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É assim que estão estes dias....

Terça-feira, 25.04.06

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

 


A minha glória é esta:

Criar desumanidades!

Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí!

Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...

 


Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

 


Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou,

É uma onda que se alevantou,

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí!

(Cântico negro - José Régio)

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Adelina Braglia às 22:09

2 comentários

De Bia a 25.04.2006 às 23:43

Caro Dante, a música de fundo é "Pra não dizer que não falei das flores". Seu autor, Geraldo Vandré, foi um ícone da minha juventude. A música embalou, no final da década de 60, a nossa rebeldia contra a ditadura que nos sufocou por 30 anos. Foi assim "caminhando e cantando e seguindo a canção" que pensávamos estar construindo um país melhor. Não deu certo, ainda. Mas os jovens, como você, continuam "nas escolas, nas ruas, campos, construções..." e há que apostar neles. Um abraço.

De Banda -Inpulse a 25.04.2006 às 22:48

Olá Bia.....belo texto este que aqui apresentas...ao ler sentia, ser mais o meu código de vida....sem regras e sem lei........mas até na Anarquia existem as suas regras.....vivemos o nosso Fado ao sabor do vento, sem tino e sem remador....
Um abraço
Dante
Inpulse

PS:Não me canço de ouvir a música de "fundo"....

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