" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

22
Mai 06

Se eu desdobrasse esta dor em dez e a repartisse pelo corpo inteiro, não haveria braços, pernas, olhos, boca, capazes de suportá-la. O corpo não suporta dores. Na verdade, ele as sublima. Transforma-as em dor na coluna, na cabeça, no estômago.

A dor de causar dor ao filho, esta não. Esta não se dissolve nem se dissipa pelo corpo. Não alivia, não distribui seu peso de forma que se possa carregá-la. Ela gruda na alma e a espreme.

Encontro formas mil para me explicar comigo, pra dizer que este é o remédio necessário pra curar a dor do filho. Mas, que medo, que medo!

Ai, que esta dor agarrada à alma, não passa, não passa, não passa.

publicado por Adelina Braglia às 22:02

Às vezes a escolha é de alto risco. Mas, não há como parar na encruzilhada. Foi assim que me senti hoje, ao amanhecer insone e me convencer que meu amor pelo filho só indica uma escolha, aquela que parece a mais dura, a mais fria, a mais “desamorosa”. E junta-se a essa dificuldade, outra, talvez pior: não saber se o que dói é a dor do filho ou a minha impotência de intervir, eu, a poderosa mãe, que sabia os caminhos que ele devia andar, com as minhas pernas!

Retardei suas possibilidades de cura, pela minha arrogância – que tantas vezes chamei de amor! Cheguei a sentir, muitas vezes, aquela pontinha de irritação por achar que ele não queria ir por onde eu indicava, o que para mim era a coisa mais natural do mundo. Afinal, em nome do amor, a gente sufoca, prende, amarra. E isso não é privilégio de mães. É erro de quem acha que amar é isso.

O registro destes dias de escolha serão relembrados por nós, dentro em breve, com o alívio que tem o pescador, contando a atentos ouvintes, como foi difícil sair daquela tormenta, há muitos temporais atrás. Não, isso não é presunção, filho. É um sincero e amoroso desejo.

Um beijo.

publicado por Adelina Braglia às 08:43

19
Mai 06
Juquehy 049.jpg
publicado por Adelina Braglia às 03:29

 Eu penso que se comesse chocolate como a menina suja, ou se me casasse com a filha da minha lavadeira, testaria a tese de Fernando Pessoa sobre ser modestamente, simplesmente, vagamente ou calmamente feliz.

As escolhas não têm controle. Mas, eu “começaria tudo outra vez, se preciso fosse...” como cantou Gonzaguinha, porque não há arrependimento, nem pena, nem raiva. Há um acúmulo de vida construída. E tanta, tanta solidariedade, que a raiva, se existe, é de não termos sabido como preservar tudo isso! Mas, o descuidado jeito com que descuidamos de nós é que nos foi fatal.

Hoje, com uma dor fininha pelo meio, entendo que se encerrou uma longa história que quando for refeita será com outro foco. Na ponta do lápis: 32 anos. Caramba! Até que resistimos muito bem a nós

No balanço geral há tantos risos, carinhos e sonhos que a sensação é de um enorme oco no peito. Mas que não dói. É a dimensão do vazio, a dimensão do insubstituível, que incomodam. Nada vai ser assim, nem sequer parecido. Nunca haverá um amor como o nosso. Você e eu poderemos ser muito felizes, mas com outros gostos na boca.

O vôo de volta me permitiu pensar a vida como um filme passado nas paredes da memória. Não há culpas, penso eu. Nem há ninguém que possamos responsabilizar pela nossa separação. Nem mesmo meu coração “leviano” porque ele nunca o foi. Nem o seu silêncio renitente naquele recente período de dúvidas pra você e de tantas certezas pra mim!

Foi o tempo, o maldito tempo, que consolida ou deixa frágil, que junta e separa, que faz e desfaz.

Gostaria sim de ser mais simples, como às vezes a vida merece ser. Mas, não! Tenho em mim todos os sonhos do mundo, parafraseando de novo o poeta. E o sonho coletivo sempre sufocou o individual, se bem que neste instante eu não tenha certeza deste argumento. Tenho uma arrogância tamanha sobre as minhas possibilidades de controle! E nelas é que me deixei ficar, ficando longe, ficando cada vez mais certa dessa incerteza que fomos nós nessa última década da nossa forte vida.

Virá um tempo de risos, de abraços apertados, de carinho, que persistem e que resistirão ao nosso atual desencontro. Nosso amor foi muito maior e mais sólido do que percebemos e o nosso laço não se rompe como fio de linha. Mas, agora não. Eu sei. É tempo de lamber as feridas, de cura-las e deixar que cicatrizem.

O abraço fica aqui guardado, pra quando você puder e quiser receber. Quando as nossas cicatrizes forem só um troféu que queremos guardar pra sempre e pudermos abrir nossos braços pra uma imbatível amizade.

Beijo você. À distância, como nos últimos anos, mas muito mais perto do que sempre estivemos.

publicado por Adelina Braglia às 02:04

17
Mai 06

"Quem sabe algo parecido houve na revolta dos tenentes em julho de 1924, quando, além de combates nas ruas, aviões bombardearam bairros e parte do centro da cidade. Na segunda-feira, São Paulo teve um troço, um colapso cardíaco."

(CARTA ÁCIDA/Crônica da cidade desvairada - Flávio Aguiar)

http://cartamaior.uol.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3195

publicado por Adelina Braglia às 12:52

16
Mai 06
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta.
As sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
(Grande desejo - Adélia Prado)
publicado por Adelina Braglia às 10:54

15
Mai 06

O estado fragilizado e o crime organizado fazem do estado e, especialmente, da cidade de São Paulo, reféns da sabida parceria entre o crime e a corrupção policial, num cenário aterrorizante. Entre os policiais a tensão é enorme e em breve eles estarão metralhando qualquer coisa que se mova. A bandidagem aproveita o clima e soma, às ações do PCC, atos de outras facções e grupelhos, aproveitando o caos para resolver outras diferenças.

O trãnsito na cidade é mais caótico do que o normal. Até o momento, ocorreram 151 ataques e 91 pessoas foram mortas, entre policiais, civis e suspeitos de apoiarem o PCC! Há 45 rebeliões em presídios do estado e muitas escolas estão fechando!

Há ataques a ônibus, a agências bancárias. Algumas lojas de ruas comerciais de bairro estão cerrando suas portas. O poder do tráfico ultrapassou os limites das rebeliões nos presídios ou a matança indiscriminada de policiais nas delegacias e quartéis. Não sei se há nesse momento alguém capaz de ter informações suficientes para compreender esse quadro. Meu amigo Santos Passos aponta no seu blog (http://santospassos.blogspot.com/) uma excelente razão - alguém levou e não pagou! -  mas que não deve ser a única.

 O confronto inicial com entre as polícias - civil e militar - e o comando do tráfico dão razão a essa tese, bem como o alto comprometimento dessas policias com a corrupção ativa e passiva. Isso explica o poderio de fato desse "setor" no estado e no país. Porém, se eu não estiver sofrendo de paranóia cívica, o que enxergamos não explica tudo.

Quem sabe, estamos nós metidos numa disputa muito maior, que vai do "apoio" do comando do tráfico à derrubada de determinado comandante ou chefe de polícia, coisa corriqueira nesse brasilzinho onde nasci. Penso ainda que essa minha tese pode ser chinfrim, e que há armações muito maiores do que o meu binóculo pode captar.

Parece evidente que os incidentes crescentes não podem ser debitados só ao poder do famigerado PCC. Há a expansão destes atos para outros estados - Paraná e Mato Grosso, por enquanto - que eu não concebo como poder ilimitado do tráfico e dos seus tentáculos. Ou, se for assim, Lula sai e entra logo o Marcola!

O que me incomoda, zumbindo nos meus ouvidos, além do que os olhos enxergam e os ouvidos escutam, é a máxima do Barão de Itararé: há algo mais no ar do que aviões de carreira!

publicado por Adelina Braglia às 13:59

14
Mai 06
Faz muito frio nesta cidade, mas a noite está clara e o céu limpo.
De repente, os vazios são menos turvos, os descaminhos serão naturais se tiverem que ser descaminhos.
Poder olhar enxergando, escutar ouvindo, abraçar sem medo, perdoar à priori. Foi a melhor maneira de dizer ao filho que o amor é grande e por isso mesmo tem limites.
O mundo arde em volta, a cidade treme na guerra civil não declarada, meu corpo dói da tensão curtida, o coração se contrai às cicatrizes, mas eu hoje sei que vou dormir em paz.
Melhor que isto, só a travessia...a nado, pra valer!
Um abraço ultramarino.
publicado por Adelina Braglia às 22:24

... na versão musical de Caetano e na minha. Mas não na do Governador de São Paulo, Cláudio Lembo, aquele que ganhou como premio alguns meses no governo do estado, substituindo o gerente candidato a presidente. Segundo ele, a situação está sob controle.

Nossa matemática não coincide: desde sexta-feira São Paulo está refém da guerra civil do tráfico. O número de mortos (policiais e já alguns civis, as eternas vítimas das "balas perdidas") subiu de 30 para 52. E as rebeliões nos presídios passaram de 18 para 57.

Está tudo sob controle....de quem?

Salvai-nos, Santo Ambrósio!

Eu, que vou de volta daqui a poucos dias, salvo-me. E vocês?

publicado por Adelina Braglia às 15:01

13
Mai 06

luaoval.JPG


Ontem, a lua pálida e ovalada de Irituia anunciava a lua cheia e redonda de hoje  na noite de Belém. A minha pálida tristeza de ontem, não anunciava nada para hoje.

Uma vez, sofisticando meu raciocínio ao extremo, disse à analista: "Eu não sou infeliz. Eu sou não-feliz e isso para mim é diferente." Ser infeliz pressupõe motivos, causas, dores. Eu as tenho, mas não acho que elas me dão o direito de ser infeliz, essa coisa triste. Isso sim, é triste.

"Ah! essa  melancolia!", diria minha madrinha. E eu acho que a minha tristeza é mais parecida com isso. A melancolia, às vezes doce, às vezes ácida, mas sempre presente, como uma coisa a me acusar, com voz mansa, dessa culpa atávica de ter nascido e de ter me arvorado, só por isso, a ser arrogante na escolha de caminhos para os outros, especialmente os filhos.

Olho-os hoje, crescidos, tropeçando nas suas escolhas e caminhos, e eu os amo intensamente. Percebo o quanto reajo para permitir que se desvencilhem de mim, quando me vejo sentada sobre eles, tal qual uma galinha choca!

E quando pedem para respirar, quero conduzir sua respiração. E quando choram, quero tirar sua dor com as mãos. E percebo que nada disso é amor. É presunção, é controle, é poder. Que eu chamo de amor materno, de afeto, de carinho, mas é um exercício feroz de poder.

Caramba, o pior é que tenho uma velha tese: mães são um peso grande demais para uma única vida. Deveríamos nascer  como as  mangas, amadurecer nas árvores e sair caminhando, sem traumas.

Dia das mães, essa coisa estranha, que eu tive e perdi, que eu sou e não me contenho.

Parabéns para nós! E que os deuses protejam de nós os nossos filhos. E, em todos estes dias que Mercedes diz que " todo cambia..."  hoje é o dia em que o fundo musical me parece mais que perfeito!

publicado por Adelina Braglia às 21:30

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