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Um dia qualquer.

Sábado, 21.02.09

 

 

 

Amortecidas pelo desconforto permanente, as pessoas viajam sem abrir as janelas do ônibus, ainda que a chuva tenha parado.
 
O abafamento mistura os cheiros de perfume barato, roupas molhadas e  suor do trabalho. Um cheiro insuportável de vida real.
 
Tento esconder-me nos pensamentos ou na paisagem úmida da janela. Mas uma criança senta-se ao meu lado e no colo da mãe, chora.
 
Seu choro é um misto de birra e sono. A mãe parece não ouvi-la, mais imersa do que eu nos próprios pensamentos.
 
Distraio--me agora imaginando onde e como moram. E ao dedicar-me a isso, o choro da criança é apenas a música de fundo de uma vida sem glórias.
 
Localizo-as- mãe e filha – numa das muitas ruas da periferia que conheço. Um beco sem asfalto, mal iluminado, onde o lixo dorme na entrada da rua.
 
Casas mistas, de alvenaria e madeira. Mais madeira do que alvenaria.
 
Quem sabe moram na baixada, onde a estiva tem por baixo a água suja,  o “chão de estrelas” do samba do tempo em que a favela era “lírica” para os bem postos na vida.
 
Deve haver quatro ou cinco cachorros pela rua e quando elas chegarem ele vão latir muito. Cães da rua latem por tudo e para todos. Quem sabe mais dois ou três garotos. Com fome. Esperando a mãe trazer a comida que faltou no almoço.
 
Mergulhada nesse texto, não vi quando desceram. E me senti muito mal. Como se de repente me apercebesse de que a minha solidariedade está tão nublada pelo hábito de conviver com o sofrimento alheio a ponto de transformá-lo em ficção.
 
 

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Adelina Braglia às 20:50

2 comentários

De pilantra a 22.02.2009 às 18:20

A vida está ficando num ruim muito alargado.

às vezes me parece que o progresso, afinal, fica para trás!

beijão

De Adelina Braglia a 22.02.2009 às 19:18

Não há redoma que me caiba, nem Pasárgada onde ir.

O fosso se alarga mesmo, deixando lá longe um futuro que esperávamos justo e solidário.

Beijo. De carnaval brasileiro...rsrsrs...

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