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Dona Rosita navegou no rio Pará.

Terça-feira, 03.04.07

 

 

Estar muito cansada não é privilégio ou castigo.

É apenas o resultado das minhas opções e das minhas circunstancias.

 

Apesar disto, olho as pessoas nos olhos, especialmente os mais jovens.

Tento decifrar seus códigos explícitos e implícitos no olhar ansioso.

O erro é pensar a vida deles a partir dos meus parâmetros

e aí, quase enlouqueço.

Discuto a desnaturalidade da pobreza

e afirmo para a amiga, quase arrogantemente,

que entre ter a cabana e o pão por escolha

e tê-los unicamente como sina,

vai uma diferença muito grande.

 

 

O rio Pará faz um espelho d’água e, em outros tempos,

eu adoraria me ver refletida nele.

Agora, não quero ver meu reflexo.

 

Mas, neste final de semana assisti um espetáculo teatral.

Em Curralinho, Ilha do Marajó, 

onde a ditadura das águas não tem contestação.

Dona Rosita, a solteira, de Garcia Lorca,

na tradução de Drummond.

Minha companheira é a professora de teatro,

os professores e alunos da escola pública local

estão transformados em atores entusiasmados.

O cenário cheio de flores de papel crepom por eles preparado,

e mais de cem crianças e adolescentes na platéia.

 

Meu rosto não tem mais leveza,

meu coração dói quase sempre

e minha esperança afundou de tal forma

que nem mesmo um mariscador experiente vai conseguir resgata-la.

Porém, percebi ali que, na verdade,

eu e a minha esperança é que andamos muito mofinas.

Os jovens, estes não.

Superam com risos soltos e olhos atentos a sua adversidade.

 

O rio Pará forma um imenso espelho d’água

e em outros tempos eu adoraria me ver refletida nele.

Como fazia no Tocantins, quando achava que meu rosto ali refletido

era a possibilidade imediata de mudar o mundo.

 

Mas hoje, na madrugada, as águas do rio Pará pareceram menos turvas.

E quase cheguei a ver Dona Rosita a bailar

com sua sombrinha e seu chapéu florido.

E me convenci que não sou protagonista da história.

Os protagonistas são os que estão vivos.

E, se quero ao menos ficar na platéia,

que trate de encontrar rápido

um bom mariscador!

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Adelina Braglia às 14:35

9 comentários

De Cris Moreno a 03.04.2007 às 20:45

se divise
Um pouco da eternidade. - Mas os vivos
Cometem todos o erro de muito profundamente distinguir.
Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes
Se caminham entre vivos ou mortos. A correnteza eterna
Arrebata através de ambos os reinos todas as idades
Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos.

Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo,
Perde-se docemente o hábito do que é terrestre, como o /seio materno
suavemente se deixa, ao crescer.Mas nós que de tão grandes
mistérios precisamos, para quem do luto tantas vezes
o abençoado progresso se origina - : poderíamos passar /sem eles?
É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos,
A primeira música ousando atravessou o árido letargo,
Que então no sobressaltado espaço, do qual um quase /divino adolescente
escapou de súbito e para sempre, o vazio entrou
naquela vibração que agora nos arrebata e consola e ajuda?

....................
Traduções do poeta paraense Paulo Plínio Abreu
publicadas no jornal "Folha do Norte" entre os anos
de 1946 e 1948, realizadas em parceria com o
antropólogo alemão Peter Paul Hilbert

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