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O tiro pela culatra, ou a saída pelas janelas!

Sábado, 26.08.06

Este périplo atrás da truculência e da voracidade com que a Cia. Vale do Rio Doce atravessa o estado do Pará na região onde estão situadas comunidades quilombolas, impõe uma revisão na nossa capacidade de enxergarmos através dos seus tubos do mineroduto, das suas máquinas potentes que sugam igarapés para fazer testes de vazamento, e não ouvirmos os seus eficazes negociadores que são trocados por outros de falas macias, mas que têm o mesmo desprezo, o mesmo desconhecimento do modo de viver dessas comunidades tradicionais. Ouvi-los sem olhar através deles é sermos enganados com as antigas miçangas com que se adoçou os "selvagens" há séculos atrás.

Para a empresa, as pessoas, suas vilas e casas, suas pequenas capelas, sua vida aparentemente "sem sentido" são acidentes de trajeto. Reconheço até que esforçam-se seus representantes para disfarçar a irritabilidade de estarem atrasando seus megaobjetivos tendo que andar pelas casas, ouvir o populacho, etc. e tal.

Curioso é observar como seus representantes ficam desestabilizados se no dito trajeto dos seus tubos e de suas linhas de transmissão, encontrarem castanheiras! Pimba! Desviam-se delas, alteram o trajeto, prometem suspender a linha acima da copa das árvores, pois vá que o Greenpeace ou congênere denuncie uma única derrubada e aí os sócios estrangeiros vão passar noites insones e pressionar a empresa  a ser mais "civilizada", ou "politicamente correta" ou seja lá que diabo for!

A mesma "ternura"  não vem à tona, quando se trata de "indenizar" plantios, casas, roçados, açaizais nativos. Aí as quantias são estipuladas, sem que ninguém conheça os parâmetros. As conversas são individualizadas, a discórdia se instala, e quem ainda "não recebeu" passa a sentir-se como um idiota. Recebe mais quem demonstra resistência maior ao valor estipulado!

Atropela-se os modos e as leis. Mas, todo jacaré tem seu dia de lagartixa: ontem, ouvindo Dona Francisca - que muito brava discordou do fato do marido  ter aceito a indenização proposta, que ela recusa a acatar. - eu ri muito. Como ela e o companheiro são casados em cartório - coisa certamente inimaginada pela empresa que pudesse ocorrer entre o povinho - ela recusou-se a concordar com a passagem do mineroduto em suas terras. E a lei protege sua rebeldia!

Ri com Dona Francisca me contando a sua história e sei que ela criou para a CVRD uma crise diplomática!  Expliquei-lhe que ela está dentro da lei e que não se intimide com nenhuma crise de autoritarismo da empresa. Disse-lhe que negocie o que considera justo e que se não houver acordo que ela venha buscar assistência jurídica que certamente lhe garantirá seu direito à indenização justa.

O documento proposto aos ocupantes quilombolas, por ocasião da instalação do mineroduto, é o contraditório de todas as conversas anteriores. Sem jamais mencionar nessas reuniões, das quais participei, que estaria comprando direitos de servidão, foi isto que a empresa colocou nos "contratos".

Neles a CVRD diz que a partir daquele termo "irretratável, irrevogável" etc..., ela tem a servidão definitiva para todas as obras necessárias à construção do mineroduto. É evidente que numa das cláusulas ela informa que caso necessite de mais áreas, fará a competente indenização! Afinal, neste aspecto, seus sátrapas andam pelas comundades com as sacolinhas de dinheiro vivo!

Mas o que interessa é entender porque a truculência transborda do documento que, presumo, será derrubado em qualquer instância judicial. Deduzo eu:  a empresa é tão segura do seu poder, das suas variadas formas de pressão - política, econômica, direta ou indireta - que desta vez, vacilou!  O hábito do cachimbo entortou mesmo a sua boca!

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Adelina Braglia às 13:55

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