" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

08
Jun 07

 

 
 
“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o fechamento da RCTV pelo presidente venezuelano Hugo Chávez foi um ato tão democrático quanto seria a possível renovação da concessão da emissora (... )”
 
O ato legal é democrático quando as leis são exaradas do direito e da vontade da maioria, o que, nem lá, nem cá, ocorre.
Autorizar, renovar, cancelar concessões de serviço público é mesmo um ato do executivo. Estranha-se apenas que Chaves não tenha suportado a divergência.
O presidente levou quase três semanas para se manifestar.
Teria feito melhor se continuasse fazendo de conta que não sabia do assunto.
 
 
publicado por Adelina Braglia às 09:48

 

Numa noite de quinta que parece de sábado, o trecho do poema de Vinícius vem à memória, trazido por um verso de Drummond.:
 
 
 
“(...) Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias.
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
a pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos.
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas,
ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.”
 
 

Encarar os problemas das colocações morais e estéticas, sermos sociáveis, além de sociais, livrar-se de hábitos que nada mais são além disso, rir sem vontade e esconder a raiva, são tarefas que tomam também os domingos.
 
Agora, praticar amor sem vontade, poeta, a esta altura da vida, em dia nenhum!
 
 
Mas o poema de Drummond -  O mundo é grande - que me trouxe a Vinícius e à sensação de uma noite de sábado é este:
 
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
 
 
E o que tem uma coisa a ver com a outra, vou tentar entender de manhã.
 
Fui.
 
 
publicado por Adelina Braglia às 01:25

06
Jun 07

 

 

 

“ (...) Segundo relato do presidente da República, quando editou a MP, ele "estava convencido, naquele instante, pelas informações que recebia da própria Polícia Federal, de que o bingo era utilizado com lavagem de dinheiro. "Agora, dizem que tem uma diferença: dizem que o bingo é uma coisa aonde vão as mulheres, as velhinhas jogar (..)."
 
 
Será que alguém poderia lembrar o presidente da República que as velhinhas, aquelas que não vão aos bingos porque nem sequer sabem o que é isso e porque não têm um centavo sobrando da vultosa aposentadoria do INSS, vão também ao SUS?
 
Será que dá pra sair uma MP que garante a essas e outras velhinhas, e muitos velhinhos, que a corrupção dos bingos, das empreiteiras, das navalhadas na nossa carne, quando deixarem de ser manchetes de noticiário  botem alguém na cadeia? E, principalmente, que volte “algum” pros cofres públicos?
 
 
Axé, Presidente!
 
 
 
 
publicado por Adelina Braglia às 06:58

 
Confirmação de Mangabeira aumenta queixas do PT
 
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cedeu a pressões tanto quando desistiu do convite ao filósofo Roberto Mangabeira Unger quanto quando decidiu confirmar para o dia 15 de junho, sexta-feira, sua posse na Secretaria de Ações de Longo Prazo. Na desistência, as pressões foram comandadas pelo PT; na confirmação, pelo vice-presidente José Alencar, autor da indicação.
 
 
 
 
 
publicado por Adelina Braglia às 06:45

04
Jun 07

 

 

O frisson em cima da Gautama não me comove nem dá esperanças....
 
 
 
 
Resta saber se a “onda” é pra valer e se outras empreiteiras serão investigadas antes de sangrarem mais ainda o cofre da viúva. Se for só a partir de denúncias - como cabe bem neste país onde se você fizer errado, mas bem escondido, cola - o ralo ainda vai entupir.
 
Mas, é preciso destacar que é indecente o trabalho dos Tribunais de Contas que facilitam com o seu legalismo conveniente a corrupção e os desmandos com dinheiro público.
Apegados à formalidade dos documentos, os juízes não questionam a compra abusiva ou a execução de serviços desnecessários – por exemplo, compra de mil telhas de cimento amianto para a vala da rua tal... – porque se os centavos estão absolutamente de acordo com o valor unitário e o total pago, dane-se a Res-pública!
Cumprida a lei, que se ate aos nós a ética!
 
publicado por Adelina Braglia às 09:45

 

O assunto esteve na mídia semana passada e como discordo veementemente de "coincidências", transcrevo meu comentário, publicado no AFROPRESS desta semana.
Axé!!!
 
 
 
"Europa, minha avozinha!
 
Depois dos cinquenta anos – e quase chegando aos sessenta – não se acredita mais em coincidências. Assim, é quase um insulto a sucessão de matérias veiculadas esta semana pela Rede Globo sobre a “farsa dos quilombos”, ao mesmo tempo em que o Estadão divulga em seu site a pesquisa financiada pela BBC sobre raça, DNA, identidade, utilizando figuras públicas como Seu Jorge, Daine dos Santos e outros, para “provar” que geneticamente, são mais europeus do que africanos.
 
Por partes, como Jack: as matérias da Globo questionam que as comunidades estão sendo reconhecidas sem que “documentos” históricos comprovem sua origem africana. No outro pedaço,  a “coincidência” com a pesquisa que sugere que não há negros “puros” no Brasil.
 
Se o assunto não fosse sério, seria o caso de perguntar à Globo se ela já localizou algum quilombo japonês, escandinavo ou de remanescentes dos aborígines australianos. Mas, como o assunto é sério e a abordagem é insultuosa, seria o caso de perguntar apenas se a emissora preocupou-se em verificar o que diz a legislação, aliás, pergunta idêntica a que deve ser feita ao Presidente do INCRA, que na resposta a uma entrevista insinua que a instituição também está preocupada com farsas e que está exigindo comprovação de veracidade da condição quilombola.
 
A lei é clara quando garante às comunidades o direito à autoidentificação e o ônus da contestação não é do Estado brasileiro. Além disto, ao ratificar em 2004 a Convenção 169 o Brasil assumiu como lei este direito dos povos de declararem sua condição étnica.
É curioso que para discriminar sempre bastou a cor da pele ou a “suspeita” de traços genéticos, quando a cor da pele não era suficiente para apontar a origem.
 
Precursor no reconhecimento da auto-identificação como direito, o estado do Pará já emitiu 23 títulos para 70 comunidades, totalizando cerca de 450 mil hectares de terras de quilombos e jamais houve uma única contestação da condição quilombola, mesmo em áreas onde o estudo antropológico não foi executado.
 
É fundamental contestarmos  imediatamente a “onda eurocêntrica”. E que os protagonistas e os apoiadores desta causa venham para o meio da sala, para não dançarmos. E que Seu Jorge cante e dance, que Daiane salte, ambos chacoalhando essa mistura de sangue, mas tendo a clareza do conceito de raça, contestado hoje cientificamente, mas que é o mesmo que fortaleceu a cidadania de segunda classe à qual os negros foram confinados."
 
Atualizado hoje, 06/05/2007, às 06:30 hs:
 
SOB A MALDIÇÃO DOS SIGNOS DA GENÉTICA
Fátima Oliveira
 
Jamais a biologia avalizou raça
como categoria biológica, cuja origem histórica e política foram mentes racistas.


Concordo com Maria Adelina Braglia que disse, em Europa, minha avozinha!, que é quase um insulto a sucessão de matérias veiculadas nos últimos dias pela TV Globo sobre supostas "farsas dos quilombos" e as distorcidas análises políticas da pesquisa patrocinada pela BBC, base do Especial Raízes afro-brasileiras, com o perfil genético de nove personalidades negras evidenciando que geneticamente são mais européias que africanas.
No site da BBC há um Fórum ("Você acha que o conceito de raça ainda faz sentido no Brasil?") que silencia sobre o "estupro colonial", base maior das trocas genéticas que nos legaram a mestiçagem – contexto no qual assumir a identidade racial negra é um posicionamento político corajoso – que não ousa dizer que raça não é, e jamais foi, uma categoria biológica. O mesmo vale para uma revista de notória gente "unha e carne" com o apartheid que vigorou na África do Sul, ao grafar na capa: "Raça não existe!" Demooorou…
Vocifera: o conceito de raça é um "disparate científico". Disparate é pouco. É uma mentira racista. E, agora José? Mas não fez o "mea culpa". Jamais a biologia avalizou raça como categoria biológica, cuja origem histórica e política foram mentes racistas. As vítimas não inventaram o "racismo científico" – excrescência que macula a humanidade e reaparece no Brasil hodierno com nova face. Querem nos impingir tal pecha. É infâmia demais!
Estudos da genética molecular, sob o concurso da genômica, são categóricos: a espécie humana é uma só e a diversidade de fenótipos e o fato de que cada genótipo é único são normas da natureza. Tendo o DNA como material hereditário e o gene como unidade de análise, é impossível definir quem é geneticamente negro, branco ou amarelo. O genótipo sempre propõe diferentes possibilidades de fenótipos. O que herdamos são genes, e não caracteres! Fato que não autoriza ninguém a dizer que o racismo não existe, pois a opressão racial/étnica é uma realidade que independe dos saberes da genética molecular.
Todavia o mimetismo do racismo é exuberante. No picadeiro, não parece, atende pelo nome de "racismo científico". O pano de fundo de tão racista "interesse" dos pauteiros tem endereço certo: as cotas raciais/étnicas e o Estatuto da Igualdade Racial, eleitos pelos "caras-pálidas" como "leis temerárias" de "alto potencial explosivo": "monstruosidades jurídicas que atropelam a Constituição – ao tratar negros e brancos de forma desigual – e oficializam o racismo". E arrematam: tais leis são institucionalizadoras do "cisma racial" (Ai, meus sais!); e se elas vigorarem "Será como apagar fogo com gasolina". Ah, há fogo?
E despudoradamente invocam o mérito! Qual mérito? Esquecem-se do mérito que é ter construído um país no lombo. Não foi? Ora, me compre um bode! Além do que mérito é um conceito cultural, arbitrário e mutável, segundo as circunstâncias. Essa gente sabe usar bem ao seu favor seus degenerados neurônios para nos desviar da rota anti-racista. Toquemos nossa agenda de luta por políticas públicas de Estado consistentes e condizentes com a necessidade que nos impõe o combate ao racismo. E que os "contra" se danem. É o quê manda a justa indignação política. Mas está em curso uma luta ideológica.
Em tal raia me bastam as palavras dos autores da "nova" pesquisa BBC: "a informação genética sobre a estrutura da população brasileira deve ser considerada apenas como subsídio para o processo de tomada de decisões. Não compete à genética fazer prescrições sociais. A definição sobre quem deve se beneficiar das cotas universitárias e das ações afirmativas no Brasil deverá ser resolvida na esfera política, levando em conta a história do país, o sofrimento de seus vários segmentos e análises de custos e benefícios". (Pode a genética definir quem deve se beneficiar das cotas universitárias e demais ações afirmativas? Pena & Bortoloni. 2004). Bortoloni, eu não a conheço.
Mas o geneticista Sérgio Danilo Pena é uma glória da ciência brasileira. Ele é todo cintilância, pura purpurina, ao abordar as bases teóricas da ciência da qual é um especialista de renome mundial. Mas ao se mimetizar de analista e/o ativista político pisoteia em seu charmoso "black-tie" e renega os saberes do seu objeto de estudo: os genes. Por que será?
 
 
 
publicado por Adelina Braglia às 09:41

01
Jun 07
Às vezes acordo sem música na cabeça. É muito raro, mas acontece.
Estranho esse silêncio, porque não é de bom augúrio.
A música de fundo que amanhece comigo é um sinal de normalidade dentro do caos. Sem ela, parece que o caos se sobrepôs.
Hoje foi assim.
O gesto mecânico de ligar a TV para ouvir as péssimas notícias do dia,
é um péssimo hábito do qual nunca me livrei.
Presto atenção às primeiras notícias, que são as mesmas de ontem à noite, só mais enfeitadas.
A rebelião na ilha do Governador é a única notícia nova. Nova em relação às da noite anterior.
Penso agora que eu “desliguei” meu rádio quando, já deitada, perdi o sono na madrugada.
E voei pra anos anteriores quando acreditava mover o mundo com meus desejos
de justiça, fraternidade, solidariedade e comiseração pela dor do outro.
Lembrei fatos, cenas, frases. Muitas pessoas desfilaram nesse “memorial da esperança”.
Dormi. Não sei se sonhei. E, ao acordar, esse silêncio e esse vazio musical.
E escrevo isso apenas pra aliviar essa sensação megalomaníaca
de que sou culpada pelo silêncio,
pelos rostos tristes nas ruas,
pelo cansaço infindo dos que trabalham,
pela ausência de brilho nos olhos dos jovens,
pelas crianças precocemente adolescentes,
pelos que mentem, roubam e tripudiam sobre os danos que causam,
pelo futuro que chegou no avesso do que eu queria.
E pra suportar meu silêncio interno,
Ouço Arnaldo Antunes.
A nossa casa.
 
 
Na nossa casa amor-perfeito é mato
E o teto estrelado também tem luar
A nossa casa até parece um ninho
Vem um passarinho pra nos acordar
Na nossa casa passa um rio no meio
E o nosso leito pode ser o mar

A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar

A nossa casa é de carne e osso
Não precisa esforço para namorar
A nossa casa não é sua nem minha
Não tem campainha pra nos visitar
A nossa casa tem varanda dentro
Tem um pé de vento para respirar

A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar
 
 
 
publicado por Adelina Braglia às 07:57

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