais faço parte, sempre podemos escolher dentro de circunstâncias nem sempre desfavoráveis. E sempre nos aborrecemos quando alguma impossibilidade nos impede de escolher. Nós, os que nascemos bafejados por opções e nem sempre nos importamos com os que nascem sem direito a elas.
 
Nós, que até nos comovemos de ver mãos envelhecidas pedindo esmolas, os meninos que têm fome, que querem comer, beber, fumar ou cheirar cola. São retratos da realidade brasileira que dão a dimensão da injustiça mais do que qualquer tratado ou estudo dos indicadores da nossa desigualdade.
 
 
Houve tempo em que mais do que o incômodo, eu tinha a certeza de intervir para que isso mudasse. Hoje vivo um tempo de melancolia, mais pela constatação que o “meu” tempo não me permitirá viver o avanço que sonhei – se é que virá.
 
 
Mas, nestes momentos, fico com uma enorme vontade de fechar os olhos, imaginando se bastaria isto - olhos, ouvidos, boca, cabeça e coração fechados – para brincar de viver num país feliz. Ou de ser feliz num país que não o é. Ou de conseguir perceber os bons momentos que também fazem parte desta melancólica visão da vida.
 
 
E, de novo, meu pai, fio condutor da minha memória de justiça e solidariedade. E o blog, que acabou sendo uma vaidosa tentativa de dizer que almejei muito ser justa. E a travessia, difícil para quem nunca soube nadar. Elos fechados.
 
 
 
 
publicado por Adelina Braglia às 12:33

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