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Tempos modernos.

Terça-feira, 14.12.10

 

Para viver este tempo, é preciso compaixão moderada. Emoldurá-la como valor, mas dosar a prática. Tipo “compaixão por mérito”.

 

À porta, não atenda ninguém. Nem mesmo aquela velha esquálida que estende a mão balbuciando por comida. Sabe-se lá se ela não é uma quadrilheira, dessas que vem na frente para abrir espaço de assalto para a quadrilha?

 

É preciso também ser econômico. Abrace cada vez menos. Abraços não têm mais  significado por si. Podem embutir interesses espúrios, financeiros ou emocionais. Ou, sexuais, se você prefere ser mais direto.

 

Ah! Conversas de pé-de-ouvido, essas são temerárias:  jamais poderão ser segredos ingênuos de família ou de amizades. Certamente serão tramas sórdidas ou senhas para a maldade em marcha. Desconfie de todos os cochichos.

 

Um telefone que toca e você atende e ninguém responde, jamais será de alguém que, inibido, não reconheceu a voz que esperava e desligou por presumir ter ligado errado. Pode ser uma tentativa de seqüestro ou de assalto, para saber se há alguém em casa. Na dúvida, se não tiver marcador de chamadas,  não atenda.

 

Não visite seus amigos, mesmo quando tem saudades deles. Sabe-se lá se, no caminho, um seqüestro relâmpago não aguarda você?

 

Enquanto isso se exponha no MSN, no Orkut, no Twitter, no Facebook. Diga tudo o que pensa, seja sempre jocoso, bem humorado. Demonstre sua inteligência, solidariedade e esteja sempre up-to-date!  

 

Economize-se na vida, para gastar-se na rede social.

 

 

 

Atualizado hoje, 17/12, com o "comentário" do Poeta:

 

 

 

Sobre girassóis de espuma

Ademir Braz

As máquinas pararam.
A que impulsiona a lancha
e aquela caixa mágica que sonda
a profundeza das águas.
Há horas vagamos assim: leva-nos
a correnteza entre pedrais e ilhas
sob o cardume de estrelas no céu escuro.
Nadamos no breu. Reféns,
rolamos o penhasco da noite
sobre girassóis de espuma.

Inda há pouco sondamos inquietos
as margens invisíveis, a massa disforme
das ilhas cravadas no rebojo.
Se morrêssemos aqui, não nos achariam
entre pedras do sono e pirilampos.

(Não me incomodaria, decerto,
morrer nesta bela noite entre saranzais...
Depois, quem choraria a morte do poeta?
Desgosta somente pensar o destino
dos meus gatos miúdos, dos netos
Kotôko, o pinscher, e Luna, a vira-lata,
que os filhos dizem filhos seus.
Quem levaria Canção Pequena, o curió
arisco e canoro senhor das claras manhãs?
E o que resta de minhas orquídeas
e dos versos inconclusos, desalinhados,
e das noites de insônia e morna solidão
na casa arruinada que me acolhe?
Quem ficaria com os poucos amigos?
E com Arnaldo Jabor-ty, rei do quintal?
E minha amada, a quem amaria,
de novo enlevada com seus olhos de chá?
Os livros, eu sei: nesta terra agreste
aguarda-os, na esquina, o lixão da rua.)

Ponho-me a rir do pensamento mórbido
e espio os parceiros de infortúnio:
sinto suas caras cinzentas no escuro.
Em que pensarão? Olho as estrelas: lindas!
Se eu tivesse ao menos um disco-voador...

Por fim, aquietamo-nos: lá embaixo
– tão longe! – uma ponte cruza o rio
iluminada como um colar de diamantes.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adelina Braglia às 09:33

2 comentários

De Ademir Braz a 17.12.2010 às 11:50

Sobre girassóis de espuma

Ademir Braz

As máquinas pararam.
A que impulsiona a lancha
e aquela caixa mágica que sonda
a profundeza das águas.
Há horas vagamos assim: leva-nos
a correnteza entre pedrais e ilhas
sob o cardume de estrelas no céu escuro.
Nadamos no breu. Reféns,
rolamos o penhasco da noite
sobre girassóis de espuma.

Inda há pouco sondamos inquietos
as margens invisíveis, a massa disforme
das ilhas cravadas no rebojo.
Se morrêssemos aqui, não nos achariam
entre pedras do sono e pirilampos.

(Não me incomodaria, decerto,
morrer nesta bela noite entre saranzais...
Depois, quem choraria a morte do poeta?
Desgosta somente pensar o destino
dos meus gatos miúdos, dos netos
Kotôko, o pinscher, e Luna, a vira-lata,
que os filhos dizem filhos seus.
Quem levaria Canção Pequena, o curió
arisco e canoro senhor das claras manhãs?
E o que resta de minhas orquídeas
e dos versos inconclusos, desalinhados,
e das noites de insônia e morna solidão
na casa arruinada que me acolhe?
Quem ficaria com os poucos amigos?
E com Arnaldo Jabor-ty, rei do quintal?
E minha amada, a quem amaria,
de novo enlevada com seus olhos de chá?
Os livros, eu sei: nesta terra agreste
aguarda-os, na esquina, o lixão da rua.)

Ponho-me a rir do pensamento mórbido
e espio os parceiros de infortúnio:
sinto suas caras cinzentas no escuro.
Em que pensarão? Olho as estrelas: lindas!
Se eu tivesse ao menos um disco-voador...

Por fim, aquietamo-nos: lá embaixo
– tão longe! – uma ponte cruza o rio
iluminada como um colar de diamantes.
-------

De Adelina Braglia a 17.12.2010 às 23:10

Um beijo, Poeta.

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