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"Roubando" por uma bela causa.

Domingo, 05.08.12

Pessoas como nós (*)

[...]

 

 

« Quando esta revista estiver na rua terão passado 40 anos sobre a data em que conheci o homem com quem casei em Julho de 2010.

Somos do tempo em que os professores interferiam com a identidade sexual dos alunos. Hoje, se um professor disser (na cantina da escola) que determinado aluno é “burro”, arrisca-se a um processo disciplinar. Em 1962, um professor era livre de dizer (na sala de aula) a uma criança de 12 anos: «Não seja paneleiro.» Não lhe acontecia nada e o encarregado de educação do aluno era chamado ao reitor: «O seu filho tem de ir a uma consulta de psiquiatria.» Passaram 50 anos. 

 

Vem isto a propósito do segundo aniversário da Lei n.º 9/2010, de 31 de Maio, que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Portugal é um dos dez países em que isso é legal, sendo os outros a África do Sul, Argentina, Bélgica, Canadá, Espanha, Holanda, Islândia, Noruega e Suécia (e também nove Estados americanos). E depois há os países que chamam “União civil registada” ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, que são vinte e quatro, entre eles a Alemanha, a Áustria, a Dinamarca, a França, a Irlanda e o Reino Unido. 

 

O ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Guido Westerwelle, oficializou em 2010 a sua ligação de muitos anos com Michael Mronz, numa cerimónia pública que contou com a presença da senhora Merkel. 

 

Tudo isto remete ao passado. 

 

Tenho pensado em como seria com Walt Whitman (1819-1892), E. M. Forster (1879-1970), Lytton Strachey (1880-1932), Virginia Woolf (1882-1941), Jean Cocteau (1889-1963), Marguerite Yourcenar (1903-1987), W. H. Auden (1907-1973), Elizabeth Bishop (1911-1979), Benjamin Britten (1913-1976), Gore Vidal (1925), etc., se tivessem sido diferentes as circunstâncias em que cresceram. 

 

Whitman não teve nenhuma ligação estável. Os outros sim. Forster viveu 40 anos com Bob Buckingham, que era polícia. Strachey, outro bloomsberrie, foi amante do economista Maynard Keynes, antes de Keynes casar com a Lopokova. Mrs Woolf encontrou em Vita Sackville-West uma amante vitalícia (o marido de Vita gostava de rapazinhos e o marido de Virginia gostava de livros). A seguir à morte de Raymond Radiguet, Cocteau fez do actor Jean Marais seu companheiro para a vida: viveram juntos durante 27 anos. A Yourcenar viveu 40 anos com Grace Frick. A casa onde viveram, na ilha de Mount Desert (no Maine), tornou-se casa-museu. Isso não impediu a Yourcenar de ser a primeira mulher a ser admitida na Academia Francesa. Depois de uma ligação adolescente com Isherwood, Auden encontrou Chester Kallman, que tinha 18 anos, vivendo com ele até morrer. Kallman, libretista de Stravinsky, sobreviveu-lhe dois anos. Elizabeth Bishop viveu em Ouro Preto (Brasil) para estar perto da paisagista Lota de Macedo Soares. Por causa do álcool, a relação implodiu. Bishop partiu para Nova Iorque e Lota suicidou-se. Britten, o compositor, e Peter Pears, o tenor, viveram juntos desde 1936. Nem de propósito, escrevo esta crónica ao som da ópera Peter Grimes. 

 

Deixo para o fim Gore Vidal, o único deste grupo que está vivo. [estava] Vidal viveu com Howard Austen durante 55 anos. Pela casa de ambos, em Ravello (em Itália, na costa de Amalfi), passou o Who’s Who internacional, dos Kennedys a membros de casas reais europeias, além de Tennessee Williams e Saul Bellow, dois dos poucos escritores de quem Vidal foi amigo. Howard desenvolveu um cancro no cérebro e quis voltar a Los Angeles. Vidal fretou um avião-hospital, um «caixão voador», como lhe chama em Point to Point Navigation (2006). Howard morreu ao fim de algumas semanas. 

 

Como milhões de outras, estas vidas foram condicionadas pelo preconceito. O facto de serem intelectuais facilitou alguma coisa. Mas e os cidadãos anónimos?

 

 

(*) Eduardo Pitta, in da literatura, 03:ago:2012

 

 

 

 

Acrescento a música:

 

 

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Adelina Braglia às 22:07


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