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Ciao, Pará. Ciao, Belém. Em conta-gotas.

Terça-feira, 13.10.09

 

Despeço-me do Pará, neste tempo que me falta para ir embora, numa simbólica diuturna despedida de Belém. Faço isso sem mágoas, mas com alguma tristeza.
Desencarno vagarosamente das pessoas cansadas que dividem comigo o desconforto do péssimo transporte coletivo. Das que se aboletam nas ruas esperando o ônibus, porque a calçada está tomada por barracas, por táxis e carros particulares que fazem dela seu estacionamento. Despeço-me da tão decantada e falsa alegria do nosso povo e do gosto do açaí e do cupuaçu.
Despeço-me de Belém, dia após dia, e os contornos da tristeza se definem pela constante e desesperançada ausência de cidadania.
Passeio meu olhar pela cidade, nos trajetos que tão bem conheço e não reconheço neles mais a cidade onde um dia quis vir morar. Cada esquina, cada rua, cada praça, parecem perder-se do conjunto daquilo que conformaria uma cidade, se ela assim quisesse ser.
Quando a vi pela primeira vez, numa véspera de ano novo em 1976, tive a impressão de ver uma adolescente. Maldosamente sensual e angelicamente indefesa. Mas a Belém que enxergo hoje parece mais com uma decadente senhora, cujos encantos foram sugados pelo tempo, cujas plásticas não surtiram efeito e em quem as aplicações de botox foram desfeitas.
Quando saio deste devaneio sei que Belém nunca foi uma adolescente, nem é uma senhora decadente. Essa imagem suaviza a verdade: esta é uma cidade abandonada à própria sorte, amaldiçoada pela elite mesquinha que a suga e entregue a um indefinido destino pelas desventuras de quem a habita no andar debaixo.
Das janelas de Belém diviso o Pará - diverso, heterogêneo – e recaio na imagem comparativa de um homem, já não mais tão jovem, e fica impossível imaginar coisa melhor para descrever este Pará de hoje do que os versos de Ruy Barata:
Saberás quem somos
pela ausência da voz,
pelo rio envelhecido
e na fadiga das frases dissipadas.
Diante de ti a nudez falará por nós
pois as dádivas e sonhos dispersamos
e as mãos vazias dissiparam o tempo.
A fêmea e a cidade conquistamos,
mas do Invisível
a rosa que colhermos será sempre
viçosa e fresca sobre a nossa tumba.
Somos da terra o sal
mas nem sabemos
e deitados na Parábola morreremos
na primavera das palavras novas,
no segredo que faz nossa alegria.
Estrangeiros na pátria que elegemos
vazios do santo amor,
pobres da Graça,
a saudade da hora não cumprida,
a tristeza do rei que inveja o escravo.
 
 
PS: este foi postado também no Monólogos.

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Adelina Braglia às 23:50

2 comentários

De Ademir Braz a 15.10.2009 às 17:14

Que pressa é essa, anjo torto, em ir
ao encontro do próprio destino?
Que destino aguarda quem não tem
destino ou guarida para alma e coração?
Quem velará seus passos e a sombra
entre as pedras, os raros sorrisos
sob mangueiras, a palavra esvaída em sangue?

De Adelina Braglia a 16.10.2009 às 11:00

Um beijo, Poeta.

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