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Outros janeiros.

Domingo, 08.01.06

solpoente.JPG


Não dá pra precisar a data, embora o papel amarelado, o texto “datilografado” e o assunto, me remetam ao início dos anos 80. Sem saber os motivos da minha insônia, Rosa localizou esse papel hoje cedo e em meio a outra coincidência - temos, ao fundo, o som e a imagem dos depoimentos do Chico, numa série lançada pela TV Bandeirantes, onde ele faz o seu precioso, poético e preciso relato dos últimos 30 anos deste Brasil - lá vou eu no túnel do meu tempo!

Releio o texto no papel amarelado. Marabá, sul do Pará, a ponte sobre o rio Tocantins recém inaugurada, levava – e ainda leva - o minério da serra de Carajás para o porto de Itaqui, em São Luiz, Maranhão. Marabá, o estado do Pará, seu povo, suas esperanças, suas prioridades, continuam a ser meros acidentes no trajeto da ferrovia.

Vale o registro, nem que seja só pra me lembrar o quanto sou reincidente na sensação de janelas fechadas e pedaços arrancados, formando buracos na alma:

 


Às 7 horas da noite, tendo ao fundo o sol poente

o trem atravessa o rio por sobre as pernas da ponte.

Não seria quase nada esse fato corriqueiro

se isso não me lembrasse outras noites, outros tempos.

Tempo em que se pensava que o mundo já acabava na curva do Itacaiúnas,

e tudo de ruim que isso podia trazer.

A gente era mais suave, mais viscoso, ou quem sabe, mais ingênuo.

Se eu fechar os olhos, apurar o olfato, os ouvidos e a memória,

vejo tudo como um filme:

o barraco do aeroporto, as canoas do Amapá – que ainda estão por lá –

como se não fizesse diferença Marabá ter chegado ao mar!

Talvez igual mesmo, só o sol poente.

E para ser honesta é preciso enxergar sem os olhos da saudade,

mas, por mais que eu me esforce fica sempre o gosto amargo do pedaço arrancado.

O trem atravessa o rio sobre enormes pernas de ferro,

as mesmas enormes pernas que levam Marabá ao mar,

ao lambe-lambe salgado das águas do oceano.

 

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Janeiros.

Domingo, 08.01.06

Em janeiros passados, eu tinha o riso leve e solto, dos que não sabem a verdade. Nessa madrugada de um domingo de janeiro, tenho o riso contido, dos que aprenderam que há mentiras e mentiras. Penso nas minhas poucas convicções, não mais que meia dúzia de três ou quatro, aquelas que sustentam a coluna vertebral e das quais, se eu abrir mão, eu morro, e vejo que são muito poucas, se comparadas às que cultivei naqueles janeiros passados.

Não sei porque me veio essa necessidade de um “balanço de começo de ano”. Não sei porque a minha quase feroz autocrítica, que vinha sendo amainada pelos maravilhosos comprimidos de Pondera, aflorou assim, como se o banho noturno me tivesse tirado a pele cordial que sempre visto ao amanhecer.

Volto a pensar que gostaria de ter sido cantora de bar, daqueles onde as pessoas vão à noite pra namorar, ouvir música, afogar as mágoas ou para deixar vir à tona sua alegria. Não, eu não agüentaria cantar em churrascarias, onde as pessoas vão gritar suas conversas cretinas, ou mastigar de boca aberta enormes pedaços de carne. Talvez assim não acumulasse convicções para deitá-las fora com o passar dos anos.

Não, eu não acho que cantores de bar são imbecis! Creio apenas que, por faltar-lhes o “tempo comercial” para que a vida os entupa - afinal, durante o dia, devem gastar boa parte do tempo a dormir – provavelmente consigam discernir melhor o que vale a pena acumular nas pautas da cabeça.

Há um silêncio a rua e um apagar constante das luzes das janelas nos edifícios vizinhos. Faço, imediatamente, uma ligação entre as janelas apagadas e as minhas convicções jogadas fora. É isso. Sinto-me como um edifício cheio de janelinhas apagadas, com a diferença que amanhã elas, as janelas, estarão acesas novamente, e eu, eu continuarei com três ou quatro janelas que nem sei mais se as quero abrir para entrar o sol.

Amanhã acordo com a alma renovada, como sempre acontece. Mas hoje não. Vou dar-me ao luxo de olhar mais uma vez para fora e me reconhecer no edifício em frente, janelas escuras, comprida sombra noturna.

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Adelina Braglia às 00:51


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