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Pós-miséria.

Terça-feira, 20.06.06

 Mal termino o post abaixo e resolvo ler os e-mails. Entre outros, um destaca a entrevista de Marcola, concedida a Arnaldo Jabor, publicada no Jornal do Brasil em 26/05. (*)Transcrevo um pedacinho:

" - Você é do PCC?

- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias... A solução é que nunca vinha... Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer", essas coisas...
Agora, estamos ricos com a multinacional do pó . E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão... 

- Mas... a solução seria...

- Solução? Não há mais solução, cara... A própria idéia de "solução" já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio ? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios...)  
E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível.Não há solução.

- Você não têm medo de morrer?

- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... mas eu posso mandar matar vocês lá fora.... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira.
Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala... Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em "seja marginal, seja herói"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né?
Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país.
Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua.
Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo." (...) 

Só transcrevi. Não vou comentar. Esgotei minha nebulosa clareza na reunião abaixo. Vou tomar um leite gelado. Pra tentar destravar a garganta.

(*) meu irmão me avisa que esta entrevista parece não ter existido. Como não leio as colunas do Jabor - cineasta medíocre e comentarista hidrófobo - voltei ao remetente do e-mail, que também a recebeu da mesma forma. Fui ao Google e há muitas referências a ela, em blogs, e no site do www.estadão.com.br. Porém, fica aqui o aviso, postado hoje, 24.06.2006.

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Poemas legítimos e realidades imaginárias.

Terça-feira, 20.06.06

O blog faz agora o papel da analista, com quem perdi a hora, hoje. E semana passada também! Eu bem que corri - eu, não, o carro e o motorista - mas uma reunião verdadeiramente imprevisível na sua duração, me reteve além do horário.

Minha fala, naquela comunidade pequena, cercada de castanheiras, tentava demonstrar que a propriedade é um direito quase sempre ilegitimo,  (pequena variação de toda propriedade é um roubo) mas é legal, pelo que determina o código civil brasileiro (pátria amada varonil!)

E que, como agente público, me obrigo a respeitar o que a lei determina. E que os direitos legais, mesmo que injustos, são preservados, e o que é justo e a lei não contempla com clareza, deve ser garantido pelo poder público e suas instãncias, mediante negociações, acordos ou instrumento de força, como a desapropriação. Mas que devem ser tão defendidos como os direitos "legais".

Recomeçamos uma rodada de conversas para chegarmos minimamente a uma trégua que nos permitisse encontrar saídas.

Muita conversa, quase alguns tapas entre os conflitantes, mais conversa, mais quase-tapas, e uma saída tipo encruzilhada: fica tudo como está enquanto o paquidérmico poder público não destrinchar e desfizer o caos que causou.

Caramba - estava escrito nos olhos deles - se esta criatura diz que a propriedade assim posta é injusta, o que ela fará para conciliar o que pensa com o que deve fazer...tacham...tcham! Se não era a pergunta nos olhos deles, era a pergunta que girava no letreiro da minha cabeça.

E eu vim, caminho de volta, tentando lembrar o poema abaixo, que, melhor do que as minhas convicções, foi de fácil acesso:

Cesse de uma vez meu vão desejo
de que o poema sirva a todas as fomes.
Um jogador de futebol chegou mesmo a declarar:
"Tenho birra de que me chamem de intelectual,
sou um homem como todos os outros."
Ah, que sabedoria, como todos os outros,
a quem bastou descobrir:
letras eu quero é pra pedir emprego,
agradecer favores,
escrever meu nome completo.
O mais são as mal-traçadas linhas.

(O que a musa eterna canta - Adélia Prado)

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Adelina Braglia às 18:47


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