" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

18
Jun 07

 

Faz algum tempo que já não sei responder  perguntas cujas respostas sabia na ponta da língua, no tempo em que eu me acreditava protagonista da história. Por esta lógica, assumi que sou uma coadjuvante que sequer decorou seu papel terciário, que esqueceu o texto e, quase sem exceções, considera os atores principais um bando de canastrões.
 
Ainda assim, do banco do meu ônibus – aliás, se fosse meu seria menos barulhento, sem aquele motor de caminhão madeireiro disfarçado sob uma carroceria – olho as pessoas que sobem e descem, sentam, levantam. São jovens, crianças, adultos e velhos. Velhos, sim, porque para ser politicamente correta e chama-los de “idosos” penso que a política deveria estar sendo correta para os que têm mais de 60 anos.
 
Velhos porque carcomidos pelas rugas, pelo sol, pela doença, pela falta de dinheiro, de perspectivas e de assentos no ônibus, porque todo mundo senta nos bancos “preferencialmente” reservados para eles e ainda disfarçam, olhando pela janelinha! E lembro da minha madrinha que dizia que devemos ter bons modos. Mas, em seguida lembro da Adriana Calcanhoto cantando ...” eu não gosto de bom senso..” e , touché, esqueço porque comecei a pensar nisto.
 
Mas,  acho melhor refazer a frase inicial. Eu ainda sei as minhas respostas, mas me inibo porque parece que elas não são adequadas às circunstâncias em que as perguntas são feitas! Ou seja, minhas respostas soam, no geral, esdrúxulas, extemporâneas.
Outro problema é que ultimamente, tangencio conversas escondendo minha sincera opinião, pois ao declará-la, temo ser alvo de linchamento!
 
Exemplo: vó, o que é favela?
 
E, se eu não pensar rapidamente que Bia ainda vai fazer 6 anos, sinto-me na obrigação de explicar que favela não é a ONU dos traficantes, etc. e tal. Que ali moram pessoas como ela e eu, que a favela não é composta por bandidos, assassinos e seqüestradores e daí, quando percebo isto tudo, não sei responder, porque me apavora dar a ela uma resposta  extensa demais que a faça perder o interesse ou uma resposta tão enxuta que, frente ao noticiário tão completo da Globo ela continue imaginando que a favela é o lugar onde se realiza o conclave das bruxas!
 
Outro exemplo?
 
Numa conversa que parecia ser sobre fidelidade e amor, fui derrotada por três a um, porque considerei uma hipocrisia o comparecimento da mulher do Renan Calheiros à audiência no senado. Ou melhor, achei a presença daquela mulher um escárnio, parecendo querer nos comover com a sua falsa grandeza, como a dizer que se ela, que era a traída,  perdoava o traidor, todos nós deveríamos fazer o mesmo, sugerindo que ali, no senado nacional, discutia-se uma questãozinha de alcova e não de corrupção do segundo mandatário do país.
Com isto,  meus interlocutores, que insistiam que aquilo era um gesto de amor e perdão, me olharam com a fúria com que os apedrejadores de Maria Madalena devem ter olhado para ela.
 
Resumindo: se antes me sentia aziaga, agora me sinto uma mulher de Plutão.
 
Isso, aquele planeta que, subitamente, perdeu sua condição no zodíaco!
 
publicado por Adelina Braglia às 18:02

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