Ai, que me cansa a dança da minha aflição de viver e de acordar pela manhã e, às vezes, até de respirar!
Poderíamos ter nascido com mecanismos simples de hibernação sem dor. É certo que aqui não há neve, como a que acolhe os ursos, mas há rios e igarapés, de águas dóceis e frias, capazes de abrigar qualquer vivente que precise de descanso, silêncio e paz.
Em dias como hoje, sinto vontade de colo. O colo do pai. Que com o colo dava o afago das mãos e das palavras. Palavras que amenizavam o baque fosse ele do corpo ou da alma. O joelho esfolado doía menos e a alma ferida encontrava acolhimento.
Escrevendo agora percebo que meu desejo cifrado é hibernar no colo do pai. Como se ele, ressuscitado, pudesse curar com as mãos esta aflição de eu não querer ir a lugar algum, de não ter vontade de falar com ninguém – e falar é meu ofício!!! – ou de salvaguardar objetivos, fantasia, ações, projetos, seja lá o que for.
A música da cabeça hoje já indicava este mal estar. Eu não queria ouvi-la. A música acordou comigo, me impôs na cabeça um incomodo fundo musical e diz:
“... ai, meu amor para sempre nunca me conceda descansar. Pai, o tempo vai virar, meu pai, deixa me carregar o vento ..”
A música é do Chico, para o filme A ostra e o vento.