" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

04
Jun 07

 

O assunto esteve na mídia semana passada e como discordo veementemente de "coincidências", transcrevo meu comentário, publicado no AFROPRESS desta semana.
Axé!!!
 
 
 
"Europa, minha avozinha!
 
Depois dos cinquenta anos – e quase chegando aos sessenta – não se acredita mais em coincidências. Assim, é quase um insulto a sucessão de matérias veiculadas esta semana pela Rede Globo sobre a “farsa dos quilombos”, ao mesmo tempo em que o Estadão divulga em seu site a pesquisa financiada pela BBC sobre raça, DNA, identidade, utilizando figuras públicas como Seu Jorge, Daine dos Santos e outros, para “provar” que geneticamente, são mais europeus do que africanos.
 
Por partes, como Jack: as matérias da Globo questionam que as comunidades estão sendo reconhecidas sem que “documentos” históricos comprovem sua origem africana. No outro pedaço,  a “coincidência” com a pesquisa que sugere que não há negros “puros” no Brasil.
 
Se o assunto não fosse sério, seria o caso de perguntar à Globo se ela já localizou algum quilombo japonês, escandinavo ou de remanescentes dos aborígines australianos. Mas, como o assunto é sério e a abordagem é insultuosa, seria o caso de perguntar apenas se a emissora preocupou-se em verificar o que diz a legislação, aliás, pergunta idêntica a que deve ser feita ao Presidente do INCRA, que na resposta a uma entrevista insinua que a instituição também está preocupada com farsas e que está exigindo comprovação de veracidade da condição quilombola.
 
A lei é clara quando garante às comunidades o direito à autoidentificação e o ônus da contestação não é do Estado brasileiro. Além disto, ao ratificar em 2004 a Convenção 169 o Brasil assumiu como lei este direito dos povos de declararem sua condição étnica.
É curioso que para discriminar sempre bastou a cor da pele ou a “suspeita” de traços genéticos, quando a cor da pele não era suficiente para apontar a origem.
 
Precursor no reconhecimento da auto-identificação como direito, o estado do Pará já emitiu 23 títulos para 70 comunidades, totalizando cerca de 450 mil hectares de terras de quilombos e jamais houve uma única contestação da condição quilombola, mesmo em áreas onde o estudo antropológico não foi executado.
 
É fundamental contestarmos  imediatamente a “onda eurocêntrica”. E que os protagonistas e os apoiadores desta causa venham para o meio da sala, para não dançarmos. E que Seu Jorge cante e dance, que Daiane salte, ambos chacoalhando essa mistura de sangue, mas tendo a clareza do conceito de raça, contestado hoje cientificamente, mas que é o mesmo que fortaleceu a cidadania de segunda classe à qual os negros foram confinados."
 
Atualizado hoje, 06/05/2007, às 06:30 hs:
 
SOB A MALDIÇÃO DOS SIGNOS DA GENÉTICA
Fátima Oliveira
 
Jamais a biologia avalizou raça
como categoria biológica, cuja origem histórica e política foram mentes racistas.


Concordo com Maria Adelina Braglia que disse, em Europa, minha avozinha!, que é quase um insulto a sucessão de matérias veiculadas nos últimos dias pela TV Globo sobre supostas "farsas dos quilombos" e as distorcidas análises políticas da pesquisa patrocinada pela BBC, base do Especial Raízes afro-brasileiras, com o perfil genético de nove personalidades negras evidenciando que geneticamente são mais européias que africanas.
No site da BBC há um Fórum ("Você acha que o conceito de raça ainda faz sentido no Brasil?") que silencia sobre o "estupro colonial", base maior das trocas genéticas que nos legaram a mestiçagem – contexto no qual assumir a identidade racial negra é um posicionamento político corajoso – que não ousa dizer que raça não é, e jamais foi, uma categoria biológica. O mesmo vale para uma revista de notória gente "unha e carne" com o apartheid que vigorou na África do Sul, ao grafar na capa: "Raça não existe!" Demooorou…
Vocifera: o conceito de raça é um "disparate científico". Disparate é pouco. É uma mentira racista. E, agora José? Mas não fez o "mea culpa". Jamais a biologia avalizou raça como categoria biológica, cuja origem histórica e política foram mentes racistas. As vítimas não inventaram o "racismo científico" – excrescência que macula a humanidade e reaparece no Brasil hodierno com nova face. Querem nos impingir tal pecha. É infâmia demais!
Estudos da genética molecular, sob o concurso da genômica, são categóricos: a espécie humana é uma só e a diversidade de fenótipos e o fato de que cada genótipo é único são normas da natureza. Tendo o DNA como material hereditário e o gene como unidade de análise, é impossível definir quem é geneticamente negro, branco ou amarelo. O genótipo sempre propõe diferentes possibilidades de fenótipos. O que herdamos são genes, e não caracteres! Fato que não autoriza ninguém a dizer que o racismo não existe, pois a opressão racial/étnica é uma realidade que independe dos saberes da genética molecular.
Todavia o mimetismo do racismo é exuberante. No picadeiro, não parece, atende pelo nome de "racismo científico". O pano de fundo de tão racista "interesse" dos pauteiros tem endereço certo: as cotas raciais/étnicas e o Estatuto da Igualdade Racial, eleitos pelos "caras-pálidas" como "leis temerárias" de "alto potencial explosivo": "monstruosidades jurídicas que atropelam a Constituição – ao tratar negros e brancos de forma desigual – e oficializam o racismo". E arrematam: tais leis são institucionalizadoras do "cisma racial" (Ai, meus sais!); e se elas vigorarem "Será como apagar fogo com gasolina". Ah, há fogo?
E despudoradamente invocam o mérito! Qual mérito? Esquecem-se do mérito que é ter construído um país no lombo. Não foi? Ora, me compre um bode! Além do que mérito é um conceito cultural, arbitrário e mutável, segundo as circunstâncias. Essa gente sabe usar bem ao seu favor seus degenerados neurônios para nos desviar da rota anti-racista. Toquemos nossa agenda de luta por políticas públicas de Estado consistentes e condizentes com a necessidade que nos impõe o combate ao racismo. E que os "contra" se danem. É o quê manda a justa indignação política. Mas está em curso uma luta ideológica.
Em tal raia me bastam as palavras dos autores da "nova" pesquisa BBC: "a informação genética sobre a estrutura da população brasileira deve ser considerada apenas como subsídio para o processo de tomada de decisões. Não compete à genética fazer prescrições sociais. A definição sobre quem deve se beneficiar das cotas universitárias e das ações afirmativas no Brasil deverá ser resolvida na esfera política, levando em conta a história do país, o sofrimento de seus vários segmentos e análises de custos e benefícios". (Pode a genética definir quem deve se beneficiar das cotas universitárias e demais ações afirmativas? Pena & Bortoloni. 2004). Bortoloni, eu não a conheço.
Mas o geneticista Sérgio Danilo Pena é uma glória da ciência brasileira. Ele é todo cintilância, pura purpurina, ao abordar as bases teóricas da ciência da qual é um especialista de renome mundial. Mas ao se mimetizar de analista e/o ativista político pisoteia em seu charmoso "black-tie" e renega os saberes do seu objeto de estudo: os genes. Por que será?
 
 
 
publicado por Adelina Braglia às 09:41

Caramba amiga...homenagem pra tudo quanto é lado...tô gostando...e muito.
Você merece...
Aproveite vá na minha casa que sendo reconstruída e deixe um comentário, bem inspirado, sobre "saudades matadeiras".

Beijos.
Cris a 4 de Junho de 2007 às 12:57

Cris, querida: entrei no blog - branco, branquinho - li, mas não consegui que ele aceitasse meu omentário!

Beijão

Estranho isso, não é amiga?
Mas vê-se a que intereses serve.
Bjs e bom dia!

Juca querido: o artigo da Fátima Oliveira, que transcrevi depois, explicita parte das razões.
Beijão.

Cara Adelina, cara Fatima,

Gostei muito de vossos artigos. Eles massageam minha alma.

Por favor, nao deixem de escrever.

Beijos

Cesar
cesar teixeira a 14 de Setembro de 2009 às 15:48

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