" Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos na Terra?" (Garcia Lorca)

27
Nov 06

 

Lembrei dos bordados delicados que minha mãe insistia que eu aprendesse.
Eu, talvez porque esse era meu único “poder” contra ela, recusava-me a fazer. Ou melhor: fazia-os propositalmente mal feitos. Embora me desagradasse muito ver os pontos em desalinho, uns apertados e outros frouxos, eu os fazia assim. Para provocá-la.
Os bordados devem ter povoado algum sonho recente, pois não há porque me lembrar deles à toa. Mas, faço agora associações - estas sim, devem estar presas na minha arrogante vontade de sempre saber quem, porque e o que sou, ao invés de ser – e me vejo bordando e rebordando a vida, apertando demais os “pontos” ou afrouxando-os a ponto de perderem a forma e a nitidez.
Quando a mãe me fazia desmanchar o bordado para corrigir o mal feito, atravessava a rua e ia à casa da madrinha. Pacientemente ela desfazia os pontos para mim e suas mãos pareciam mágicas de tão ágeis. Depois ela subia a pequena escada que dava para a cozinha e fazia “pão chiado”. Ela os chamava assim porque o barulho da manteiga, derretendo na frigideira, fazia um chiado leve.
E ali, sentada na escada, ouvindo o chiado do pão na frigideira e sentindo o cheiro gostoso, eu refazia rapidamente o bordado. Sem dor, sem raiva.
De repente, desfaço a compreensão inicial: talvez eu não pretendesse provocar a mãe. Talvez eu quisesse apenas uma boa desculpa para atravessar sempre a rua e ter o carinho expresso da madrinha, escancarado no abraço de sempre, no desfazer dos nós, no cheiro do pão e no calor da manteiga.
E como esta sessão explícita de terapia é das mais honestas que já fiz, queria hoje voltar à escada, refazer os nós, sentir o cheiro do pão chiado e dizer a ela da saudade dos seus olhos doces e da sua imensa ternura de me ensinar a desfazer os nós e a refaze-los com a beleza que eu era capaz, para que eu compreendesse sem castigos ou discursos que a vida podia ser bordada caprichosamente.

Um beijo, madrinha. Sinto falta das suas mágicas mãos.

publicado por Adelina Braglia às 11:13

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