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Uma carta para muitas mães.

Domingo, 02.08.09

 

 

 

 

 

Sem pedir licença, transcrevo a carta que minha irmã pescadora escreveu para nossa mãe. Uma carta que ela jamais receberá, mas da qual sabia sempre todas as palavras e sentimentos.


Beijo, Rita.



 

Minha mãe,

 

Me pega as vezes no coração a saudade do pai e da mãe. Lembranças de simplicidade, de emoções tolas exatamente por serem simples. “Luar do sertão”, toda vez que ouço, me vem a imagem da mamãe, com seus olhos escuros de cílios negros longos, os mesmos olhos de vovô e tia Judite.

Me pega também a consciência de sonhos que ela tinha...realizou pouco: a casa própria, a escola e o sustento dos filhos. Uma grande mulher, de coração generoso e alma farta. Remendou e cozeu por longos anos, segurou as rédeas de nossa educação enquanto pode, aturou uma doença cruenta e devastadora...mas não contava o que sonhava. Ouvi algumas vezes por detrás da porta, suas queixas à madrinha de não saber o que aconteceria conosco...falava de meu gênio, de minha má-criação, do fato de ser respondona...

Era uma mulher sertaneja, tenteando a vida na cidade grande.

Hoje olho o sofrimento relativo de nós, filhos. Sim relativo porque nosso sofrimento é por opção. Miramos um ponto no mundo e fomos. Fizemos com nossos filhos o que achávamos correto, às vezes mirando o que não fazer tendo como exemplo a mamãe...

À minha mãe devo algumas qualidades: generosidade e honestidade. Duas sombras de Apparecida a nos dirigir na vida. Sim, qualidades de seus três filhos, que até hoje quando pegos em desalinho, revolteiam as coisas e se sentem desconfortáveis diante da avareza e da falta de retidão.

Olho seus olhos na grande foto PB, que amparam um semi-sorriso a iluminar seu rosto. Uma foto de mulher quarentona, serena, pouco antes da viuvez. Cabelos negros curtos, sobrancelhas delineadas, nariz alongado, proporcional...uma linda mulher.

Me pega de jeito a saudade de alguém, que o tempo veio surrupiar entre o egoísmo adolescente e os anseios de liberdade. Para mim foi num instante, perder a mãe. Ela me mandando ir pra escola e morrendo, o pano enrolado no queixo, o cheiro de flor, o silêncio e o nada – tudo num instante.

E é por isso que quando ouço Luar do Sertão, sinto seus suspiros de saudade ao meu lado, ainda me guiando, ainda me acolhendo em sua generosidade. Por isso não gosto da saudade, não sei lidar com ela por causa do gosto de silêncio e nada. Mas cultivo flores, samambaias e comigo-ninguém-pode. Lembra ela, lembra o Luar do Sertão.

 

 

 

 

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Adelina Braglia às 18:29

1 comentário

De Maju a 03.08.2009 às 02:11

Pois é...é exatamente assim que me sinto...mas não gosto de falar disso, não gosto mesmo.
Bom lembrar que elas foram mulheres fortes, corajosas...maravilhosas e lindas...e principalmente MÃES...com tudo o que a palavra implica.
Beijos Adelina...beijos Rita e Osvaldo.

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