" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

21
Dez 05

Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor, este tão belo amor
que deu grandeza e graça à tua vida,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna e nela habita.


Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,

de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,

e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,

tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.

Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não ficando qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico
no próprio coração da eternidade
 
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.

Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde possas brincar sempre que as praças

que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.

Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só macia, mansa
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando como noiva para as bodas.
Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.

Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.

Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma para dar ao céu.

É tempo.
Faze tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.


(Sugestão - Thiago de Mello)

publicado por Adelina Braglia às 16:02

12-07-05_2048.jpg


Abú.

Um olho no queijo, outro no rato.

Minha interpretação, não o fato.

Mas, ainda assim,

Abú é um lindo gato!

publicado por Adelina Braglia às 07:02

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