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Só um desabafo.

Sexta-feira, 05.08.05

Eu cultivei os meus sonhos como quem cultiva roseiras.

Vi brotarem os caules, aparei folhas rasteiras.

Cobri a raiz de estrume, cortei os galhos “ladrões",

todo dia reguei os sonhos à espera dos botões.

(O pé não vinga, fiz-lhe as mudas,

construí sua proteção, e esperei o futuro.)

Vem a luta e a ditadura implode as pontes pro sonho.

A gente não desanima: faz atalhos, abre valas,

faz trincheiras, usa bóias, não se afoga!

Alguns dos bons jardineiros, nem sequer sobreviveram,

Recolhi esperanças, velei corpos, - tanto pranto dolorido -

mas espreitei sempre o pé com botões quase floridos.

As mudas se fortaleceram: cai a máscara e eis o futuro!

Mas, de repente, não há rosas.

Há cinismo, frustração, arrogância, engodo e balela.

O jardim vira capoeira.


E agora, da minha janela, converso com o meu cansaço:

não tenho mais sementeiras, não há mais mudas plantadas.

Recolho no meu quintal luvas, ancinhos, rastelos.

Sem raiva, jogo tudo fora.

Não quero ser pós-moderna!

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Adelina Braglia às 08:40

1 comentário

De Paulo Soares a 05.08.2005 às 15:24

" A desilusão da poetiza reflete a decepção depois da vida de luta, de espera, de ansiedade. Cabe um novo caminho? Sim. Novas rosas devem ser plantadas. Nem sempre de mesma côr. Nem sempre de mesmo tipo. Mas a sementeira da natureza é pródiga, e a terra fecunda sempre permitirá novos brotos. Mesmo que não haja tempo e vida para as colhermos como rosas."

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