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Dois poetas (ou dois poemas?) paulistas.

Quarta-feira, 22.07.09

 

 

 

 
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
desejasse.

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há um tempo.
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
 
 
Hilda Hilst
 
 

a poesia está morta
mas juro que não fui eu  
eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la
 
imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car-
los  drummond de andrade   manuel bandeira   murilo
mendes vladimir maiakóvski  joão cabral de melo neto
paul éluard  oswald de andrade   guillaume apollinaire
sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos
 
não adiantou nada
 
em desespero de causa cheguei a imitar  um  certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
de ferro araraquarense
 
porém ribeirãozinho mudou  de nome a estrada  de ferro
araraquarense foi  extinta  e  josé paulo paes  parece
nunca ter existido
 
nem eu
 
 
José Paulo Paes

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Adelina Braglia às 09:37

2 comentários

De Ademir Braz a 31.07.2009 às 20:01

Vê se cabe aí, entre seus poetas. Colher de chá (com algumas gotas de aguardente) faz bem.

Ao largo
Ademir Braz
(Para Charles Trocate, no seu caminho)

Já não te amo mais, cidade minha.
Quando, nas dobras da minha lembrança,
tange solitário um tropeiro a tropa
ruidosa dos meus desenganos,
sinto que não te amo mais:
desgosta-me o suor-néctar que exalas
por entre as pernas, se me enlaças e roças
no rosto teus seios imaturos de vestal;
trinco irado os dentes se me acenas doce,
etérea e sedutora, dentre as aves de rapina
que se fartam em tuas entranhas.
Aborrecem-me tuas ruas ensolaradas
ou noturnamente desertas e melancólicas.
Ralam-me o cristal das chuvas de dezembro
e o odor de frutas claras na água de verão.

Já não te amo mais, não te amo mais.
Um gigantesco mar nos põe ao largo
e singro, em velames, a esquecer teu cais.

Se navego teus rios, ouço vozes afogadas
de crianças e o canto deslembrado de pássaros;
vejo encantarias apanhadas em tarrafas
e garimpeiros presos ao farracho de sonhos
cravejado de diamante e turmalinas;
ouço adiante o canto sombrio da aldeã ilhada
em balsa de buritis a descer sem timoneiro
a voraz correnteza da memória, e o estrondo
infindo de um avião a retorcer-se em chamas,
facho imenso aceso sobre águas negras,
farândola insana para um deus insano.

Meu povo sumiu na mata e morreu à míngua
nos castanhais. Ouço-o, sinto-o ainda, e tanto!,
cidade minha... Já, em tuas ruas não anda
mais a triste e doida Zabelona a cavalgar
ao luar sua porca de bobs, nem sobre as casas
ressoa, pela madrugada, o agourento presságio
do rasga-mortalha.
Invés, na calha dura avulta
a gosma rubra de teus pobres, catados à margem
de trilhos e soltos na veia líquida de março.
São pobres peixes tangidos da sombra insalubre
dos brejais. Sujos de ferrugem e fuligem, vomita-os
o dragão chinês na gare de abandonos na periferia.
São lambaris que no mormaço vagam. Cegos, vagam.
Famintos, comem o paul do paiol apodrecido.

Para onde irão a seguir (além da cerca do latifúndio
e da cova anônima de indigentes sem luto),
sob o céu encauchado no forno das siderúrgicas?

Quem sabe os espera, ao acaso, numa esquina,
a perpendicularidade exata e única de uma bala?

Já não te amo mais, cidade minha. Não faz
sentido o amor, quando cegos conduzem
cegos, quando o pássaro perde o canto,
e tudo se precipita para lugar nenhum.

De Adelina Braglia a 02.08.2009 às 13:34

Cabe, Poeta, na vitrine. Aliás, se você reescrever "a galinha do vizinho bota ovo amarelinho" será sempre um belo poema. Beijo. E muita saudades.

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