" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

17
Mar 07

 

Faz tempo que eu não ouço as músicas que gosto.
Faz tempo que não dou risadas soltas, frouxas, sem contenção.
Faz tempo que não procuro as pessoas de quem sinto falta,
faz tempo que não vou à praça comer empadinhas.
Faz tempo que só me esforço para cumprir as “minhas obrigações”.

Faz mais tempo ainda que desacreditei do tempo como medida ou solução para qualquer coisa.

Esse masoquismo atávico altera meu paladar.
E a comida sai insossa. Ou salgada.
Ele altera meu olfato, meu tato, e a minha visão perde o foco.
E nem sequer enxergo mais as flores brancas dos jasmineiros quando passo por eles na rua paralela.

Faz tempo que não cantarolo ou assobio pela rua, faz tempo que sinto falta do abraço do meu irmão.

Faz tempo que chove nesta cidade e talvez seja isso que amortece minha vontade
de ouvir, cheirar, ver e abraçar. Talvez seja só a chuva e não o masoquismo.

Tudo é muito úmido, nublado, mofado. E triste.

E eu me sinto como esse pássaro empalhado,
preso à grade por arames, com um arremedo de asas que não servem para voar.

 

 

publicado por Adelina Braglia às 12:29

16
Mar 07

 

A coalizão nacional PT-PMDB é da economia interna dos partidos que a compõem, e na nossa democracia não-participativa, não há esperneio cabível. Compete à coalizão decidir suas partilhas e ponto.

Se é assim, compete ao PMDB brigar pelo quinhão que lhe apetece e ao PT e ao Presidente da República aceitar, ou não, as indicações, ou melhor, os nomes indicados, pois que a partilha está sacramentada nos acordos pré-eleitorais. E não interessa o que você e eu achamos da partilha. A aliança foi feita e venceu com larga maioria a eleição.

Assim, a indicação trombeteada de 5 ministros do PMDB e a entrega de 90 bilhões do orçamento nacional ao partido, é democraticamente inquestionável. E houve tempo, três meses pelo menos, a contar de dezembro, para a escolha dos nomes e para o jogo manjado do Presidente fazer de conta que ouve seu partido e seu partido tentar espernear para aumentar seu próprio quinhão. Ponto, outra vez.

A indicação do Ministro da Agricultura desencadeou imediatamente denúncias na imprensa. Mesmo sem elas, eu estranhei que fosse para o ministério o homem do agrobusiness, mas isso não é da minha alçada.

As denúncias estavam disponíveis, organizadas, arrumadinhas, no site Transparência Brasil (o link está aí ao lado), mas nem o Presidente, nem o PMDB, nem os aliados, preocuparam-se em desmenti-las previamente – aliás, para desmenti-las o foro é o STF, onde o deputado está sendo processado. Em caso de dúvida, bastava digitar o nome do moço no Google.

Daí que a notícia de hoje é de uma hipocrisia sem adjetivos:


“As denúncias contra o deputado Odílio Balbinotti (PMDB-PR) ameaçam sua anunciada indicação para o comando do Ministério da Agricultura. O Palácio do Planalto vai pedir mais explicações ao PMDB e ao próprio Balbinotti sobre as investigações que estão sendo feitas contra ele, por falsidade ideológica, no Supremo Tribunal Federal (STF).

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus principais auxiliares estão preocupados com os rumores de que estão para ser divulgadas novas denúncias contra Balbinotti.”

http://www.estado.com.br/editorias/2007/03/16/pol-1.93.11.20070316.1.1.xml

Donde eu deduzo que mesmo sendo criminalmente responsabilizado por falsidade ideológica pelo Ministério Público de Mato Grosso em processo publicizado desde junho de 2006, se não tivesse havido a denúncia posterior à indicação, o moço seria empossado hoje.


Assim são os PACs. Toma-se recursos do orçamento, agregam-se obras não executadas anteriormente, e surge o Programa de Aceleração do Crescimento. Depois, reconhece-se o que organizações nacionais (IBGE) e internacionais vem demonstrando ano após ano sobre a baixa escolaridade e a péssima qualidade do ensino público brasileiro e cria-se o PAC-estudantil. Agora formaliza-se o PAC-político: Programa de Aceleração do Cinismo.

publicado por Adelina Braglia às 12:36

13
Mar 07

 

 

 

O mesmo mapa, mantidas as Áreas de Conservação, as Terras Indígenas e a área de influência da BR-163, mas acrescido dos polos madeireiros (não por coincidência, são as cruzinhas).

Interessante observar que a maior concentração dos polos é em Rondônia e  norte de Mato Grosso e grande parte dele está na área de "influência" da BR-163. O que isso quer dizer?

Bem, o endereço do site onde você pode brincar com o mapa está no post anterior. Vá lá. Monte o seu. Divirta-se.

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 17:42

 

 http://mapas.mma.gov.br/i3geo

 

O programa é o i3GEO, do Ministério do Meio Ambiente. Com ele você traça o mapa de acordo com seus interesses.

No meu estão plotadas as Terras Indígenas (marrom escuro) , as Unidades de Conservação Federais de Proteção Obrigatória (verdes),  as áreas de proteção de biodiversidade (as variações do rosa  ao  ocre, dependendo da variação de grau vai de "alta proteção" até "insuficientemente conhecida", que são as roxinhas) e a área de influência da BR-163 (a imensa e contínua mancha rosada (esse tom,  minha madrinha chamava de rosa-chá).

 Vamos continuar.

(*) Título de um filme de Hector Babenco.

 

 

publicado por Adelina Braglia às 17:10

 

Não vou ocupar espaço copiando a notícia na íntegra. Mas, vale a pena a leitura sobre  a nomeação do ministro da Advocacia Geral da União e os motivos aparentes (ou explícitos) da sua escolha.

O presidente esperou três meses para isso. Então tá.

http://estadao.com.br/ultimas/nacional/noticias/2007/mar/13/43.htm

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 14:59

12
Mar 07

 

Tendo como marco mais visível o governo Collor, a abertura econômica (melhor chamá-la de escancaramento!) trouxe a desestruturação do mercado, a fragilização dos postos de trabalho, com o desaparecimento de milhões deles, o maremoto das privatizações, todos filhotes da gestão macoeconômica neoliberal, que os governos que se sucederam - os dois governos de FHC e o primeiro Governo Lula - não alteraram.
 E no bojo desta gestão, a divisão entre um Brasil que dará certo e outro que deve ser “preservado”.
 Meu retorno ao Pará se deu no aprimoramento desta fase, em junho de 1996, após ter voltado a viver em São Paulo em janeiro de 1992. Neste retorno, a sensação era de que em apenas 4 anos o fosso que fracionava o Brasil em bandas havia sido alargado assustadoramente.
 Em 2002 votei em Lula, como em todas as eleições das quais ele participou, à exceção de 1989, quando votei em Mario Covas no primeiro turno. Acreditava que, entre outras virtudes, a sua trajetória e a sua origem, garantiriam termos um presidente com a compreensão de um Brasil real, fora do eixo Minas-Rio de Janeiro – Rio Grande do Sul – Paraná - São Paulo.
 Ingênua, eu. Lula é um nordestino “apaulistado”, com uma trajetória de liderança sindical construída no sul-sudeste. E o PT que tomou de assalto o Planalto é o PT do eixo que eu sonhava que não seria o privilegiado.
 Em 2006 não votei em ninguém. Nenhum dos projetos mereceu meu voto e em defesa do meu direito de cidadania, ficaram sem ele. Isso não fez diferença alguma para vitorioso  ou derrotado, mas para mim fez uma enorme diferença não ter votado em Lula ou em Alckmin.
 Estou deduzindo – o que não significa que é isto que estou querendo - que vamos nos dar mal de novo. Nós, os daqui do lado de cima do mapa.
 Como por princípio colonizador a intelligentzia sulista considera que todos os acadêmicos do norte são imbecis, todos os políticos daqui são corruptos e todos os governantes logo acima, logo abaixo ou na linha divisória do Equador são incompetentes, está pronto o prato e nossa ingenuidade lúdica serve de sustentação para qualquer avaliação que venha dos “centros da sabedoria inquestionável”.
 E eu que sempre acho que as ingenuidades cheias de bons propósitos e o mau caratismo pleno de más intenções estão encostados a uma tênue linha divisória que nem sempre enxergamos com clareza, afirmo que aos ingênuos só está destinado o reino dos céus. Aqui, “neste vale de lágrimas”, há que disputar ferozmente a verdade com os hipócritas, os desonestos, os mal informados e os canalhas. Mas para acertar as respostas, precisamos acertar as perguntas.
 Vamos logo à polêmica. A Amazônia e os “povos da floresta”. Ou como era verde o meu vale.
 A Amazônia deixou de ser, há uma década, a designação de uma região. Incorporou uma homogeneização conceitual assustadora, pois ela parece induzir o mundo a imaginar uma densa e intocável floresta, com névoa úmida, milhares de araras azuis. E deste conceito se deduz que embaixo da floresta vivem apenas dois tipos de seres: aqueles identificados como “povos da floresta” e homens maus que escravizam trabalhadores.
Ouvir falar em “povos da floresta” me leva a pensar apenas em matinta perêra ou caipora. Esta denominação não faz justiça às populações originárias e/ou tradicionais – indígenas, seringueiros, extrativistas – porque não os diferencia e ao pasteuriza-los descaracteriza também as suas lutas, as suas especificidades e, principalmente, as suas necessidades.
 Esta é a imagem da Amazônia que os ingênuos e os mal intencionados querem preservar: árvores, névoa, sucuris, dois pulmões que alimentam o mundo e os povos da floresta! O resto é resto. E esses restos, somos nós, incluindo os indígenas "desplumados", os extrativistas que querem perder sua condição de parias da cidadania, os seringueiros que querem conhecer os mecanismos do mercado da borracha, os quilombolas que precisam apropriar-se de tecnologia adequada para melhorar sua vida e sua produção.
 É curioso que todos – os “bons” e os “maus” – sabem a quantidade de terra agricultável, de terra degradada, de índios, de quilombolas, pescadores, seringueiros, catadores de castanha ou de côco babaçu. Mas desconhecem, por ignorância ou má fé, que há centros urbanos e semi-urbanos debaixo das árvores, onde a energia renovável ou convencional é preciosa para a produção, mas também o é para o ensino e a cultura, para que as escolas sejam equipadas com computadores e redes, para que haja cinemas e teatros. Ou que a dita produção, mesmo quando pujante, se perde em estradas intrafegáveis ou numa possibilidade de eixo hidroviário jamais respeitado pelo Brasil que “ deu certo”, porque no Brasil de lá, Sarney prefere a ferrovia.
 Nossos problemas estruturais mais graves – energia, estradas, portos e acesso a tecnologia apropriada – são mal defendidos porque nos perdemos entre o idílico e o justo. Ou porque carregamos a culpa do que jamais fizemos: não matamos nossos índios, não destruímos nossas florestas e também não matamos Caim!
 As terras indígenas e de comunidades quilombolas não são apenas as manchas de preservação florestal que se enxerga nos mapas do satélite. Ali embaixo do verde são milhares de brasileiros com expectativas ou com direito de que suas organizações sejam fortalecidas, esclarecidas e instrumentadas para trabalhar planos de manejo para que possam se beneficiar dos frutos da modernidade, o que não é crime ecológico.
Estão ali também aldeamentos e comunidades que devem exigir que a CVRD e a Eletronorte, para citar apenas duas empresas de grande porte responsáveis pela exploração mineral e hídrica discutam – e cumpram!!! – medidas compensatórias e mitigadoras dos grandes projetos que o Governo federal e os estaduais apóiam, autorizam e usufruem. Beneficiar as populações com os rendimentos disto  não é entregar o ouro e o couro ao bandido nem é coonestar o crime ambiental.
 Trabalhar com as populações tradicionais e conciliar seus modos de produção com o acesso a tecnologia adequada, não é interferir na sua cultura, porque pobreza, falta de saneamento, de saúde, de educação e de acesso à cidadania não são traços culturais. São apenas pobreza, doença, analfabetismo e cidadania de segunda classe.
 Minha fúria sempre contida deve-se à leitura do artigo de Helio Jaguaribe,  romanticamente intitulado A perda da Amazônia, de onde destaco esta “pérola”:
 “ Por meio de uma multiplicidade de processos, a Amazônia está sendo submetida a acelerada desnacionalização, em que se conjugam ameaçadores projetos por parte de grandes potências para sua formal internacionalização com insensatas concessões de áreas gigantescas -correspondentes, no conjunto, a cerca de 13% do território nacional- a uma ínfima população de algo como 200 mil índios.”
 
 (http://www.desempregozero.org.br/artigos/amazonia.php
 
 Não sei as respostas. Mas acho que estamos fazendo a pergunta errada.
PS: depois de publicado o post, um amigo ligou perguntando se eu não havia trocado Caim por Abel. Como a dúvida pode não ser só dele, esclareço: não, não troquei. Abel todos sabem quem matou. Já, Caim, há controvérsias...rsrsrs.. (atualizado às 21:42 hs)

publicado por Adelina Braglia às 18:10

11
Mar 07

 

Charge do Frank

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 22:57

10
Mar 07

 

Ganhou força dentro do Planalto a idéia de criar uma nova secretaria de Portos e Aeroportos --com status de ministério-- para acomodar os partidos aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A secretaria seria ocupada pelo deputado Beto Albuquerque (PSB-RS), atual líder do governo na Câmara.
 
 
 
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convidou os senadores Roseana Sarney (PMDB-MA) e Romero Jucá (PMDB-RR) para assumirem as lideranças do governo no Congresso Nacional e no Senado Federal, respectivamente. Lula também formalizou o convite ao deputado José Múcio (PTB-CE) para assumir a liderança do governo na Câmara dos Deputados.
 
 
 
 
BRASÍLIA - O Movimento PT, segunda tendência mais importante do partido, decidiu cobrar espaço dentro do governo e elegeu como alvo principal o Campo Majoritário, a corrente petista mais forte e que hoje comanda o partido e o governo.
 
SÃO PAULO - O presidente Lula deve fechar e anunciar a reforma ministerial até a próxima quinta-feira, 15. Esse foi o "recado" passado a líderes partidários. Segundo interlocutores do presidente, ele quer ter a equipe pronta para a reunião do conselho político, marcada esse dia.
 
 
(*) A tradução literal de patchwork é "trabalho com retalhos". É uma técnica que une tecidos com uma infinidade de formatos variados. O patchwork é a parte superior ou topo do trabalho, já o trabalho completo é o acolchoado, formado pelo topo mais a manta acrílica e o tecido fundo, tudo preso por uma técnica conhecida como "quilting" ou acolchoamento (Wikipedia)
publicado por Adelina Braglia às 22:25

08
Mar 07

 

Já que não deu pra evitar, vamos cantarolar:




Se você já sabe
Quem vendeu
aquela bomba pro Iraque,
desembuche:
Eu desconfio que foi o Bush.


Foi o Bush,
Foi o Bush,
Foi o Bush.


Onde haverá um recurso
para dar um bom repuxo
no companheiro Bush?
Quem arranja um alicate
que acerte aquela fase
ou corrija aquele fuso?


Talvez um parafuso
que tá faltando nele
melhore aquele abuso.
Um chip que desligue
aquele terremoto,
aquela coqueluche.


(Companheiro Bush - Tom Zé)



publicado por Adelina Braglia às 18:55

07
Mar 07

 

 

 

Visite o Blog Saúde da População Negra, aí ao lado.

 

 

publicado por Adelina Braglia às 17:00

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