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Ai, ai, ai... viva o INCRA!

Sexta-feira, 20.01.06

Com 30 anos de vínculo com a luta pela reforma agrária, nos seus desdobramentos entre e pós-ditadura, nunca apoiei a política agrária do meu país. As diversas instituições - GETAT, GEBAM, SPU, INCRA - jamais mereceram meu aval, haja vista que a concentração fundiária cresce década após década e governo após governo. Mas, hoje pela manhã, ao ler no noticiário on-line da NOMINIMO a nota que abaixo transcrevo parcialmente,  ainda nada tenho a elogiar, no que se refere a política agrária. Mas, reconheço o mérito dessa decisão que aponta para o desmonte de séculos de entulho discriminatório. E, bem graúdo, finalizo: viva o INCRA!


" Há cerca de sete meses, quando o governo liberou a terra para a formação do assentamento dos sem-terra e as centenas de famílias acampadas à beira da estrada começaram a discutir a divisão do terreno, Darci e Dida disseram que desejavam ser assentadas no mesmo lote. Parte dos companheiros sem-terra torceu o nariz, teve gente que duvidou da capacidade delas para tocar uma propriedade rural e os representantes do Incra advertiram, “olha aqui, tudo bem, mas não existem precedentes legais para esse arranjo, não vai dar...”

Acuadas, as duas chegaram a propor que lhes fosse dado um lote menor, o chamado pararural, oferecido a pessoas solteiras ou a idosos sem filhos – desde que o nome das duas figurasse no papel. A insistência, até mesmo com a perda de parte de seus direitos, já que tinham enfrentado todas as agruras de um acampamento ao lado dos companheiros, tinha um motivo: elas viam no tal papel o coroamento de uma luta que travaram durante quatro anos. Desde que se conheceram no acampamento Nova Canudos, mantido pelo Movimento dos Sem-Terra (MST), na mesma região onde hoje fica o assentamento denominado Zumbi dos Palmares.

Darci tinha acabado de chegar de Lençóis Paulista, acompanhando o marido desempregado e puxando quatro filhos pela mão. Dida já estava acampada havia dois anos. As experiências delas na área afetiva eram completamente diferentes. Dida reconheceu seu desejo por pessoas do mesmo sexo quando tinha apenas doze anos (“se a gente brincava de casinha, eu queria ser o pai”) e insistiu nele, apesar das surras da mãe, evangélica da Assembléia de Deus, e das gozações do irmão mais velho, que a chamava sarcasticamente de João. Mas Darci, que casou aos 16 anos com o primeiro namorado firme que teve na vida, jamais tinha pensado na possibilidade de se relacionar com outra mulher: “Nunca tinha mexido com esse bicho. Mas quando a Dida deu em cima de mim e eu experimentei o carinho de mulher...”

Um ano depois de se conhecerem, Darci decidiu abandonar o marido para viver com Dida. A notícia desabou sobre o acampamento como um terremoto. “Teve uma revolta aqui”, ela conta. Não aceitaram. Pensei até que ia ser expulsa. Meu ex-marido me ameaçou, os amigos dele não falaram mais comigo e chegou uma hora que pensei: é só eu, a Dida e Deus. Contra o mundo.”

Dida recorda que o ex-marido da companheira ficou tão furioso que ameaçou cortar a cabeça de Darci e pendurar na cerca, para servir de exemplo. “Acho que a raiva não seria tão grande se ela tivesse ficado com outro homem.”

Foram necessárias reuniões de emergência para conter os sem-terra e acalmar o marido, que não cometeu nenhuma violência física, mas foi à Justiça e obteve a guarda dos quatro filhos. Hoje, passados quatro anos de união, a situação é diferente. As duas mulheres conseguiram o respeito e a admiração dos sem-terra. Dida foi eleita coordenadora do grupo de oito famílias que estão assentadas na área onde elas vivem e quando alguém a chama de João não se incomoda: o apelido virou uma forma carinhosa de tratamento. Por outro lado, o Incra encontrou uma forma legal de fornecer o almejado papel com a dupla assinatura e abriu-lhes a porta para um pequeno pedaço na história das conquistas homossexuais."


http://nominimo.ibest.com.br/
 

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Adelina Braglia às 07:38


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