" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

02
Dez 06

 

Nesta tarde de sábado percebo que sou o que me pertence.

São minhas “propriedades”: um computador,

as quatro caixas com livros e CDs que estão aqui na minha frente.

As oito caixas fechadas no andar de baixo,

resultado de outra mudança, e que não tive vontade de abrir.

Mas o que está guardado lá é meu.

Nas gavetas da mesa, uma máquina fotográfica funcionando e duas com defeito.

São meus os álbuns de fotografias dos filhos quando crianças

e outros com fotos minhas, dos amigos, dos irmãos.

E dois da Beatriz, quando bebê.

Tenho guardados dois panôs bonitos, mas nunca os pendurei na parede.

Tenho um matapi e duas maracas.

Duas caixas com objetos que guardei e que não sei mais o que me lembram!

Mas que não jogo fora, porque um dia, quem sabe,

eu me lembrarei do que esqueci.

E aí talvez faça sentido ter guardado por anos a fio,

uma delicada caixinha florida com um único brinco dentro, sem o seu par.

Além disso, o que é meu são duas gatas,

 - ao menos penso que são minhas –

pois o aquário, acabo de dar à neta,

minhas são as roupas nos cabides e nas gavetas,

as  bolsas penduradas nos ganchos

e os sapatos mal ajeitados nas prateleiras do armário do banheiro.

Duas bonecas negras, feitas de pano, e outra, menor,

- que Beatriz mantem como refém – também são minhas.

Assim como duas molduras com fotos bonitas.

As estantes. É nelas que apoio algumas pastas

que tenho enorme preguiça de arrumar.

A mesa de trabalho, e a outra, menor, que apóia a CPU, são minhas.

Afinal preciso de espaço para espalhar a minha desordem!

Ah! Um cesto de lixo em vime. Bonito, ovalado, que comprei não sei onde.

Não “tenho” filhos. São do mundo.

Eles vão e voltam quando querem e precisam.

Só precisam saber que podem sempre voltar.

Não tenho patrimônio algum: casa, carro, sítio ou fazenda.

Não me orgulho disto, mas não me sinto mal por não ter.

O resto é o que cabe na memória e na saudade.

publicado por Adelina Braglia às 19:27

Ah...mas tá lindo esse rol.
Quanta riqueza...parabéns, Bia.
Bjs
juvencio de arruda a 4 de Dezembro de 2006 às 22:48

Muito bom ver você aqui, Juca. Mais do que bom, estou orgulhosa de ver você por aqui. Um beijo.
Adelina Braglia a 5 de Dezembro de 2006 às 10:38

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