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Carta da maré

Terça-feira, 09.08.05

Sinto saudades de você.

Queria contar do barco que cruzou com o nosso hoje ao meio-dia, cheio de crianças que voltavam da escola, parecendo um bando de pipiras quando se coloca o mamão maduro no parapeito da janela.

Queria falar da confluência dos rios que parecem formar um imenso lago onde cabem dois do seu rio, e dos pés de açaí brotando por trás das aningas, organizados em grupos, parecendo um pelotão de palmeiras, pronto pra defender as margens!

Da vida que corre mansa e se encharca com a maré.

Queria que você me ouvisse agora contar da estrada empoeirada por onde eu seguia pra outra reunião. Dos olhos curiosos das pessoas, querendo beber o pouco que sei. Falar do velho negro, cabelos branquinhos, ouvindo atentamente o que eu dizia ao lado de dois filhos que perguntavam a ele o que não entendiam. A autoridade paterna ali funciona e eu não acho que ela seja negativa.

Gostaria de contar do cansaço da volta, mas que é atenuado pela compreensão da importância de gastar boa parte dos meus dias despachando tantos papéis.

Queria repetir coisas que você já me ouviu dizer sobre os caminhos sempre tão parecidos, as pessoas sempre tão abandonadas, o árduo trabalho das mulheres, o envelhecimento precoce dos homens. Mas hoje havia nos olhos de todos eles um quê de infantil, um brilho semelhante aos olhos das crianças quando vêem o homem do algodão-doce. E afirmar que foi isso que eu gravei na memória, pra não deixar o meu desalento sobrepujar esse brilho de esperança.

Gostaria de contar pra você agora que já estou em casa - banho tomado, pés limpos da poeira da estrada - que ainda convivo mal com meus privilégios, pois direitos são privilégios num país de desiguais. Foi privilégio ter podido sobreviver ao primeiro ano de vida, ter pai, mãe e saúde, ter ido à escola, ter emprego e um bom salário, e uma família sadia. Isso é pra dizer pra você que numa noite como hoje eu acredito que faço bom uso desses privilégios.

Mais alguns dias e sei que vou poder falar tudo isso pra você, mas talvez nem seja mais com a emoção de agora. Por isso registro e declaro a saudade e o meu amor por você, embalados como estão num sentimento doce de dever cumprido.

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Adelina Braglia às 21:31

1 comentário

De Paulo Soares a 10.08.2005 às 13:16

" Não sei porque seu texto me visualizou o sol poente na grande bacia amazônica. Me visualizou o patriarcado de outrora dos rincões perdidos da grande floresta. Me visualizou a necessidade imediata de um registro escrito pra' que não se torne apenas oral. Me visualizou a falta de acalanto que poucos temos ao enfrentar belos fatos e belas imagens.
Ao texto só faltou fotografias, tão belas quanto as criadas pela imaginação.Como se fosse possível!
Parabéns pelo poema em forma de prosa! Coisa difícil de fazer e mais ainda de ser compreendida."

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