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E os bárbaros não chegaram.

Sábado, 13.03.10

 

Dois fatos marcaram a semana com o ápice da nossa barbárie: o assassinato de um menino desconhecido de onze anos em Marabá e o assassinato de Glauco, o cartunista.
 
O crime contra o menino teve requintes de barbárie sem perdão ou sofisticação. Ele foi amarrado, amordaçado e posto sobre os trilhos do trem, onde foi esmagado. Ninguém sabe, ninguém viu.
 
A notícia do jornal dava duas informações: ele era suspeito de dois crimes e sua mãe fez um suposto reconhecimento – pelo desaparecimento – de pedaços e pastas de carne e sangue.
 
Glauco  e o filho foram vítimas de um jovem amigo da família, freqüentador da igreja que o cartunista mantinha na chácara onde morava. Todos classe média, famílias aparentemente estruturada.
 
Para eles e para as vítimas inominadas da violência policial, da violência como instrumento de revanche, de loucura  ou da crueldade cotidiana que brota na sociedade brasileira como o ovo da serpente, repito Kavafis:
 
 
Porque esperamos, reunidos na praça?
Hoje devem chegar os bárbaros.

Porque reina a indolência no Senado?
Que fazem os senadores, sentados sem legislar?

É porque hoje vão chegar os bárbaros.
Que hão-de fazer os senadores?
Quando chegarem, os bárbaros farão as leis.

Porque se levantou o Imperador tão de madrugada
e que faz sentado à porta da cidade,
no seu trono, solene, levando a coroa?

É porque hoje vão chegar os bárbaros.
E o imperador prepara-se para receber o chefe.
Preparou até um pergaminho para lhe oferecer, onde pôs
muitos títulos e nomes honoríficos.

Porque é que os nossos cônsules, e também os pretores,
hoje saem com togas vermelhas bordadas?
Porquê essas pulseiras com tantos ametistas
e esses anéis com esmeraldas resplandecentes?
Porque empunham hoje bastões tão preciosos
tão trabalhados a prata e ouro?

Hoje vão chegar os bárbaros,
e estas coisas deslumbram os bárbaros.

Porque não vêm, com sempre, os ilustres oradores
a fazer-nos seus discursos, dizendo o que têm para nos dizer?

Hoje vão chegar os bárbaros;
e, a eles, aborrece-os os discursos e a retórica.

E que vem a ser esta repentina inquietação, esta desordem?
(Que caras tão sérias tem hoje o povo.)
Porque é que as ruas e as praças vão ficando vazias
e regressam todos, tão pensativos, a suas casas?

É porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
E da fronteira chegou gente
dizendo que os bárbaros já não vêm.

E agora que será de nós sem bárbaros?
De certo modo, essa gente era uma solução.
(À espera dos bárbaros – Konstantin Kavafis)
 
 

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Adelina Braglia às 10:19


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