" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

11
Ago 05

me empresta um pouquinho da sua serenidade

pra que eu possa caminhar pelas minhas esquinas

me arranja umas gotas dessa lucidez

pra eu poder olhar de frente meus fantasmas

me manda um imaginário pote dos doces da casa da minha avó

pra tirar esse amargo da boca

e uma flor quase azul - de aniz - do quintal da minha mãe

que eu hoje acordei doendo

e meus olhos querem me afogar

e eu sei qual viagem fazer

mas a minha fantasia pede

que eu navegue por outros mares.

publicado por Adelina Braglia às 07:47

10
Ago 05
A política quando exercitada no seu mais baixo nível é tão previsível que entedia.
Há dias não acompanho mais as denúncias nacionais. A única coisa que elas trouxeram de novo foi o desalento de confirmar que o PT aprimorou práticas velhas e ruins da politicagem que sempre nos acometeu.
Mas, agora pela manhã, passei os olhos nas manchetes dos jornais e o nosso arauto da sacanagem, Marcos Valério – que como outros demonstra enorme talento para colocar-se sempre ao lado do chefe de plantão –anuncia, como se fosse novidade, que repassou dinheiro para campanhas de FHC e do PSDB de Minas Gerais em 1998.
O único fato curioso é ficar tentando deduzir por que o alvo dessa vez foi Minas.
Algumas suposições: Eduardo Azeredo, então candidato a governador naquela eleição, é o atual presidente nacional do PSDB. Outra: atingir Azeredo é dar trabalho a ele, que não vê com bons olhos a crescente liderança de Aécio Neves (atual governador de Minas e do mesmo partido) e sua falsa ameaça de ser o candidato a presidente no ano que vem. Assim enquanto Azeredo se defende, o PT agradece a Aécio o apoio que sempre recebeu na eleição de Lula.
E por aí se pode continuar brincando de supor, enquanto outros dados passam desapercebidos, como por exemplo, o número de desempregados que caiu em relação a 1985, mas a massa salarial que permanece a mesma. Ou seja, mais gente “trabalhando” e quase todos ganhando muito menos.
Se possível, tenham um bom dia.
publicado por Adelina Braglia às 07:50

09
Ago 05

Sinto saudades de você.

Queria contar do barco que cruzou com o nosso hoje ao meio-dia, cheio de crianças que voltavam da escola, parecendo um bando de pipiras quando se coloca o mamão maduro no parapeito da janela.

Queria falar da confluência dos rios que parecem formar um imenso lago onde cabem dois do seu rio, e dos pés de açaí brotando por trás das aningas, organizados em grupos, parecendo um pelotão de palmeiras, pronto pra defender as margens!

Da vida que corre mansa e se encharca com a maré.

Queria que você me ouvisse agora contar da estrada empoeirada por onde eu seguia pra outra reunião. Dos olhos curiosos das pessoas, querendo beber o pouco que sei. Falar do velho negro, cabelos branquinhos, ouvindo atentamente o que eu dizia ao lado de dois filhos que perguntavam a ele o que não entendiam. A autoridade paterna ali funciona e eu não acho que ela seja negativa.

Gostaria de contar do cansaço da volta, mas que é atenuado pela compreensão da importância de gastar boa parte dos meus dias despachando tantos papéis.

Queria repetir coisas que você já me ouviu dizer sobre os caminhos sempre tão parecidos, as pessoas sempre tão abandonadas, o árduo trabalho das mulheres, o envelhecimento precoce dos homens. Mas hoje havia nos olhos de todos eles um quê de infantil, um brilho semelhante aos olhos das crianças quando vêem o homem do algodão-doce. E afirmar que foi isso que eu gravei na memória, pra não deixar o meu desalento sobrepujar esse brilho de esperança.

Gostaria de contar pra você agora que já estou em casa - banho tomado, pés limpos da poeira da estrada - que ainda convivo mal com meus privilégios, pois direitos são privilégios num país de desiguais. Foi privilégio ter podido sobreviver ao primeiro ano de vida, ter pai, mãe e saúde, ter ido à escola, ter emprego e um bom salário, e uma família sadia. Isso é pra dizer pra você que numa noite como hoje eu acredito que faço bom uso desses privilégios.

Mais alguns dias e sei que vou poder falar tudo isso pra você, mas talvez nem seja mais com a emoção de agora. Por isso registro e declaro a saudade e o meu amor por você, embalados como estão num sentimento doce de dever cumprido.

publicado por Adelina Braglia às 21:31

08
Ago 05

Um dia, quando criança, minha mãe inventou de nos dar limonada purgativa. Na verdade, um trem amargo pra caramba, comprado na farmácia, numa garrafinha até simpática. Segundo a mãe, aquilo era milagroso: limpava intestinos, estômago e o que mais houvesse em nossos corpos de criança (meus irmãos e eu). Dizia ela: isso vai purificar o sangue! E nós nem sequer protestávamos, pois que parecia mesmo milagrosa essa coisa de limpeza do sangue!

Lembrei dessa história hoje porque filosofava com a analista sobre os meus conflitos profissionais, por acatar ao longo da vida o que a luta política nos revela e impõe, sempre em nome de uma grande causa, tipo: o fim justifica os meios, o objetivo principal é que tem que ser alcançado, e até mesmo “quem tem boca vai a Roma”, embora o camarada Stalin talvez nunca tenha dito isso!

Essa minha rotineira crise de auto-crítica, é costumeira. Penso que nasceu comigo, desde a infância, quando eu me sentia já tão onipotente que achava que as borboletas morriam porque eu não lhes havia prestado a devida atenção.

Mas, de volta à auto-crítica, embora a prática do centralismo democrático nos tenha acachapado quanto à crítica individual - auto-crítica só vale se for coletiva! - eu, sempre um pouco indisciplinada, fazia a minha, ainda que às vezes me trancasse no banheiro e apenas murmurasse minhas culpas ( ou pecados?). Se bem que isso de trancar-se no banheiro tem mais a ver com os ensinamentos do colégio religioso do que com a formação para a militância.

Por que me veio à cabeça a limonada purgativa? Porque enquanto saia do consultório pensava que devia existir uma limonada purgativa para a alma. Daquelas que minha mãe nos dava e que purificava o sangue. Uma limonada pra purificar a alma – que essa “alma” seja entendida não no sentido religioso, pois que ao longo do tempo perdi a fé e a noção de céu e inferno tornou-se uma barafunda! - e que me permita deitar sem insônia, me certifique que tudo vai dar certo no fim. E que eu me convença, pelo seu poder milagroso, que, se ainda não deu certo, é porque não chegamos ao final!

publicado por Adelina Braglia às 20:23

07
Ago 05

A rosa de ontem era para lembrar a bomba. Mais de meio século. Hoje o dia nasceu claro como sempre neste lado dos trópicos. Muito sol, muita luz. O ontem já pareceu esquecido.

A indisposição de escrever organizadamente me leva a alinhavar inquietações que nada têm a ver com Hiroxima. Ou talvez tenham. Sei que daqui a horas eu também já não vou me lembrar do dia de ontem, dessa funesta "comemoração". Mas, vou me lembrar permanentemente, porque é meu trabalho diário, da reunião de ontem.

Uma reunião numa pequena comunidade negra rural, de remanescentes de quilombos. O mais velho, Luís, 76 anos, inicialmente desconfiado, logo depois conversa animadamente comigo, junto com a mulher e os filhos. Faço meu falatório incial: a escravatura, os mecanismos legais e sociais que o governo e a sociedade brasileira - tanto ao longo dos 352 anos do regime escravocrata "oficial" quanto no período posterior à "libertação" - usam para escamotear o racismo, a desigualdade, a discriminação.

Conto fatos, falo novamente das leis e das regras que não estão nas leis, mas que prevalecem numa sociedade preconceituosa, revivo o que sei do preconceito na sala de aula - e aí os olhos dos jovens se iluminam, pois sei que falo do que viveram lá dentro - e blá, blá, blá.A nova constituição de 1988, o direito inserido nela, etc. e tal. 

Faço sempre isso com enorme prazer, pois vejo que o pouco que eu sei ainda é muito mais do que o que eles sabem. Eles sentem o que falo e quando o sentir começa a se explicar por atos e fatos, aqueles que eles rapidamente percebem como "históricos", faz-se aí uma química chamada consciência. E é essa a minha melhor tarefa.

Explico o direito à titulação das terras por eles ocupadas ancestralmente, digo que esse "direito" não é beneplácito do Estado brasileiro, mas sim fruto de uma intensa luta do movimento negro. Algumas perguntas são feitas. Respondo as que sei e me comprometo de levar até eles, na próxima reunião, a pessoa que poderá esclarecer o que não sei.

Aí, bem mais à vontade começam a me contar o que eu não sei. Já havia me chamado a atenção na estrada que a área está cercada por fazendas. E é exatamente isso que eles começam a contar. Entre as duas comunidades, onde os avós e bisavós andavam livres, pescavam, caçavam, instalou-se uma fazenda, nome dado a um imenso latifúndio sem nem sequer um boi pra disfarçar. A fazenda cortou as terras, os laços, as famílias, a convivência e a liberdade ao meio. E nesse relato, o medo e a desconfiança voltaram a aparecer nos seus olhos.

Perguntando mais um pouco, descubro o óbvio: temem a derrota frente o poder econômico e político dos fazendeiros da área. E eu digo-lhes que se quiserem enfrentar a batalha, terão que discutir muito entre si, avaliar quem vai e quem não vai com eles, garanto que o programa de governo que coordeno dará o apoio legal e institucional para a defesa desse direito. Vão pensar. Vão me avisar assim que tiverem uma decisão.

Na volta, noite já, passo de novo pelas mesmas cercas. Penso na  rememoração do crime da bomba de Hiroxima. E penso que gostaria muito de saber com clareza - o que me aliviaria a angústia - qual a diferença entre crimes que ceifam as vidas brutalmente e de uma só vez e os que ceifam vidas lentamente, século após século.

PS: não, não sou negra. Até já pensei que se deus existisse, um milagre poderia me fazer amanhecer negra. Pois, como diz uma amiga, solidariedade é uma coisa e a dor da cor é outra.

publicado por Adelina Braglia às 08:19

06
Ago 05

Pensem nas crianças mudas,telepáticas,

Pensem nas meninas cegas, inexatas.

Pensem nas mulheres rotas, alteradas.

Pensem nas feridas como rosas cálidas.
</p>Mas so não se esqueça da rosa, da rosa
</p>da rosa de hiroxima, rosa hereditária
</p>a rosa radioativa estúpida e inválida
</p>a rosa com cirrose a anti-rosa pálida
</p>Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada

(Vinícius de Moraes)

publicado por Adelina Braglia às 09:33

O título é do Cazuza. As considerações abaixo, não.

 Aos dezessete anos, decidi fazer um curso de reconhecimento de céu, no Planetário de São Paulo. Se a memória não falha - e como ela tem falhado! - foi um curso de dois meses. Curto, mas suficiente pra aprender a reconhecer as principais constelações e a perceber os lentos mas persistentes movimentos do universo.

Na mesma época, boa aluna que era no curso médio, adorava as aulas de filosofia e, apesar da arrogância típica da juventude, conseguia compreender com clareza o todo e o quase nada. O movimento do infinito e a evolução lenta do pensamento. Os avanços do infinito e os recuos do pensamento.

Aqui onde vivo agora também há um Planetário. Talvez seja um bom momento para fazer novo curso.

publicado por Adelina Braglia às 08:08

05
Ago 05

Eu cultivei os meus sonhos como quem cultiva roseiras.

Vi brotarem os caules, aparei folhas rasteiras.

Cobri a raiz de estrume, cortei os galhos “ladrões",

todo dia reguei os sonhos à espera dos botões.

(O pé não vinga, fiz-lhe as mudas,

construí sua proteção, e esperei o futuro.)

Vem a luta e a ditadura implode as pontes pro sonho.

A gente não desanima: faz atalhos, abre valas,

faz trincheiras, usa bóias, não se afoga!

Alguns dos bons jardineiros, nem sequer sobreviveram,

Recolhi esperanças, velei corpos, - tanto pranto dolorido -

mas espreitei sempre o pé com botões quase floridos.

As mudas se fortaleceram: cai a máscara e eis o futuro!

Mas, de repente, não há rosas.

Há cinismo, frustração, arrogância, engodo e balela.

O jardim vira capoeira.


E agora, da minha janela, converso com o meu cansaço:

não tenho mais sementeiras, não há mais mudas plantadas.

Recolho no meu quintal luvas, ancinhos, rastelos.

Sem raiva, jogo tudo fora.

Não quero ser pós-moderna!

publicado por Adelina Braglia às 08:40

04
Ago 05

Os novos-comissários-da-estrela-vermelha (parodiando Fausto Bordalo Dias, o magnífico cantor maldito português e sua nova-brigada-dos-coronéis-de-lápis-azul) talvez considerem Geir Campos ultrapassado.Mas como ele é atual! Cada vez mais contemporâneo!


Morder o fruto amargo e não cuspir</p>
mas avisar aos outros quanto é amargo,</p>
cumprir o trato injusto e não falhar</p>
mas avisar aos outros quanto é injusto,</p>
sofrer o esquema falso e não ceder</p>
mas avisar aos outros quanto é falso;</p>
dizer também que são coisas mutáveis...</p>
E quando em muitos a noção pulsar</p>
- do amargo e injusto e falso por mudar -</p>
então confiar à gente exausta o plano</p>
de um mundo novo e muito mais humano.</p>
(Tarefa – Geir Campos) </p>
publicado por Adelina Braglia às 08:12

03
Ago 05

Aprendi, e exercito diariamente este aprendizado, que a administração pública é impessoal. Que os agentes públicos são responsáveis pelo único,  senão exclusivo, indicador de produtividade do setor público - a melhoria das condições de vida da população - e para isso têm que ser eficazes, probos e responsáveis pela apuração dos atos danosos ao bem público, sejam dos seus ou daqueles que os antecederam.

Com isso entendo que, independente do comissário de plantão, os governos de todas as esferas não podem fazer negociatas na passagem de comando, ocultando atos e fatos da população, principalmente quando estes atos e fatos envolvem corrupção ou inépcia.

O ex- Chefe da Casa Civil, agora retornado à Cãmara Federal, Deputado José Dirceu, ontem esgrimia na CPI um argumento, enrolado na bandeira do patriotismo e da segurança do país, com o qual pretendeu explicar ou justificar porque o atual governo não apurou as ações  danosas das administrações anteriores (especialmente de Collor e FHC) que resultaram no intenso processo de privatização das estatais.

Quero, como cidadã, eleitora e agente públlico,  implorar que não me protejam mais da verdade. Nenhum governo. Nenhuma partido.

Não é com patriotadas que se explica o que vivemos hoje.

publicado por Adelina Braglia às 19:16

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