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Drops de aniz.

Segunda-feira, 07.11.05

Eu gostava de drops de aniz e da flor, azul, pequenina.Eu achava que faria tudo o que queria, e imaginava que eu sabia tudo o que queria. Eu achava que poesia tinha a ver com fantasia e a paixão que eu sentia ardia como os drops de hortelã. Ele era o menino que passava na calçada, com jeitão de John Lennon, e eu era aquela que eu imaginava ser. E o chinês que vendia canetas e que queria casar comigo, representava apenas um desnecessário retorno à realidade.

Eu não sei se era feliz, mas sei que não me preocupava com isso e o único círculo de giz que eu conhecia era o céu da “amarelinha’.

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Adelina Braglia às 20:07

Todos nós.

Segunda-feira, 07.11.05

Há muitos dias não falo do meu país. Ele e eu vamos mal. Assim, não me parece adequado o roto falar do esfarrapado.

Quanto a mim, parece que melhoro, apesar dele. Quanto a ele, tem chances de melhorar sem mim. Melhoro vencendo uma melancolia sorrateira que quer me abater todos os dias. Meu país não sofre de melancolias, e não sei como vai superar esse quase desengano que se abate sobre ele.

Uma forma de espantar minha melancolia - que desenha manchas roxas no corpo, como ensinava minha madrinha - é tentar entender os sinais. Sinais indicados pelos pedaços de músicas que amanhecem subitamente na memória. Lá vai a de hoje:

“...e depois que a tarde nos trouxesse a lua,

se o amor chegasse, eu não resistiria,

e a madrugada acalentaria a nossa paz...”(*)

Meu país, também cantante, poderia fazer o mesmo. Lembrar-se de músicas que o incitem a ter esperanças. Uma delas?

“...E no entanto é preciso cantar,

mais que nunca é preciso cantar,

é preciso cantar e alegrar a cidade.

A tristeza que a gente tem,

qualquer dia vai se acabar todos vão sorrir,

voltou a esperança é o povo que dança,

contente da vida, feliz a cantar..” (**)


Mas agora vamos ao Neruda, que faz bem ao país e a mim.


Está tudo florescido nestes campos,

macieiras, azuis titubeantes, capinzais amarelos,

e na grama verde vivem as amapolas.

O céu inextinguível, o ar novo de cada dia,

o tácito fulgor, benesse de uma extensa primavera.

Só não há primavera em meu recinto.

Enfermidades, beijos transtornados,

como heras de igreja se grudaram

nas negras janelas desta vida

e apenas o amor não basta,

nem o selvagem e extenso

aroma da primavera.

E para ti o que são neste agora

a luz desenfreada, o progresso

floral da evidência,

o canto verde das verdes folhas,

a presença do céu com sua taça de frescor?

Primavera de fora, não me atormente,

desatando em meus braços vinho e neve,

corola e galho partido de pesares,

dá-me hoje o sonho das folhas noturnas,

a noite em que se encontram

os mortos, os metais, as raízes,

e tantas primaveras já extintas

que despertam a cada primavera.

(Pablo Neruda – Com Quevedo, na primavera, in Neruda por Skármeta)

(*) Eu e a brisa – Johnny Alf

(**) Marcha da quarta-feira de cinzas – Carlos Lyra e Vinícius de Moraes

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Alumbramento.

Sábado, 05.11.05

por de sol na estrada rosa2.jpg 

Foto: Rosa Almeida


Catar os cacos do caos como quem cata no deserto
o cacto
- como se fosse flor.

Catar os restos e ossos da utopia como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.

Catar a verdade contida em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
- do dia cão.

Recortar o sentido como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.

Como o arqueólogo a reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.

Catar os cacos de Dionísio e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.

Catar os cacos de Orfeu partido pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado 
- como era antes.

Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.

É um quebra-cabeça? 
Então de cabeça quebrada vamos sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção

Cacos de mim
Cacos do não
Cacos do sim
Cacos do antes
Cacos do fim

Não é dentro
nem fora
embora seja dentro e fora
no nunca e a toda hora
que violento
o sentido nos deflora.

Catar os cacos do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora

(Catando os cacos do caos - Affonso Romano de Sant'Anna)

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Pra não dizer que não falei das rosas.

Quinta-feira, 03.11.05

Perdida entre a ira e a compaixão,

sei que o que as difere são nuances sutis.

Como as que existem entre os tons das rosas pálidas e das rosas-chá.

E porque é novembro, e ainda é primavera,

posso fechar os olhos e ignorar a neblina,

posso não sentir o frio, posso imaginar perfumes.

Posso até fazer de conta que tudo vai bem.

Como diz Adélia Prado,

“Mulher é desdobrável. Eu sou”.

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Adelina Braglia às 10:04

Meditação à beira de um poema

Quinta-feira, 03.11.05
Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa- pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro



ADÉLIA PRADO


( inserido por «samartaime», Portugal, 03:11:05, 12:34 )

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Adelina Braglia às 08:32

A menina da foto.

Quarta-feira, 02.11.05

menina.bmp

 

O olhar da menina parece assustado.

Ou talvez ela apenas não gostasse de ficar parada, quieta, posando pra foto. Ou, quem sabe, era só a roupa engomada que a incomodava, ou o sapato que lhe apertava o pé. Ou não gostava de andar tão enfeitada como a mãe lhe punha, e  nada além disso. Não havia por trás do olhar nada que mereça tantas considerações.

A foto é antiga, o olhar da menina não prediz o que ela se fez.

A foto roubou-lhe um instantâneo de desconforto. Ou ansiedade. Ou raiva. Ou um breve instante de inquietude que, quem sabe, nem sequer a acompanhou pela vida afora.

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