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O Brasil oficial.

Quarta-feira, 17.01.07

 

 

Este é o retrato do Brasil que desanima.
 
Para o Programa que efetivamente poderia criar condições (financiamento e capacitação) para gerar trabalho e renda - o apoio ao microcrédito, política importante quando o emprego formal “dança” e a empregabilidade é oficialmente estimulada - o desembolso orçamentário atingiu 5,91%.
 
Já para o desenvolvimento sustentável da aqüicultura (não confundir com agricultura!) foi cumprido 54,18% do orçamento programado para 2006, seguido de perto pelo percentual pago pelo desenvolvimento sustentável da pesca (48,35%).
 
Este desempenho exitoso da aquicultura, no entanto,  fica comprometido, se rememorarmos as denúncias de desvios de recursos públicos destinados às colônias de pescadores . ([1])
 
O Brasil Quilombola está no quadro para demonstrar o “compromisso” com a questão racial: apenas 26,96% do orçamento, por si só baixo, foi executado.
 
Quanto ao desenvolvimento da Amazônia, que sosseguem os ambientalistas. A definição da ação didaticamente explicita: os recursos são para apoiar o desenvovimento da Amazônia Ocidental e de Macapá e Santana do Amapá certamente duas localidades merecedoras de apoio, mas cujos dramas desenvolvimentistas  são privilégio do senador Sir Ney!!! ([2])
 
Ah, sim! Os recursos destinados ao programa Bolsa-Família, chamado pomposamente de Transferência de Renda com Condicionalidades -  foram quase totalmente autorizados e pagos (91,25%).
 
A propósito, eu sei que o termo “condicionalidades” refere-se ás condições para o acesso ao benefício: ter os filhos matriculados na escola, por exemplo. Não quero que me sigam no raciocínio malicioso sobre outras “condicionalidades” impostas aos beneficiários.
 
 
 

Programa
Dotação
Empenhado
Pago
% Pago/
Autorizada
Autorizado
1387 - Microcrédito Produtivo Orientado
1.500.000
117.871
88.721
5,91
1342 - Desenvolvimento Sustentável da Pesca
77.486.753
50.377.255
37.462.140
48,35
1343 - Desenvolvimento Sustentável da Aqüicultura
20.407.129
14.600.945
11.055.877
54,18
1335 - Transferência de Renda com Condicionalidades - Bolsa Família
8.911.703.950
8.231.021.853
8.131.734.994
91,25
1020 - Interiorização do Desenvolvimento da Amazônia Ocidental
55.415.889
26.779.445
20.358.371
36,74
1336 - Brasil Quilombola
52.324.263
18.976.546
14.105.671
26,96
 
Fonte: http://contasabertas.uol.com.br/Siafi2006/basica-programa.asp

 ([1])
http://www.fundacentro.sc.gov.br/acquaforum/principal/ver_noticias.php?not=1008 
http://www2.prr4.mpf.gov.br/phoenix/nucleos/manifscp
     
 ([2) Não, não tive vontade de checar se, dos recursos autorizados, a maior parte foi para o Amapá, terra adotiva do senador. Mas o link está aí acima. Divirtam-se.
 

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Adelina Braglia às 14:43

Brasil cordial, 5.

Quarta-feira, 17.01.07

 

" Professores negros sumiram da fotografia - A política de ação negativa existe. Ela branqueou o magistério do Rio de Janeiro nos anos 20

O PROFESSOR AMERICANO Jerry Dávila, da Universidade da Carolina do Norte, escreveu um livro que permite uma visita às políticas de ações negativas que afastaram os negros do andar de cima do sistema educacional brasileiro. É "Diploma de Brancura: Raça e Política Social no Brasil, 1917-1945" ("Diploma of Whiteness", publicado em 2003, infelizmente inédito em português). No início do século 20, havia um número razoável de professores negros na rede de ensino municipal do Rio de Janeiro. Dez anos depois, sumiram.

Argumenta-se contra as ações afirmativas com base no critério de mérito: o negro tem acesso a tudo, desde que tenha capacidade. Dávila captou um momento curioso na história da meritocracia pedagógica nacional. Um capítulo do seu livro chama-se "O que aconteceu aos professores de cor?" Ele achou a pergunta num arquivo excêntrico, o acervo de 15 mil imagens de Augusto Malta, fotógrafo oficial da prefeitura da cidade. Contratado por Pereira Passos, Malta trabalhou de 1900 a 1936. Registrava obras, cerimônias e paisagens. Dávila separou cerca de 400 fotografias de escolas, salas de aula e grupos de professores. Resulta que, antes de 1920, cerca de 15% dos professores fotografados eram "de cor", no dialeto da época, afrodescendentes no de hoje. Muitos deles estavam em escolas vocacionais. Era negro o diretor da escola municipal que formava professores. Depois de 1939, a percentagem cai para 2%. Há registros esparsos e superficiais da ocorrência desse mesmo fenômeno em Campinas e Pelotas, onde algumas professoras viraram costureiras. (É possível que o arquivo de Malta guarde outra surpresa: podem ter sumido também os jornalistas negros.)

Os mestres negros dos anos 20 foram substituídos por professoras brancas. Dez anos depois, surgiu o Instituto de Educação, a gloriosa escola normal do Rio. Era uma instituição modelo, onde as alunas passavam por um duro exame de qualificação intelectual e médico. Havia até cursinhos preparatórios para normalistas. Exigia-se um custoso enxoval, com luvas brancas. Uma filha de ferroviário só conseguiu comprar os uniformes porque sua família cotizou-se. Dávila esclarece: não há indício de normas destinadas a excluir deliberadamente os negros, havia apenas o sonho de fabricar uma "fina flor" de educadores.

Continuando sua pesquisa nos acervos fotográficos, Dávila foi ao álbum de formatura das normalistas de 1942. De 171 professoras diplomadas, só 12 (7%) eram afrodescendentes. Conseguira-se o branqueamento dos diplomas. Foi um processo elitista, racional e bibliograficamente sofisticado. Fernando de Azevedo, secretário de educação do Distrito Federal de 1926 a 1930, acreditava que "sem a criação de elites capazes de guiá-las, a educação das massas populares resultará num movimento na direção da pior demagogia".

"As massas", sempre, são os outros. É a velha demofobia. Se não fizerem o que eu digo, a choldra descerá dos morros e destruirá nosso paraíso tropical. Os negros dirão que são negros. Professoras brancas com luvas brancas prometiam um quadro melhor que o das fotografias dos professores enfatiotados de Augusto Malta. As normalistas trabalharam duro, mas o estado atual do sistema escolar nacional indica muitas coisas, uma delas é o fracasso da política de ações negativas. Tirar o negro da fotografia não resolve o problema."

(Elio Gaspari - Folha de S. Paulo,  6 de agosto de 2006)

 

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Adelina Braglia às 13:49


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