" A implantação da indústria açucareira no Brasil, baseada no latifúndio, no trabalho escravo e na monocultura da cana de açúcar para exportação, data do período colonial e foi sempre apoiada pelos governos nacionais. Essa política, do Estado como financiador e organizador dos lucros dos usineiros, principalmente com a política do perdão das dividas, se mantém até hoje.
(...)
Os usineiros sempre pegaram dinheiro dos bancos estatais e do orçamento da união e nunca pagaram suas dividas, que são sempre renegociadas a cada safra. Só em Pernambuco, os usineiros devem ao INSS mais de 562.641.612,54 bilhões de reais. Isso sem contar os empréstimos a bancos estatais não pagos e dívidas de outros impostos (...)"
(Alexandre Conceição - Brasil: de devedores a heróis)
foste, no mundo, mineiro
e cortaste cana demais.
e teu corpo,
forte árvore morena,
resolveram chamar pela brasileira e estranha alcunha: José.
José,
amaste três damas?
quiseste uma valsa?
creste em deus?
pactuaste com o cão?
fizeste um samba?
mataste um patrão?
perdão, José: sou grosso, ignorante. por isso, pergunto.
sinto tua falta, como sinto de um irmão.
sinto tua falta.
sei que não sabes disso.
mas quero repetir-te:
sinto tua falta.
sei que não me escutas.
sinto tua falta
como sentirias, talvez, a falta de um poema
em que teu nome batia, tão comum como a cana que cai
levando consigo o trivial peso do universo.
hoje, José, onde estás? será que poderias ouvi-lo?
sei que não.
estás longe, José, e não entendias de estrofes.
e (não é curioso?) a tanta cana que cortaste
arde-me os dedos, pesa-me os olhos, perfura-me os rins.
que fazer por esse José que já não pode mais?
nem mais podes, José, ouvir "e agora?"
(...)
(Alexandre Pilati - O mundo está coberto de cana)
poema feito em homenagem a José Mario Alves Gomes, cortador de cana da Usina Santa Helena, em São Paulo, que morreu em 21 de outubro de 2005, após cortar 25 toneladas de cana.