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Amar.

Segunda-feira, 12.12.05

Quando eu era criança, desenhava com muito cuidado os mapas do Brasil, pensando que a cada contorno errado, eu jogaria as pessoas no oceano que nos circunda! Hoje penso que esse já era um traço da minha persistente presunção e arrogãncia.

Lembrei-me disso agora, porque a vontade é que a vida pudesse ser recomeçada como quando se usa o caderno novo no primeiro dia de aula. Nenhuma marca anterior, nenhum borrão, nenhuma palavra mal escrita.

Mas, aprendi nas sessões de análise que o passado é experiência e acumulação.Não há reparos a se fazer. Não é como um caderno onde se arranca folhas ou escreve-se por cima das antigas palavras ou que se faça uma redação tipo "o-que-eu-quero-ser-quando-crescer". Céus! e como eu já cresci!

A tentativa de arrumar a cabeça escrevendo, não tem sido eficaz, ultimamente. Talvez porque eu escreva sempre as mesmas coisas, me escore sempre nas mesmas justificativas. Ou talvez porque eu tenha tido o privilégio de ter no meu entorno pessoas generosas, capazes de me amar apesar de mim.

Não, não estou com peninha de mim. Estou com raiva. Uma raiva brutal, de quem está enxergando o cais, mas não nada para ele, imaginando que afogar-se, engolir a água salgada até os pulmões arrebentarem, pode ser uma bela e dramática solução! Daria um tango ou um bolero, o meu romance negro.

Como sempre a poesia ou a música me socorrem. Hoje, as duas:

Cadê você (João Donato-Chico Buarque)

Me dê noticia de você

Eu gosto um pouco de chorar

A gente quase não se vê

Me deu vontade de lembrar

Me leve um pouco com você

Eu gosto de qualquer lugar

A gente pode se entender

E não saber o que falar

Seria um acontecimento

Mas lógico que você some

No dia em que o seu pensamento

Me chamou

Eu chamo o seu apartamento

Não mora ninguém com esse nome

Que linda a cantiga do vento

Já passou

A gente quase não se vê

Eu só queria me lembrar

Me dê noticia de você

Me deu vontade de voltar

 


Amar - Carlos Drummond de Andrade

(...) Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o cru, um vaso sem flor,

um chão de ferro, e o peito inerte,

e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,

e na secura nossa amar a água implícita,

e o beijo tácito, e a sede infinita.(...)

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Adelina Braglia às 08:53


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