" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

21
Abr 07

 

Nunca fui uma mulher notívaga.

 

Já fui uma jovem mulher que gostava da noite,

como se o descanso ou o prazer ou o lazer se originassem  da ausência do sol.

 

Hoje não. Tenho sono mais cedo do que terminam os shows,

não consigo conversar e ouvir uma música alta

que me impede de entender o que dizem ao meu lado.

E mesmo se há silêncio em volta e a conversa vai muito boa,

bocejo depois da meia-noite.

 

Na verdade,  o foco da minha esperança mudou para o amanhecer.

 

Se o dia anterior sugou minha energia,

aniquilou minha vontade,

escondeu meu desejo - aquele que nunca sei qual é! - debaixo do tapete,

o amanhecer começa sempre com o nível da bateria perto do normal,

com a vontade abanando o rabo pra dizer que está ali,

e o desejo indefinido fazendo um ruído insistente embaixo do tapete,

para que eu me aperceba dele também.

 

Mesmo nos dias chuvosos, que felizmente começam a rarear,

acordar é para mim um ato de renascer,

de sacudir a cabeça - literalmente -

e espirrar a melancolia pra fora do corpo.

 

E  de olhar o jornal e de novo me irritar com tanta hipocrisia

nas propostas que reinventam a roda, mas a fazem quadrada,

e saber que enquanto ela dá solavancos até reaqdquirir a forma arredondada,

há mais sofrimento e mais dor para os que não são "cidadãos de primeira classe",

os cerca de 70% do povo brasileiro.

 

E enquanto o café escorre do coador para o bule

 - eita palavra antiga! - me encho de energia

e concluo que  a cafeína merece estudos complementares

e acredito em mim, e na humanidade

e no meu amor.

 

E retiro, todas as manhãs, o tapete de cima do indefinido desejo,

para que ele respire.

 

 

 

 

publicado por Adelina Braglia às 08:03

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