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Quase.

Quinta-feira, 24.11.05

Quando tudo parece quase certo,

um gosto doce e familiar chega à bôca.

Um gosto conhecido de melancolia,

como se a vida quase em ordem fosse tédio.

Um gosto misturado de plenitude, vazio e saudades,

Saudade do sabonete Eucalol,

excessivamente perfumado,

e da propaganda do rhum creosotado.

Uma saudade de mim,

de você,

de quem eu suspus ser,

e até mesmo do que eu fui.

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Adelina Braglia às 15:59

Bem a calhar.

Quarta-feira, 23.11.05
" Ao contrário dos meus informantes, sou um dos raros negros no Brasil que tem tido o privilégio de inverter posições e, mais do que “objeto” de estudo, tornar-se um agente reflexivo negro que produz conhecimento sobre os negros e suas manifestações culturais. Portanto, as questões e idéias que lanço aqui sobre práticas corporais e afro-descendência no Brasil são orientadas por esta posição de enunciação. Desta posição, penso no fascínio ou desconforto que a presença negra costuma exercer em espaços onde jamais se espera que esteja como sujeito. Penso no quão paradoxal pode parecer o fato dos negros, que são, segundo estimativas oficiais, quase metade da população no Brasil, estarem ausentes ou desproporcionalmente representados em todas as instâncias públicas de poder político e econômico, assim como em todas as esferas de produção artística e cultural legitimadas.

Este paradoxo se torna mais intrigante quando lembramos que, embora internamente, as elites brancas tenham forjado uma identidade nacional “morena” que transcenderia as raças nacionais; por outro lado a imagem do Brasil no exterior está marcada pela contribuição cultural de africanos e seus descendentes, figurados em corpos perfeitos, restituidores de um esplendor físico e de um vigor sexual que o mundo civilizado branco recusa, mas corteja e denota como natureza de uma alteridade negra racializada e exotizada dentro e fora do país. De fato, o que parece contraditório, isto é, a invisibilidade social do negro na cultura, nas artes, nas instâncias de poder político e econômico, não o é se recuperamos o processo da integração do negro na sociedade brasileira.

O Brasil foi o último país na América a abolir o regime escravocrata. Abolida a escravidão há mais de cem anos, permanece um plano de referência, uma idéia do negro que, ao orientar representações, transforma-o em um estereótipo, um fetiche, um organismo físico cuja construção histórica e social longe do que efetivamente este organismo é ou pode ser, o reitera como uma projeção desumanizada do branco. Tais representações se manifestam não somente em construções simbólicas e/ou discursivas, em papéis e categorias sexuais, mas também na conformação do corpo negro, na interpretação de seus hábitos de postura e de seus movimentos. Além disso, tais representações evidenciam, ao contrário do que pensam autores como Livio Sansone (1999), contextos no Brasil onde raça e etnicidade são polarizadas. Evidenciam também contextos onde um ódio racial, muitas vezes sublimado na vida pública e particular nacionais, é o outro lado de um desamor agora explicitado e normatizado.

Os criadores e veiculadores destas representações, de fato, atualizam uma agenda político-cultural universalista que recusa qualquer idéia de raça, que desconfia de qualquer interpretação racialmente orientada do contexto nacional, mas problematiza insuficientemente o background etno-racial ou insiderism sócio-biológico de seus agentes. Enfim, a dificuldade destes agentes e pensadores sociais no Brasil em reconhecer o que normatizam está determinada pelo fato de que, entre iguais ou entre aqueles que se fazem iguais pela correspondência de um quadro de pensamento e de uma agenda político-cultural, a ausência de um contingente negro correspondente ao existente na população brasileira e do negro não apenas como objeto, mas como sujeito da representação da condição negro-africana no Brasil é um contraponto desconhecido.


Torna-se compreensível, então, que no país em que os negros são quase metade da população, destine-se para os mesmos a produção de folclore ou de uma “cultura popular” onde devem cantar e dançar “samba”, jogar futebol ou caricaturar o feminino negro. Em contrapartida, manifestações culturais, festas, tradições religiosas, musicais e dramatúrgicas desqualificadas, muitas vezes perseguidas pela polícia, não só têm esboçado uma redefinição da condição negra, mas têm até mesmo proposto um outro pacto de nacionalidade desde um não-lugar social onde africanos exilados, ex-escravos, e negros libertos com a abolição, a rigor, nunca receberam o status de estrangeiros assim como não foram plenamente incorporados como brasileiros. Um não-lugar que nos revela que o Brasil para os negros, rigorosamente, nunca existiu. A nação que se lhes tornou possível tem sido um espaço supraterritorial, virtual e mítico.

O lar, a vida social tem sido a rua ou pequenos interstícios socioculturais e místicos forjados pela memória dos africanos e descendentes. Na rua, nestes pequenos interstícios, os negros quase sempre estão a cantar, tocar e dançar, manifestando muito mais do que um saber inconsciente, sobrevivências do passado ou folclore. Ao cantar, tocar e dançar forjam supraterritórios negros, como faziam os ancestrais africanos escravizados, falam de si mesmos, do meio social em que estão inseridos, reinventam suas histórias, mitos, ampliam autoconsciência. Põem em jogo a afirmação de conteúdos identitários diacríticos, a disputa pelo controle de signos atraentes para os propagadores da ideologia da “nação morena” e para o mercado da cultura e da arte.

Neste sentido, me parecem exemplares a coreografia “Parabelo”, do Grupo Corpo, que assisti em vídeo, e as coreografias do corpo negro que vi muitas vezes em espaços onde se toca, canta e dança o pagode baiano. Em “Parabelo”, reconheço uma musicalidade familiar, movimentos de corpo também familiares. Por outro lado, compreendo que falta a esta coreografia intencionalidade dramática. A concepção plástica de “Parabelo” é visualmente atraente, porém, idílica, não interroga o espectador, não perscruta o corpo e a cultura negros figurados. Vejo menos uma interdependência entre música e dança, tão característica nas manifestações culturais negras, e mais uma reapresentação no espaço cênico de movimentos negros familiares. Ou então comentários sobre danças negras, desconsiderando a tensão dos vazios criados pela irregularidade expressiva de um corpo “popular”, negro, exotizado e racializado.

No pagode baiano vejo uma paradoxal ideologia do erótico que, por um lado, elogia a busca pelo prazer sexual, a construção do desejo para além do que é visto como pecado e luxúria. Por outro lado, porém, atrelada a estruturas de poder da raça, do gênero e da sexualidade, não institui uma alternativa à ordem racial e sexual legitimada nem é um universo onde se transgride todas as proibições. Reencontramos no pagode baiano categorias sexuais que remetem ao estereótipo da negra boa de cama, sempre acessível ao homem branco, assim como do “negão” portador de misteriosa e violenta potência sexual, pai ausente e reprodutor de outros “neguinhos” e “neguinhas” repositores desta mesma ideologia opressiva.

Enfim, acredito que ainda está por vir a oportunidade em que a representação de práticas corporais tomem o negro e a cultura negro-africana no Brasil considerando o agenciamento de memória, as fantasias, as reconstruções de narrativas e mitos dispostos em várias tradições afro-descendentes no país. Deste modo, o negro aparecerá menos estranho, menos literal, mais complexo e tensionado, a cultura negro-africana se mostrará como ela é: viva, policiada, mas em trânsito."

(Práticas corporais e afro-descendência no Brasil:  o não-lugar do negro no Brasil - Ari Lima, doutor em antropologia social pela UnB e professor da Faculdade de Tecnologia e Ciências em Salvador)

Revista Afirma - on line (www.criola.ong.org.br)

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Que raça é essa?

Quarta-feira, 23.11.05

Bangüê, Samba de Cacete, Bambaê. Palavras sonoras, como o batuque que embala e aquece esses ritmos. Melodiosas como o cortejo do Bambaê. Harmoniosas como o som das ladainhas dos pretos. Manifestações resistentes ao “embranquecimento” da civilização eurocentrica que ainda alimenta a vergonha que os brasileiros têm da sua negritude. Compõem os maiores retalhos da colcha de retalhos da nossa formação.

Quando eu nascer de novo, que São Benedito me apadrinhe, e me pinte de negro, cor da formosura.

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Adelina Braglia às 19:32

Itapocú.

Quarta-feira, 23.11.05

III Jogos Quilombolas 116.jpg

Ópera cabocla - A história de Maria Felipa Aranha e do quilombo de Itapocú - Município de Cametá - Pará - Brasil

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Adelina Braglia às 19:20

Banguê.

Quarta-feira, 23.11.05

III Jogos Quilombolas 089.jpg

Banguê - Comunidade Quilombola de São José - Município de Óbidos - Pará - Brasil.

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Adelina Braglia às 19:15

Nossos velhos, nossa memória.

Quarta-feira, 23.11.05

III Jogos Quilombolas 062.jpg

Mestre Procópio - Bambaê do Rosário

Mestre Leopoldo e Mestre Raimundo Baía, Samba de cacete de Joaba e Igarapé Preto.

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Adelina Braglia às 19:12

Tambor de criola.

Quarta-feira, 23.11.05

III Jogos Quilombolas 097.jpg


Tambor de criola. Comunidade Quilombola de Camiranga - Município de Cachoeira do Piriá - Pará = Brasil

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Adelina Braglia às 19:06

Samba de cacete.

Quarta-feira, 23.11.05

III Jogos Quilombolas 112.jpg

Samba de cacete - Comunidade Quilombola de Umarizal - Município de Baião - Pará - Brasil

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Adelina Braglia às 19:02

Conhecer.

Sábado, 19.11.05
é daqui mesmo que eu te conheço?


ah,não?


então de que outro lugar será


que eu não te conheço?


se eu fosse místico


talvez redecifrasse a tua face


de alguma encarnação imemorial


(ou desde o princípio dos tempos,


antes que os deuses desinventassem


os carnavais do caos);


mesmo não sendo místico diria


desse pequeno prenúncio de apocalipse:


agora sim compreendo a música das esferas,


os teoremas de Arquimedes de Siracusa,


a mecânica celeste e todos os demais


mistérios do reino desse mundo:


só quero conhecer-te ainda nesta encarnação:


antes que a minha alma improvável


se arremesse na província do nada,


o rendez-vous dos seres sem amor


(À flor da fala – Geraldo Carneiro)

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Adelina Braglia às 00:13

Dancemos no mundo (*)

Sexta-feira, 18.11.05

Hoje eu acordei com gana de virar o mundo no avesso e procurar nos seus bolsos um pouco de paciência para suportar mais alguns anos a estupidez, a mesquinharia e a política rastaquera desse meu país. Está certo que eu ando voltada pro meu umbigo e, por isso mesmo, ando fazendo de conta que não leio jornais e que não ouço noticiários, mas o tempo todo uma musiquinha de fundo na minha cabeça lembra que o maior prejuízo que este governo nos causou é impagável, ainda que se devolva o dinheiro público.

A fantasia criada pelo PT em todos os seus anos de existência foi que a chegada ao poder era condição única e suficiente - ou vice-versa! - pra fazer a revolução e que tudo era só uma questão de “vontade política”. Criou, alimentou, estimulou, enquanto oposição, a expectativa de soluções imediatas – quase mágicas – que nem mesmo uma revolução responderia. O que dizer, então, de uma eleição, nessa frágil democracia, tendo em vista a história que nos forjou.

Assim, eu também faço, enquanto escrevo, a reflexão necessária pra não me deixar engolfar nessa mesma desesperança. Dane-se o PT, sua infantil doença de arrogar-se ser dono do socialismo, sua negação de princípios e, sorte do mundo: que ele gire em paz, com a minha esperança nos seus bolsos!

(*) Com licença de Sergio Godinho e do Clã.

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Adelina Braglia às 14:55


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