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Miguel.

Quarta-feira, 27.01.10

 

Miguel nasceu na periferia da capital. A infância foi tranqüila. Uma casa simples, confortável, e aberta aos amigos do pai e da mãe no churrasco dos domingos.
 
O susto veio na adolescência. O pai, por causa de coisas com as quais ele não tinha nenhuma familiaridade – abertura do mercado, mudança nos processos de produção e gestão – perdeu o emprego no banco. Sua função passou a ser obsoleta. Ingênuo, sem perceber a provocação premeditada, estapeou o gerente e precipitou uma demissão por “justa causa”.
 
Meses depois, a casa simples e confortável da periferia, perdeu a festa dos domingos. A mãe emagreceu. Abateu-se tanto quanto na época em que a avó morrera. O pai fazia bicos. Pouco rendosos, mas trazia sempre alguma coisa para o jantar.
 
Os dois irmãos menores não foram mais para a escolinha do bairro, que custava pouco, mas custava. Como era final de ano, a mãe resolveu esperar a matrícula da escola pública para o ano seguinte.
 
Miguel e o irmão do meio continuaram a estudar. A diferença é que agora ele não estudava mais pela manhã. Trabalhava durante o dia, na oficina do Jorge, o vizinho, que abriu para ele este espaço precioso para ganhar pouco, mas ganhar. E ia para a escola à noite.
 
Miguel sentia o peso do cansaço da jornada de trabalho somado ao esforço de estudar numa sala abafada e mal iluminada. A diversão era o futebol do domingo no campo perto da Igreja.
 
 
 
 
Na maioria das aulas os professores pareciam mais cansados do que ele e não conseguiam motivar ninguém a querer saber o que a tal revolução industrial – seria a tal que desempregou seu pai? – sobre a qual o professor de História falava tinha a ver com um poeta chamado Fernando Pessoa, que parecia ser amigo do Professor de Português, de tanto que ele falava os versos dele. Nada parecia conectar-se a nada, e menos ainda com a rotina pesada na oficina do Jorge.
 
Naquela manhã Miguel acordou disposto a reagir ao cansaço e terminar o ano com boas notas. Era o último ano do ensino médio e o sonho do vestibular ficaria para o próximo. Mas, nem que lhe custasse decorar todas as páginas que copiava nas aulas para fazer as provas, Miguel decidira que chegaria lá.
 
Saiu da oficina às 7 horas, disse à mãe que jantaria na volta e correu para a escola, a cinco quadras dali. Não ouviu quando mandaram que ele parasse. Pensava na revolução e no Fernando Pessoa, o poeta amigo do professor de Português.
 
O tiro foi certeiro. No jornal do dia seguinte a polícia explicava que o jovem estava em atitude suspeita, correndo pela avenida e não atendeu o chamado para parar. Como encontraram uma arma na mão dele, estava configurada a tentativa de reação armada. A polícia atirou para se defender.
 
Miguel, um jovem brasileiro. Seu pai não era poeta. É só um cara que não entende nada de revolução. Industrial ou tecnológica.
 

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Adelina Braglia às 20:39


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