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Aos meus filhos.

Quarta-feira, 05.04.06
Ainda não me refiz das cenas do jornal matutino, onde adolescentes infratores apareciam acocorados no canto do pátio do presídio. Manifestei isso pela manhã, no comentário anterior, mas ainda não sei como vou conseguir dormir. Lembro de uma frase do jornalista Clóvis Rossi, há anos atrás afirmando que somos o país dos que não dormem, com medo dos que têm fome. Por isso, pensei em escrever aos meus filhos, para lhes dizer que não era essa a mudança que queríamos, e para lhes dizer que não era medo o que pretendíamos lhes deixar como herança.
Não foi esse o Brasil pelo qual morreram tantos, muitos se perderam e outros desapareceram. Não foi esse o Brasil que a minha geração sonhou e, mais do que sonhou, comprometeu-se nas diferentes formas de luta para construir um país melhor.
Alguns, como eu, " os reformistas", acreditavam na mudança “por dentro” e lá se foram engajar no movimento estudantil e, quando mais maduros, no movimento sindical. Alguns seguiram mais à frente, mas a luta armada revelou-se apenas um caminho célere para a tortura e a morte. Estou certa, porém, que nenhum de nós sonhou o fracasso e a barbárie como resultantes, em que pesasse termos tantas divergências, que nos tornávamos presas frágeis para a ditadura.
E hoje, a barbarie está aí, ao nosso redor, seja pelos meninos acocorados no canto do pátio, seja pelas meninas prostitutas nas orlas nordestinas e nos centros metropolitanos, seja pelos velhos abandonados, seja pelos homens e mulheres - adultos ou jovens - sem trabalho, ou com salários aviltantes. O multiplicar de crimes hediondos, como o estupro e a tortura de crianças, as chacinas brutais entre rivais pelo controle do tráfico, a violência das torcidas de futebol, as mortes anônimas, gratuitas, estúpidas, os cruéis indicadores da barbárie. Contra isso, a oficialidade reinante divulga os índices otimistas de crescimento da indústria paulista!
Aí, só me vem a vontade de pedir desculpas pelo patrimônio tristonho que vocês herdam, pela pátria sem brilho, pelo chão lamacento, pelo céu cor de chumbo.
Perdão, meninos. Os meus e os outros.

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Adelina Braglia às 23:03

1 comentário

De Santos Passos a 08.04.2006 às 21:05

Ia dizer: perfeito.
Pensando melhor, não. Não há perdão a pedir. Por mim, peço apenas que sejam melhores que nós.

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