" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

20
Ago 05

Não vou voltar sobre os meus pés

e essa decisão me traz tranqüilidade.

Mas vou sempre saber que há tanta vida construída junto

e com tal força,

que só um caminho é justo:

há que cuidar do afeto, que este sim, é fundamental,

há que preservar nosso carinho e esse amor fraterno,

que nos levou por morros e matas e rios por tanto tempo.

Há que ouvir algumas músicas, fundamentais, pra fortalecer nossa memória,

aquelas dos tempos da esperança de um país melhor,

rodando no alto-falante do nosso carro preto,

que lavantava a poeira da estrada

e anunciava, pela voz de Milton,

que os bailes da vida estavam por ser feitos.

Somos capazes de compreender e perdoar,

nessa nossa vasta e generosa amizade,

e sermos, irremediavelmente,

pra sempre,

o que sempre fomos.

publicado por Adelina Braglia às 22:17

19
Ago 05

O release digital NoMínimo divulga hoje entrevista de Franklin Martins que, com William Waack, forma uma respeitável dupla de jornalistas da TV brasileira (www.nominimo.ibest.com.br).

Cobrindo o Congresso há 20 anos, Franklin tem experiência, sensatez e conhecimento para fazer serenas avaliações que eu, sem as três coisas, perco-me diariamente a tentar fazer - não para convencimento de ninguém, apenas pra ordenar minha própria cabeça - e engolfo-me nas minhas mágoas e rancores. Por isso, vale a pena aliviar meus três leitores da minha angústia, transcrevendo o que ele responde sobre os agentes de mudança nesta crise atual:

“... Eu acho que vai ter de se fazer uma certa repactuação no país, com uma participação muito maior da sociedade em matéria de reforma eleitoral e política. Pela dinâmica das instituições, nós não vamos ter a mudança necessária. Vamos ter ajustes, uma pequena melhoria, como acabar com o showmício, diminuir o tempo de campanha, baratear os programas de televisão, melhorar a fidelidade partidária, mas a questão medular é o nosso sistema eleitoral, que só existe aqui e na Finlândia. E tudo que só existe no Brasil e não é jabuticaba não dá certo. Nosso sistema é muito ruim e, por sinal, foi adotado na maioria das democracias ocidentais, mas foi descartado nos anos 70, 80, porque, em todos os países, produziu algo semelhante: fragmentação partidária, número excessivo de partidos, dificuldade para montar maiorias, deputados donos do seu mandato e franco-atiradores, eleitos sem qualquer controle por parte de eleitores. Os países foram vendo e se afastando. No Brasil, demoramos mais 25 anos porque nós tivemos 25 anos de ditadura. Durante o período da ditadura, a nossa experiência com esse ou aquele sistema era nula, não era para valer. Então, estamos nos defrontando agora com o mesmo problema que a maioria das democracias ocidentais enfrentou nas décadas de 70 ou 80."

Também hoje, no www.terra.com.br , César Queiroz Benjamin engatilha sua metralhadora e denuncia que desde 1994 o PT utilizava recursos do FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador, para alavancar o grupo de Lula e José Dirceu – a Articulação – e garantir sua prevalência na direção do Partido. Essas declarações são um bom “abacaxi”, pois César não é Roberto Jefferson ou Marcos Valério. A cooptação pela distribuição de recursos é doença antiga no partido. Mas, neste pomar brasileiro, vale mais uma “palhinha” de Franklin sobre a possibilidade de saídas numa repactuação:

 “Quando se faz uma aliança, se estabelece um grau de debate político com esses setores em torno do governo. O que representam PL, PTB e PP? Nada. Com honrosas exceções, são partidos de negócios. O que o Lula fez na prática? “Eu não vou me aliar porque eu não vou ceder espaço, não vou me submeter aos partidos.” Quis cantar de galo. Optou por um governo do PT. Um governo do PT com os penduricalhos. Deu aí umas prebendas aos partidos, um espaço na máquina que, evidentemente, qualquer pessoa sabia que era uma chance enorme de produzir uma máquina de fazer dinheiro, dado o padrão das pessoas que dominavam o PL, o PTB e o PP. Pra mim, não foi surpresa nenhuma que tenha acontecido isso. Seria uma surpresa se não acontecesse. O Roberto Jefferson controlar o IRB, controlar a Eletronorte... Para mim, seria uma surpresa se não houvesse algum assalto aos cofres públicos. Para mim e para qualquer pessoa que conhece o Congresso. O Valdemar Costa Neto, a mesma coisa. O Janene, a mesma coisa. O que o PT esperava? Que eles melhorassem, mudassem pelo contato?"

 Isso lembra a convivência com o PT no movimento sindical rural, no início dos anos 80, onde o partido não sabia que aliança significa exatamente o debate político e as condições e compromissos para que a aliança se consolidasse e se fortalecesse. O PT gostava de vitória ou rendição, o que para ele eram sinônimos. Quando não conseguia uma ou outra, partia pra fracionar o que não havia dominado. A arrogância da “purificação pelo contato” também já era uma doença genética do partido: os canalhas que a ele se rendessem, viravam santos.

A proliferação de associações de pequenos produtores, cooperativas e outros quejandos, algumas lideradas por conhecidos desonestos, contribuíram para transformar muitos sindicatos rurais em instituições enfraquecidas. Não dá pra esquecer o movimento de esvaziamento da CONTAG, e a orientação dos militantes petistas para que os STRs se filiassem a recém criada CUT. A incompreensão das peculiaridades do movimento sindical rural era terrível. Felizmente a CONTAG sobreviveu a todos nós, embora o espaço privilegiado do MST à margem da Confederação ainda seja uma estratégia questionável.

Hoje já penso que ainda falta muita gente para ser ouvida. Ontem mesmo conversando com uma amiga, lembrávamos de Luiza Erundina e Pedro Simon. Mas há outros, sim, o que já dá pra animar a festa cívica da limpeza desse nosso pomar de jabuticabas e abacaxis.

publicado por Adelina Braglia às 10:11

17
Ago 05

Aprende-se que das crises há sempre que retirar lições positivas.

Quero convencer-me disto, dia após dia, quando leio o jornal ou acompanho o noticiário das TVs. É certo que aprendo nos noticiários coisas novas, como por exemplo, que o PTB tem um “tesoureiro informal”, assim citado e reverenciado pela mídia. Aquele que foi com Marcos Valério a Portugal negociar com a TELECOM um "apoio" sem compromisso de 24 milhões de reais para a campanha eleitoral. E aprendo também que um doleiro metido em trambiques decenais considera-se preso político.

Assim, seja por ironia – característica que desenvolvi recentemente – ou por excesso de zelo, ando muito desconfiada dessa crença de que depois do vendaval vem a bonança. Fica parecendo – e não desejo isso – que depois do vendaval, virá o maremoto!

O que me irrita profundamente – e acho que não perdôo ao PT exatamente isso – é que nessa crise, destacam-se mais as figuras que já deveriam ter merecido descanso. Não, não lhes desejo a morte física. Desejo-lhes a morte histórica.

Como meu desejo não se realiza, revejo ontem e hoje pela manhã ninguém menos que o senador e ex-presidente da República José Sarney, a bradar pela legalidade, pela apuração dos crimes, pela defesa da democracia, desempenhando com louvor seu papel de estadista. Por um instante temi que um truque colocasse ao seu lado o falecido Tancredo Neves, que se juntaria a ele na tribuna do senado, e teríamos então a solução mística pros problemas nacionais!

Dias atrás até o ex-presidente Fernando Collor assanhou-se a sair do limbo, e declarou que por ocasião do seu julgamento teria pensado em suicídio, chegando até a gravar uma mensagem de despedida à nação. Parecia, com essa declaração, querer mostrar ao país o quanto foi injustiçado e o quanto os que vieram depois dele fizeram pior. Ou seja, praticamente clamou pela absolvição face os crimes atuais serem mais “animados” do que os dele! É assim que se faz a nossa história recente: o “menos pior” considera-se inocentado e qualificado pra ser ator do jogo.

Não por acaso, morreu Miguel Arraes. Não, não digo que foi culpa da crise. O velho Arraes estava doente e torço para que a doença o tenha poupado de assistir estes meses de deprimentes patriotadas. Com o "por acaso" quis dizer apenas que entendo como simbólicas as mortes que pouco a pouco – e com a lógica quase sempre natural de morrerem os nossos velhos – vão deixando este país mais pobre e mais órfão, independente das concordâncias ideológicas.

Meus 56 anos de idade pesam muito mais nesses momentos de dúvidas e aflições. Não me arrependo dos anos passados na convicção e na esperança de um Brasil mais justo, mas abato-me vendo os espaços sendo ocupados pelos “estadistas” que conseguimos produzir. Mais do que fatalidade entendo isso como trajetória natural da construção democrática. Mas que dói, dói! Não, não me perguntem quem eu gostaria que estivesse assumindo o cenário nacional. Hoje estou com uma enorme dificuldade em citar meia dúzia de três ou quatro.

(*) sem ofensa aos marimbondos e às cigarras.

publicado por Adelina Braglia às 10:49

16
Ago 05

Dois tópicos agridoces:

 1 – o coletivo

 Assisti ontem a uma rápida entrevista do Senador Aluízio Mercadante. Sereno, ponderado, comentava a crise do PT. Opinou sobre as medidas inadiáveis no âmbito do Partido e do Governo: a necessária punição de todos os culpados, a urgência da reforma política dando transparência aos financiamentos de campanha e a garantia de instrumentos de controle do cidadão sobre as campanhas e sobre os compromissos dos candidatos com setores que eventualmente eles representem.

Gostei do que ouvi, pareceu-me tão claro e lógico o que o senador propôs. Resta saber se assim será. Fica também uma pontinha de dúvida: porque ninguém ouviu o senador antes? Porque o PT renegou o que o consolidou como inovação na política?

Tenho cá uma explicação, genérica demais, é verdade: o PT arrogou-se o direito de transformar a corrupção em fim que justificava os meios. Ou seja: corrupção na mão dos outros era roubo. Nas suas, era missão.

2 – o individual

Tenho a segurança do afeto, da compreensão permanente que recebo,

da tolerância para com as minhas loucuras, com as minhas idas e vindas.

Tudo é tão sólido que quero chamar a isso de amor.

Ouço o que preciso, e não necessariamente o que quero ouvir.

Depois, tranquilamente, concordo que eu não tinha razão.

Durmo e sonho com o que não me lembro,

mas, hoje isso não me angustia.

Acordo e não me sinto mal.

Confundo o efeito do anti-depressivo com esse bem estar de agora,

e questiono se é o comprimido ou o carinho que me faz bem.

Sei com quem dividi meus sonhos coletivos

e com quem divido agora minha aflição.

E tenho certeza de que sempre terei a sua companhia.

E sinto-se bem por não estar só nessa estranha travessia,

da margem da ilusão de outrora para essa nebulosa margem que hoje se apresenta.

E escrevo essas coisas, feito tonta,

e me angustio pra responder se isso é amor.

publicado por Adelina Braglia às 09:26

15
Ago 05

"Alguma coisa e outra, posso até ter tido algum tipo de conhecimento, mas não fiquei sabendo de tudo", teria afirmado a pessoas próximas durante sua curta estadia na capital pernambucana, segundo o jornal O Estado de S.Paulo. (www.terra.com.br, 15.08.2005). Essa é a declaração do ex-Chefe da Casa Civil, José Dirceu, ao chegar a Recife para o velório do velho Arraes.

Bem que tentei, mas não consegui ficar quieta, apenas olhando esta frase e tentar curtir a chance de ficar de férias uma semana, lambendo a cria mais nova, revendo irmão e amigos.

Arrogância minha achar que minha opinião tem alguma importância, eu sei, mas acho que o faço mais por desabafo, do que por supor sinceramente que o que quer que eu pense, diga ou faça altera este quadro.

Lembro do ex-ministro quando lider estudantil da UEE em São Paulo. Nunca fui da sua turma. Minha turma era a do Travassos e o Zé Dirceu, como era conhecido, ganhara as eleições na UEE menos pelo conteúdo e mais pelo carisma do discurso inflamado e pelo charme entre as mocinhas.

Segui de longe sua rápida ascenção e nunca entendi muito bem quando ele saiu como um dos nomes na lista dos presos políticos trocado pelo embaixador. Naquele momento em nossas cadeias havia gente muito mais importante pra luta do que ele, embora esse seja um raciocínio condenável, pois ninguém deveria estar preso, nem ele.

Sua volta após a anistia já foi na condição de comissário petista e seus mandatos foram legítimos. Não discuto isso. Mas, essa frase me faz um mal enorme. Vem ao encontro da minha desconfiança quase absoluta, desde que esta tramóia veio a público, de que ele falava a verdade, pois era impossível imaginar que o poderoso chefe nada sabia. Mas, como quem acreditou em papai noel até os 10 anos de idade, ainda imaginava uma saída decente e mais honesta pra trampolinagem.

E agora vem essa frase! Não, não mereço. Não merecemos. Sabia "alguma coisa"? Vai mentir outra vez a conta gôtas enquanto se prepara algum cenário também mentiroso pra encontrar saídas?

Ai, que saudades do Travassos! Vontade de voltar a roda do tempo e resgatá-lo e abraçá-lo e ter certeza de que quando jovem, eu era muito melhor!

publicado por Adelina Braglia às 09:53

13
Ago 05

Porque hoje é sábado, como escreveu Vinícius de Moraes, roubo-lhe o verso para o meu título e copio um excerto do seu poema Pátria minha, transcrito abaixo, pra fazer as pazes com a minha pátria e sair de férias uma semana.

Abraços.

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

publicado por Adelina Braglia às 09:06

12
Ago 05
A chuva forte lava a cidade.
Típica chuva de verão.
As ruas, depois da chuva,
estão inundadas.
Penso no velho dito espanhol:
“Hay gobierno? Soy contra!”
publicado por Adelina Braglia às 20:16

abaete.jpg



Às margens plácidas desse rio vivem homens honestos. Se não todos, a maioria. Eu os conheço. E são muitos. Colhem o açaí, lutam diariamente pela sobrevivência. Organizam-se, produzem e avançam na sua representatividade junto ao coletivo. Os diretores da associação são eleitos, cumprem um estatuto e hoje já discutem um regimento para gestão do seu território.Pode ser que alguns já tenham ouvido o pedido de desculpas do Presidente Lula hoje, justificando seu sentimento de ter sido traído, condenando as práticas desonestas e afirmando que se dependesse dele, já teria punido os culpados.

Pergunto-me se os quilombolas acreditaram. Eu não consigo mais acreditar. Consolo-me, em parte, com o meu descrédito, pensando que se tivéssemos um presidente tão ingênuo, incapaz de enxergar, supor ou deduzir e saber como foram pagas as contas de campanha do seu partido, talvez nossa situação fosse ainda pior. Tanta ingenuidade talvez nos tivesse levado ao olho do furacão mais cedo.

Cercado de pulhas, de "pais da pátria”, "honestos" e comovidos depoentes, choros e ranger de dentes dos seus apoiadores, um partido esfrangalhado e uma base parlamentar de adversários que riem à socapa das trampolinagens agora expostas, quem sabe o presidente não gostaria de estar por aqui, olhando os açaizais e conversando com esses brasileiros honestos que sabem com clareza como combater e punir os mal feitos de seus companheiros, com o relativo poder que têm.

Fica o convite.

publicado por Adelina Braglia às 15:24

Ontem resolvi assistir o telejornal da noite. Show completo: numa sala, Marcos Valério, na outra Duda Mendonça. Ditos e desmentidos ao mesmo tempo. Versões diversas sobre um mesmo fato/dinheiro.
Os flashs da edição eram rápidos mas percebia-se que Marcos Valério abateu-se nesse período. Duda Mendonça continuava com um ar de publicitário bem sucedido.
Duda Mendonça chorou. Lembrou a mulher, a irmã e os filhos. Comovido declarou que em respeito a eles - família e amigos - estava ali espontaneamente pra dizer a verdade. E, parece que disse. Pelo menos a que lhe convinha.
Quanto à espontaneidade do seu gesto, só ocorreu após a CPI chegar na sua ilharga. Afinal estamos há dois meses nesse fogo cruzado intenso e o seu patriótico ato só ocorreu ontem. Ou seja, antes que me peguem, pego-os eu!
O choro é que é interessante. Dizem que somos um povo sentimental, herança do nosso tri-avô português. Denise Frossard, respeitável parlamentar do Rio de Janeiro, membro da CPI, comoveu-se com o choro. Elogiou o depoimento de Duda. A câmara não estava pertinho, mas parecia que ela falava com lágrimas nos olhos.
E tudo isso me leva a pensar que eu, que me comovo com um poema ou uma música, devo estar "perdendo a ternura". Duda não me comoveu. Deu-me náuseas.


publicado por Adelina Braglia às 07:54

11
Ago 05

Não ligo se o escritor

É leviano ou denso,

Nem me importa se o livro

É diminuto ou imenso.

Eu gosto é de escritor

Que pensa o mesmo que eu penso...

(Millôr Fernandes)

publicado por Adelina Braglia às 17:14

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