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Overdose de poesia.

Quarta-feira, 26.10.05

Não tenho mais os olhos de menina nem corpo adolescente,

 e a pele translúcida há muito se manchou.

Há rugas onde havia sedas,

sou uma estrutura agrandada pelos anos

e o peso dos fardos bons ou ruins.

(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo o que perdi:


dou-te os meus ganhos.

A maturidade que consegue rir quando em outros tempos choraria,

busca te agradar quando antigamente quereria apenas ser amada.

Posso dar-te muito mais do que beleza e juventude agora:

esses dourados anos me ensinaram a amar melhor,

com mais paciência e não menos ardor,

a entender-te se precisas, a aguardar-te quando vais,

a dar-te regaço de amante e colo de amiga,

e sobretudo força — que vem do aprendizado.

Isso posso te dar: um mar antigo e confiável cujas marés

 — mesmo se fogem —

retornam, cujas correntes ocultas não levam destroços

mas o sonho interminável das sereias.

(Lya Luft – Canção da plenitude)


 


Eu temo muito o mar, o mar enorme,

Solene, enraivecido, turbulento,

Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;

O mar sublime, o mar que nunca dorme.

Eu temo o largo mar, rebelde, informe,

De vítimas famélico, sedento,

E creio ouvir em cada seu lamento

Os ruídos dum túmulo disforme.

Contudo, num barquinho transparente,

No seu dorso feroz vou blasonar,

Tufada a vela e n'água quase assente,

E ouvindo muito ao perto o seu bramar,

Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,

Escarro, com desdém, no grande mar!

(Cesário Verde – Heroísmos)


 


(...) Ao entardecer, debruçado pela janela,

e sabendo por cima dos olhos que há campos em frente,

leio até me arderem os olhos O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele!

Ele era um camponês que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas, e

 o modo como reparava nas ruas,

e a maneira como dava pelas pessoas, :

é o de quem olha para as árvores, ,

e o de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando 

e vê que está a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

que ele nunca disse bem que tinha,

mas andava na cidade como quem não anda no campo 

e triste como esmagar flores em livros e pôr plantas em jarras...

(Alberto Caeiro – trecho de O guardador de rebanhos)

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Adelina Braglia às 07:39


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