" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

19
Abr 07

Às vezes há boas notícias nos jornais...


“ACM está internado na UTI por insuficiência cardíaca”.


 “SÃO PAULO - O senador Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA), de 79 anos, está internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (Incor-HC). Segundo boletim médico divulgado na tarde desta quinta-feira, ACM apresenta insuficiência cardíaca congestiva descompensada, em decorrência de um infarto de extensa proporção, ocorrido em 1989. (...)”

(Agênciaestado - 18 de abril de 2007 - 14:50)
publicado por Adelina Braglia às 00:28

14
Abr 07

 



Há dias uma tragédia ocupa as páginas de jornal,desde que um pai esqueceu seu filho de 1 ano e 4 meses dentro do carro e o bebê, após 5 horas ali, teve uma parada cardiorespiratória e morreu. O pai é jovem, tem 31 anos, é biólogo e, notadamente, pertence à classe média paulistana.

Este não é o primeiro caso dos últimos anos, mas todos os casos de mães e pais que abandonam seus filhos, ou que os espancam e até quem os mata, me angustiam, porque sempre acreditei que em sã consciência ninguém é cruel a este ponto.

Na matéria de hoje, no Estadão, alguns psicólogos fazem depoimentos sobre a imensidão do sentimento desta culpa e todos, inclusive Maria Rita Kehl - de quem sou ardorosa admiradora - preocupam-se em não transformar o pai em réu. É ela quem explica:

“Nosso cotidiano é todo articulado e às vezes não percebemos quando acontece algum imprevisto ou quando algo sai fora da rotina. Um exemplo é não notar que uma rua virou contramão e, mesmo assim, pegá-la. Não podemos simplesmente achar que esse pai é um monstro irresponsável.”

Não quero falar da dor da perda. Eu entendi que a extensão da dor de perder um filho, antes de saber da existência dos psicólogos, quando ouvi minha avó – que perdera um filho num acidente de caminhão há mais de 20 anos – dizer: “ perder um filho não é coisa de Deus, porque os pais sempre devem morrer antes.”

O que vem me incomodando é lembrar das mães que abandonam seus filhos em hospitais ou em latões de lixo, e, especialmente aquela que há mais ou menos 1 ano - jovem, pobre, desestruturada, desempregada e visivelmente desestabilizada nas entrevistas - havia deixado seu bebê flutuando num pedaço de madeira e que depois foi salvo das águas, como uma miúda Moisés de fraldas, e virou manchete por semanas. Nenhum desses bebês morreu. As mães, consciente ou inconscientemente, pretendiam salvar seus filhos, deixar que eles durassem mais do que elas, segundo a santa teoria da minha avó.

O que me incomoda é que todas, sem exceção, são tratadas pela imprensa como rés, como monstros desumanos. A elas nenhuma confraria de psicólogos vem socorrer com suas análises, até porque a mídia sequer propõe pauta para discutir a dor dos desvalidos da fortuna. É como se a rotina da miséria, do abandono, do desespero não tivesse o mesmo peso da rotina estafante da classe média, "estressada" pelo trânsito, pelo medo da perda do emprego, ou pela angústia de não conseguir pagar a prestação do carro ou do cartão de crédito no próximo mês.

Para as jovens mães nunca uma justificativa como a do psicoterapeuta e professor da PUC-SP Antonio Carlos Amador Pereira, que disse sobre o jovem pai::

“Houve um lapso de memória. Ele esqueceu que a criança estava no carro. Isso não é incomum num mundo estressante como o de hoje”,

Para a classe média, a rotina é argumento suficientemente sólido para explicar o lapso. Para as jovens mães, a rotina da fome, do desespero, da falta absoluta de políticas públicas que as ampare com creches para que possam deixar seus bebês e voltar a batalhar pela vida, não explicam um lapso de afeto e parecem ser agravantes do crime.

“A dor é absoluta, nenhum tratamento nem ninguém consegue retirar a culpa que ele deve estar sentindo neste momento. Esse sentimento pode seguir pelo resto da vida. Só ele conseguirá se perdoar.” diz sobre a dor do jovem pai o psicólogo Miguel Perosa, também professor da PUC.

A dor das jovens mães, essa ninguém analisou. Ela não vende jornais. Afinal, no caso delas, o que é vendável é só a consequência da tragédia de suas vidas.





 

(*) trecho da letra De mais ninguém, de Marisa Monte e Arnaldo Antunes.

 

 

publicado por Adelina Braglia às 13:00

 

Você já teve a certeza de que em algum momento da vida você não soube ler os sinais?

Ou que quando você conseguiu decifra-los, sua arrogância induziu a uma reinterpretação do obvio?

Você já sentiu vontade de dizer: não, esta bandeira eu não consigo carregar?

Mas, depois olhou para os lados, e morreu de vergonha de estar fraquejando,

e, pra provar sua fortaleza mandou dobrar o tamanho do mastro?

Você já se arrependeu da sua presunção de noite, sozinha, e soluçou horas, pensando em como saltar do barco na manhã seguinte?

Mas, além de não faze-lo, insistiu em demonstrar aos outros que você sabia exatamente de que lado ficava a margem?

Pois bem, se você também fez isso, aviso:

não há o reino dos céus,

e o que é pior,

nem sorvete de graviola tira esse gosto amargo da boca.

Daí, um conselho de quem é experiente:

pegue um copo lindo, de cano alto,

encha até o meio com cubos de gelo picados.

Complete com Campari e coloque, por mero deleite estético,

 uma finíssima rodela de laranja pra enfeitar.

Resultado: esse gosto amargo na boca

 vai se diluir no gosto do Campari

e você esquecerá, por algumas horas,

a dor e a delícia de ser quem é.

 

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 00:13

12
Abr 07

 

" Desigualdade no país pára de cair em 2006


No ano passado, praticamente não houve mudança no grau de concentração de renda do trabalho, afirma estudo

Percentual de trabalhadores abaixo da linha de miséria também parou de cair em 2006, segundo artigos editados pelo Ipea

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

A redução da desigualdade, ocorrida principalmente de 2001 a 2005, dá sinais de que está perdendo o fôlego. No ano passado, praticamente não houve mudança no grau de concentração de renda do trabalho nas seis principais regiões metropolitanas. O mesmo aconteceu com a miséria: depois de um período de queda até 2005, o percentual de trabalhadores abaixo da linha de miséria parou de cair em 2006.
Essas conclusões estão em artigos editados no livro "Desigualdade de Renda no Brasil: uma Análise da Queda Recente", que o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) lança amanhã, no Rio.
O artigo que mais analisa o comportamento da desigualdade em 2006 é do pesquisador Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da FGV. Além dele, Ricardo Paes de Barros, Mirela de Carvalho, Samuel Franco e Rosane Mendonça -do Ipea e da UFF- também destacam que a velocidade de queda da desigualdade deve ter diminuindo substancialmente.
Para captar os movimentos em 2006, os pesquisadores usaram a PME (Pesquisa Mensal de Emprego) do IBGE. Ela tem a vantagem de ser mais atualizada do que a Pnad (pesquisa anual domiciliar do IBGE cujos resultados de 2006 só serão conhecidos no segundo semestre), mas a desvantagem de se referir apenas aos rendimentos do trabalho em seis regiões metropolitanas.
A Pnad abrange todo Brasil e todas as formas de renda, inclusive aposentadoria e Bolsa Família, entre outras.
O estudo de Neri mostra que a desigualdade de renda do trabalho medida pelo índice de Gini vinha caindo nas seis principais regiões metropolitanas (Rio, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e São Paulo) desde 2002 até 2005, num movimento similar ao detectado pela Pnad para todo o Brasil. De 2005 para 2006, no entanto, praticamente não houve avanço na desconcentração da renda do trabalho nas regiões metropolitanas.
Em março de 2002, o índice de Gini medido pela PME estava em 0,633 (quanto mais próximo de 1, maior é a desigualdade). Em julho de 2005, chegou a 0,601. A partir daí, no entanto, praticamente não houve mais redução e, em junho de 2006, o Gini era de 0,600.
A mesma tendência foi verificada quando Neri calculou pela PME o índice de miséria entre os trabalhadores de regiões metropolitanas. Em junho de 2002, esse percentual era de 23,16%. Ele caiu anualmente até chegar a 18,52% em 2005, mas em junho de 2006 ficou estagnou em 18,57%.

Limite
Para Neri, a redução do ritmo de queda da desigualdade sugere que as políticas públicas que o Brasil usou para diminuir a concentração de renda até 2005 chegaram a um limite. Ele cita a alta do salário mínimo, a ampliação do Bolsa Família e os retornos da educação.
No caso do mínimo, como o valor em 2006 já havia chegado a R$ 350 (R$ 380 hoje), qualquer aumento terá pouco impacto na extrema pobreza, já que essa população ganha menos do que isso e trabalha no setor informal.
Em relação à educação, o pesquisador afirma que boa parte da redução da desigualdade até 2005 foi fruto "dos bons investimentos feitos" durante o governo Fernando Henrique Cardoso. "As semeaduras dos últimos anos, no entanto, não foram muito boas. Tomara que o "PAC da educação" reverta isso", afirma.
Quanto ao Bolsa Família -cujo efeito ou não na redução da desigualdade em 2006 só poderá ser captado com precisão com a divulgação da nova Pnad-, Neri defende que a ampliação foi um mérito de Lula, mas que ele chegou a um limite quando atingiu a meta de 11 milhões de famílias.



Publicado em: 12/04/2007
Fonte: Folha de São Paulo

(Clipping Página Sindical - www.gestaosindical.com.br)

 


publicado por Adelina Braglia às 11:06

 

 

" A implantação da indústria açucareira no Brasil, baseada no latifúndio, no trabalho escravo e na monocultura da cana de açúcar para exportação, data do período colonial e foi sempre apoiada pelos governos nacionais. Essa política, do Estado como financiador e organizador dos lucros dos usineiros, principalmente com a política do perdão das dividas, se mantém até hoje.


(...)

 Os usineiros sempre pegaram dinheiro dos bancos estatais e do orçamento da união e nunca pagaram suas dividas, que são sempre renegociadas a cada safra. Só em Pernambuco, os usineiros devem ao INSS mais de 562.641.612,54 bilhões de reais. Isso sem contar os empréstimos a bancos estatais não pagos e dívidas de outros impostos (...)"

(Alexandre Conceição - Brasil: de devedores a heróis)

 

 

 

foste, no mundo, mineiro
e cortaste cana demais.

e teu corpo,
forte árvore morena,
resolveram chamar pela brasileira e estranha alcunha:  José.

 José,
amaste três damas?
quiseste uma valsa?
creste em deus?
pactuaste com o cão?
fizeste um samba?
mataste um patrão?

 perdão, José: sou grosso, ignorante. por isso, pergunto.
sinto tua falta, como sinto de um irmão.
sinto tua falta.
sei que não sabes disso.
mas quero repetir-te:
sinto tua falta.

 sei que não me escutas.

 sinto tua falta
como sentirias, talvez, a falta de um poema
em que teu nome batia, tão comum como a cana que cai
levando consigo o trivial peso do universo.

 hoje, José, onde estás? será que poderias ouvi-lo?
sei que não.
estás longe, José, e não entendias de estrofes.

 e (não é curioso?) a tanta cana que cortaste
arde-me os dedos, pesa-me os olhos, perfura-me os rins.

 que fazer por esse José que já não pode mais?
nem mais podes, José, ouvir "e agora?"

 

(...)

(Alexandre Pilati - O mundo está coberto de cana)

poema feito em homenagem a José Mario Alves Gomes, cortador de cana da Usina Santa Helena, em São Paulo, que morreu em 21 de outubro de 2005, após cortar 25 toneladas de cana.

 

 

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 06:55

11
Abr 07

 

À pergunta que me vem, de repente,

se o que quero são caminhos novos

eu respondo, de imediato: não.

 

Estou completa demais para novos caminhos,

mesmo que esta plenitude seja apenas medo ou cansaço.

Ou cansaço e medo.

Ou a plenitude de um vazio que preenche o todo.

Ou sinônimos disto.

Não sei. E não me importa saber.

O que sei é que o novo não me coopta.

 

O que me falta agora é querer

ser uma excepcional coadjuvante,

se eu decidir que assim quero ser.

 

O que me falta é sentir na boca,

o sabor das noites pouco dormidas,

e dos dias que pareciam sempre começar com um arco-íris.

 

O que me falta é descansar no seu colo,

é aceitar que eu preciso,

generosamente,

sem me importar se eu mereço.

 

 

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 22:31

10
Abr 07

 

“ (...) Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô(...)”

 

diz Adélia Prado num dos seus poemas

 

-          Com licença poética

 

e me deu vontade de pedir a ela licença poética

pra dizer que a minha tristeza tem pedigree,

porque é uma tristeza tecida em sonhos que eu pensava serem coletivos,

mas que eram mais meus do que dos outros.

A tristeza da perda pessoal

não durava muito tempo.

A vida cobrava reação e eu sempre a ouvia,

atenta e pronta pra cumprir minha sina,

de saber, como ela escreve, que

 

“mulher é desdobrável”.

 

Mas eu quero dizer que,

ao contrário dela,

não estou conseguindo aceitar

 

“os subterfúgios que me cabem”,

 

e que esta dor está quase com gosto de amargura

e que isso me assusta,

a mim, que nunca fui tolerante com as pessoas amargas ou ácidas,

e sempre me quis doce e suave,

sem que isso fosse indício de fraqueza ou de “fragilidade”.

 

E quanto a minha vontade de alegria,

eu concordo que a minha também ia “ ao  meu mil avô”,

ou melhor, não sei se ao mil,

mas ao avô materno,

que tinha um jeito sarcástico de enfrentar dificuldades

e trazia a alegria impressa na retina.

 

Mas, concordo de novo com ela

 

“ o que sinto escrevo.”

 

 

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 21:27

09
Abr 07

 

Como quase tudo no Brasil, há que desconfiar sempre do que vem escondido por baixo da farofa!

 

Um estudo realizado pelo IPEA e generosamente divulgado ontem pela TV Globo e hoje nos grandes jornais, nos informa que o nosso sistema previdenciário é o mais generoso do mundo!

 

Aqui, nós, os tupiniquins, não limitamos a idade – porque, na verdade, muitos morrem antes de acessar o generoso benefício – paga-se a viúvas sem pudor pensões vitalícias ( e isto ocorre, em valores elevados, majoritariamente no caso dos militares, mas quero ver a moçada mexer nesse vespeiro), etc..

 

Interessante é observar que a máxima de Delfim Neto - aliás, grande mentor do atual governo - sobre as estatísticas continua prevalecendo: elas servem para mostrar o que convêm.

 

O extrato do estudo divulgado pelo Estadão hoje é irrepreensível. Através dele, até eu mandaria imediatamente cancelar benefícios que parecem, na maioria, indevidos e espúrios. As comparações com o regime previdenciário de outros países mostra que neles há limitações de idade, de prazo para vigorar o benefício, etc.

 

Mas, há apenas uma “pequena” referência sobre a renda bem mais elevada dos aposentados nestes outros países. Ou seja, aqui, uma renda máxima de aposentadoria de R$ 2.800,00 (teto atual do INSS) parece mesmo uma excrescência num país onde a miserável renda média da população não ultrapassava em janeiro de 2007, na Região Metropolitana de São Paulo - reconhecidamente a de salários mais elevados – R$ 1.257,91. Ou seja, nivelando por baixo, estamos ótimos!

 

Mas, nem na TV nem nos jornais, há qualquer referência ao que pensa o Estado brasileiro sobre a previdência nos próximos anos, salvo a preocupação com o déficit. Também nenhum destaque de que este déficit acumulado vem da extorsão dos cofres públicos, pela sonegação, e não necessariamente pelo pagamento de pensões e aposentadorias.

 

 Os dados atuais são assustadores, olhados como prospectiva do futuro próximo, onde grande massa de trabalhadores estará sem cobertura do sistema público de previdência e sem nenhuma condição de acesso ao sistema privado.

 

Isto é resultante de um mercado de trabalho desestruturado, fragmentado e parcialmente desregulamentado, onde o setor serviços é o que mais cresce e onde o trabalho autônomo é prevalente, ou seja, com recolhimento à previdência perto do zero, pois este trabalhador “autônomo” ou não tem a condição objetiva – dinheiro “sobrando” - ou a consciência para recolher mensalmente sua contribuição. Em fevereiro da 2007, 22,3% das pessoas ocupadas na RMSP trabalhavam sem carteira assinada, com renda média mensal de  R$ 883,07.

 

Mas, depois de tanto estardalhaço ontem, com estudos fundamentados pelo IPEA, certamente a adiadíssima reforma da previdência vem aí. E, antecipando meus votos, de quem é absolutamente descrente da seriedade das reformas no Brasil, que  Santo Ambrósio tenha piedade de nós, os que trabalhamos!

 

(*) os dados utilizados são do IBGE/ PME – Pesquisa Mensal de Emprego.

 

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 11:35

 

 

 

" Novo tema ganhou destaque na imprensa nos últimos dias. Trata-se de concordata (acordo ou tratado firmado entre um papa e um governante a respeito de assuntos religiosos) que estaria sendo urdida entre o Vaticano e o governo brasileiro. O objetivo seria conceder vantagens religiosas e educacionais à igreja católica(...)"

 

Com a proximidade da visita do Papa, é bom relembrar.

Veja a íntegra do comentário de Sueli Carneiro aqui:

 

http://blog.geledes.org.br/2006/12/20/perigo/

 

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 01:03

08
Abr 07

 

 

 

Final de domingo de Páscoa e eu passei parte do dia lembrando do meu pai. Talvez porque durante muito tempo eu estranhei a forma como ele, um ateu assumido, comemorava a data.

 

Em casa este era um dia mais importante do que qualquer outro. Mais do que o Natal ou a passagem de ano, quando o pai e meu irmão faziam aniversário.

 

O dia começava com as pegadas de coelho pelo chão, feitas com farinha de trigo, e aquela trilha levava aos ovos de chocolate escondidos. Mas, antes de achar os de chocolate, caíamos na armadilha dos ovos coloridos.

 

O pai cozinhava ovos e os tingia na água da casca de cebola e na água da beterraba. E alguns ovos, uns roxos, outros alaranjados, faziam a ansiedade crescer, até chegarmos onde estavam os que realmente interessavam. Os de chocolate!

 

O pai começava cedo a preparar o almoço. Os pastéis de forno eram uma delícia. Aquilo que hoje se chama risoles e que o pai, não sei porque cargas d’água chamava bolinhos baianos! O recheio era de camarão, muito bem temperado, sempre com um pouquinho de pimenta malagueta. Eram cuidadosamente feitos, em forma de meia lua.

 

O prato principal variava. Quando a mãe estava afim, fazia um gnocchi. Delicioso. Um dos poucos pratos saborosos que ela preparava. Ou então, era mesmo o pai quem dava continuidade ao cardápio: lasanha, ou carne assada de forno.

 

O cheiro da infância vem junto com essas palavras. O forno quente, o piso vermelho da cozinha. O pai sentado na cadeira para enxergar melhor o ponto do assado ou dos bolinhos, pois seus quase dois metros dificultavam que fizesse isto em pé!

 

Mas, voltando ao seu ateísmo, uma vez, depois de muita insistência minha,  ele contou a história da comemoração. O pai foi criado pela avó, italiana imigrante, pobre, lavradora. Moravam no interior de São Paulo e ela era muito religiosa.

 

Num domingo de Páscoa, estavam sós os dois em casa, e na hora do almoço, havia apenas meio pão para comer. Ela sentou-se com ele à mesa, pediu a benção de Deus, e repartiu o meio pão, que o pai comeu, mas ainda ficou com muita fome. E, neste dia, fez um juramento: que quando ele crescesse e tivesse filhos, a Páscoa seria a festa mais bonita do ano.

 

O pai cumpriu sua promessa até a morte.

 

E eu, menos atéia do que ele, pois que me pego às vezes pedindo a não sei quem que proteja meus filhos, minha neta, meus irmãos e meus amigos, acordo todo domingo de Páscoa com uma imensa saudade do meu pai. E com uma enorme vontade de que nas mesas de todas as famílias houvesse uma farta e alegre refeição, com falsos ovos coloridos e verdadeiros ovos, com recheio de esperança e cobertura de chocolate.

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 23:31

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