" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

21
Jun 06
Eu não gosto da solidão,
o que difere de gostar, às vezes,
de ser sozinha.
Eu não gosto de chuva fina:
ela me molha a alma
e eu levo muito tempo a enxuga-la.
Eu gosto de temporais,
mesmo quando me fazem sentir medo,
lembrando as lições cretinas
do colégio da infância,
onde me ensinavam que o mundo acabaria
em dias de raios e trovões.
Eu gosto das pessoas comedidas
e invejo as deslavadas.
Mais que isto, amo as transgressoras.
Eu não gosto de afagos sem calor
daqueles beijinhos formais
dados por quem
não tenho a menor vontade de beijar.
Eu gosto de frutas, todas,
e amo algumas verduras,
aquelas de folhas escuras
e nomes lindos:
rúculas, escarolas, espinafres!
Eu não gosto muito de doces,
mas amo sorvetes.
Adoro peixes e massas,
mesmo sabendo que deveria odiar as últimas.
Eu não gosto de olhos que fogem dos meus,
nem de mãos que apertam frouxas,
e fazem de um cumprimento
uma gosmenta e desconfortável apresentação.
Eu gosto de Pierre-Joseph Proudhon
e sei que isto me faz parecer muito antiga,
mas compõe o meu perfil
e aponta as minhas idiossincrasias.
Eu gosto de boleros, jazz e blues.
E amo os poetas,
quase todos os que conheço e
lamento conhecer tão poucos.
E amo os rios
embora reconheça
ter com o mar uma relação quase religiosa,
poderosa, nos termos antigos:
Temo-o!



publicado por Adelina Braglia às 09:22

20
Jun 06

 Mal termino o post abaixo e resolvo ler os e-mails. Entre outros, um destaca a entrevista de Marcola, concedida a Arnaldo Jabor, publicada no Jornal do Brasil em 26/05. (*)Transcrevo um pedacinho:

" - Você é do PCC?

- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias... A solução é que nunca vinha... Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer", essas coisas...
Agora, estamos ricos com a multinacional do pó . E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão... 

- Mas... a solução seria...

- Solução? Não há mais solução, cara... A própria idéia de "solução" já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio ? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios...)  
E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível.Não há solução.

- Você não têm medo de morrer?

- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... mas eu posso mandar matar vocês lá fora.... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira.
Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala... Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em "seja marginal, seja herói"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né?
Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país.
Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua.
Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo." (...) 

Só transcrevi. Não vou comentar. Esgotei minha nebulosa clareza na reunião abaixo. Vou tomar um leite gelado. Pra tentar destravar a garganta.

(*) meu irmão me avisa que esta entrevista parece não ter existido. Como não leio as colunas do Jabor - cineasta medíocre e comentarista hidrófobo - voltei ao remetente do e-mail, que também a recebeu da mesma forma. Fui ao Google e há muitas referências a ela, em blogs, e no site do www.estadão.com.br. Porém, fica aqui o aviso, postado hoje, 24.06.2006.

publicado por Adelina Braglia às 19:21

O blog faz agora o papel da analista, com quem perdi a hora, hoje. E semana passada também! Eu bem que corri - eu, não, o carro e o motorista - mas uma reunião verdadeiramente imprevisível na sua duração, me reteve além do horário.

Minha fala, naquela comunidade pequena, cercada de castanheiras, tentava demonstrar que a propriedade é um direito quase sempre ilegitimo,  (pequena variação de toda propriedade é um roubo) mas é legal, pelo que determina o código civil brasileiro (pátria amada varonil!)

E que, como agente público, me obrigo a respeitar o que a lei determina. E que os direitos legais, mesmo que injustos, são preservados, e o que é justo e a lei não contempla com clareza, deve ser garantido pelo poder público e suas instãncias, mediante negociações, acordos ou instrumento de força, como a desapropriação. Mas que devem ser tão defendidos como os direitos "legais".

Recomeçamos uma rodada de conversas para chegarmos minimamente a uma trégua que nos permitisse encontrar saídas.

Muita conversa, quase alguns tapas entre os conflitantes, mais conversa, mais quase-tapas, e uma saída tipo encruzilhada: fica tudo como está enquanto o paquidérmico poder público não destrinchar e desfizer o caos que causou.

Caramba - estava escrito nos olhos deles - se esta criatura diz que a propriedade assim posta é injusta, o que ela fará para conciliar o que pensa com o que deve fazer...tacham...tcham! Se não era a pergunta nos olhos deles, era a pergunta que girava no letreiro da minha cabeça.

E eu vim, caminho de volta, tentando lembrar o poema abaixo, que, melhor do que as minhas convicções, foi de fácil acesso:

Cesse de uma vez meu vão desejo
de que o poema sirva a todas as fomes.
Um jogador de futebol chegou mesmo a declarar:
"Tenho birra de que me chamem de intelectual,
sou um homem como todos os outros."
Ah, que sabedoria, como todos os outros,
a quem bastou descobrir:
letras eu quero é pra pedir emprego,
agradecer favores,
escrever meu nome completo.
O mais são as mal-traçadas linhas.

(O que a musa eterna canta - Adélia Prado)

publicado por Adelina Braglia às 18:47

19
Jun 06

biabrasil.jpg

publicado por Adelina Braglia às 07:49

brasileiras.jpg
publicado por Adelina Braglia às 07:47

duasbandeiras.jpg
publicado por Adelina Braglia às 07:45

18
Jun 06

Que tivesse um blue

Isto é imitasse feliz

 A delicadeza, a sua

Assim como um tropeço que mergulha surdamente

No reino expresso do prazer

Espio sem um ai as evoluções do teu confronto à minha sombra

Desde a escolha debruçada no menu:

Um peixe grelhado, um namorado, uma água sem gás

De decolagem:leitor ensurdecido

talvez embebecido "ao sucesso", diria meu censor

"à escuta", diria meu amor

sempre em blue. Mas era um blue feliz.

(Ana Cristina César) ...

publicado por Adelina Braglia às 09:29

Olho sempre com os olhos de primeira vez

coisas que a memória tinha por dever preservar,

como coisas e experiências já vistas e vividas,

e por obrigação de ofício

ela não me deixar surpreender.

Tenho uma sede infinita de saber,

mas não o persigo disciplinadamente.

Aposto demais na minha intuição.

Já gostei mais das pessoas.

Fui tolerante para além da minha capacidade

e isso me infringia às vezes tanta dor

que era quase insuportável.

Amei meu pai sobre todas as coisas,

compreendi mal a minha mãe.

Só ao perde-la aprendi a enxergar suas virtudes,

que reneguei durante toda a sua vida.

Amei pouquissimas vezes, embora intensamente

e gostaria de ter amado mais

Amei muito os filhos

mas foi um amor sem exigências.

Deveria ter lhes imposto limites mais claros

para que se sentissem mais fortes

para arrancar da vida, com as próprias mãos,

o trigo e o joio,

a dor e a delícia de se ser o que se é,

que Gal canta tão bem.

Ouvi muita música,

pois nela eu parecia encontrar sempre as respostas.

Amei os poetas, pela mesma razão.

Portanto, ouvi músicas e li poemas pelos motivos errados.

Hoje ouço menos música do que preciso

e leio menos do que necessito, inclusive os poetas.

Minhas mãos, tal qual a música de Sérgio Endrigo,

parecem “mani bucate” quando começo

a fazer esta contabilidade da vida.

Mas, hoje, porque é domingo

e o dia está lindo,

e porque eu sinto a saudade estranha

daquilo que não vi e nem vivi,

só quero comemorar antecipadamente um aniversário.

Vai daqui o beijo imaginado,

o abraço não dado,

o carinho que não basta.

publicado por Adelina Braglia às 08:34

17
Jun 06

confundo os dias fastos e nefastos.

sou sempre o mesmo, mesmo não querendo.

vário, talvez, mas conhecendo o estilo

com que desfilo, os filamentos que

se esgarçam

as graças de que desfruto

o usufruto desta vida cheia de bem

e de mal

tenho por céu o que não me pertence

o que paira no ar sem que eu perceba.

por inferno? talvez esta estrutura

em que me confino, sempre à revelia.

um dia hei de ser múltiplo de mim

do fim até o princípio

deixarei de ser esse mercado persa

minha alma enfim se encontrará comigo

ou vice-versa

(física e metafísica - Geraldo Carneiro)

publicado por Adelina Braglia às 09:49

O site www.contasabertas.uol.com.br indica como o orçamento da União vem sendo efetivado neste ano eleitoral.

Dos recursos destinados à "Gestão da politica de comunicaçao do governo", (R$ 160.663.795,00), já foram empenhados  R$ 117.030.305,00.

Dos recursos destinados ao "Desenvolvimento sustentável da reforma agrária" (R$ 523.871.810,00), foram empenhados R$ 20.561.601,00!

Não estranhe, não! A proporção tem lógica:  perpetuando a prática do governo FHC, os assentamentos já existentes desde a década de 70, 80, foram "redescobertos". O INCRA cadastra as famílias que ali já vivem em situação de abandono, sem estradas, assistência técnica e tecnologia apropriada à produção, e os inclui na relação de beneficiários do crédito fundiário e  cestas básicas. A partir daí, "contabiliza-os" como novos assentados, o que explica as metas fantásticas de 100 mil, 200 mil famílias assentadas "alcançadas" no Governo Lula.

Portanto, gasta justificadamente mais em propaganda do que na reestrturação dos antigos assentamentos. C.q.d. , como queríamos demonstrar, tal qual o teorema das aulas de matemática.

Para o pagamento de juros e amortizações da dívida externa, cuja dotação inicial era de  R$ 44.710.672.066, já foram empenhados R$ 35.746.898.653,00. Também faz sentido.

 

publicado por Adelina Braglia às 09:42

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